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Tal pai, tal filho?

A carreira de profissionais bem-sucedidos nem sempre se repete com os descendentes, que podem atuar em áreas distintas

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postado em 11/08/2014 09:59 / atualizado em 11/08/2014 10:02

Juliana Espanhol

 
Myriam e Gilberto Carvalho têm sucesso profissional: ela na gastronomia e ele na política (Sanfelice Massas/Divulgação        ) 
Myriam e Gilberto Carvalho têm sucesso profissional: ela na gastronomia e ele na política


Ter uma figura paterna com sucesso numa atividade profissional pode até abrir portas para os filhos que decidem seguir na mesma área. Porém, de acordo com especialistas, afinidade é fundamental para prosseguir numa atividade. Por esse motivo, muitos filhos optam por profissões diferentes da dos progenitores.

Esse é o caso de Myriam Carvalho, 34 anos, dona de uma cantina italiana. Em sua família, o gosto pela cozinha pulou uma geração: os avós de Myriam comandaram, durante 30 anos, um bufê em Londrina, interior do Paraná. Já o pai, Gilberto Carvalho, 63 anos, é um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), fez carreira na política e atualmente é ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.

“Apesar de não ter a profissão do meu pai, segui a carreira dos meus avós. Cresci nesse ambiente do bufê e, assim, fui apresentada à cozinha”, diz Myriam. Hoje, ela comanda a Sanfelice, cantina e comércio de massa artesanal que leva o nome da família de sua trisavó. As homenagens não param por aí: no cardápio, há o fettucine da vó Gera, a avó materna que inspira muito do que Myriam aplica hoje no restaurante.

Nascidos em uma família de médicos, os herdeiros de Helcio Miziara (ao centro) não seguiram sua profissão (Arquivo Pessoal) 
Nascidos em uma família de médicos, os herdeiros de Helcio Miziara (ao centro) não seguiram sua profissão


Ela acredita que o contato com a política, por meio do pai, a influenciou, ainda que indiretamente. “A minha forma de conduzir a empresa é um pouco como a política em que o meu pai acredita, principalmente na forma de pensar e nos valores passados”, diz. Entre esses valores, estão o gosto pelo trabalho e a generosidade.

Myriam foi introduzida à política cedo. “Com 17 dias, ela foi levada a uma manifestação”, diz o pai. Porém, a vontade de trilhar os mesmos passos que a figura paterna nunca foi despertada na jovem. “Sempre senti um pouco de resistência ao engajamento político em Myriam. Quando criança, ela costumava reclamar das reuniões chatas, em que ela acabava dormindo. Mas ela tem uma consciência social e de justiça, que admiro muito”, afirma Carvalho. Por parte dele, a relação com a cozinha fica restrita aos fins de semana. “Modéstia à parte, faço uma boa feijoada.”

Diferentemente do pai, o ex-jogador Pipoka, João Felipe é analista de sistemas (Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press) 
Diferentemente do pai, o ex-jogador Pipoka, João Felipe é analista de sistemas


Escolhas
“Os jovens fazem a decisão profissional muito cedo, por isso, é importante pesquisar ao máximo sobre as matérias que você terá de estudar, a rotina e o mercado de trabalho, ou seja, saber se você se identifica com a profissão”, recomenda Thiago Cardoso Costa, mestre em psicologia. Ele acredita que o sucesso dos pais pode acabar pressionando os jovens. “Principalmente quando existe uma questão financeira ou de status, os filhos podem assumir como obrigação a continuidade da carreira”, complementa.

Para o analista de sistemas João Felipe Baiocchi Vianna, 24 anos, essa questão nunca foi problema. “Meus pais sempre me apoiaram e deram suporte para as minhas escolhas”, diz. Seu pai, João José Vianna, mais conhecido como Pipoka, 50 anos, é ex-jogador de basquete. Já defendeu a Seleção do Brasil em três olimpíadas, além de ter passado pela liga americana NBA e por times europeus. Atualmente, Pipoka é professor universitário e também trabalha na Secretaria de Esporte do Distrito Federal.

“Desde que me conheço por gente, acompanho o mundo do basquete”, diz João Felipe. Com 1,94m, o jovem herdou do pai o porte de jogador. Ele chegou a jogar pelo Suzano em uma temporada na NBB, principal liga brasileira, e, atualmente, compete pelo Uniceub/BRB. No entanto, pretende investir na área de tecnologia para o futuro. “Sei que meu pai é exceção, poucos jogadores conseguem viver só do esporte. Por isso, pretendo continuar na profissão que escolhi e me divertir com o basquete”, diz ele, que estudou ciência da computação nos Estados Unidos.

Se o jovem tem familiaridade com as quadras, o mesmo não pode ser dito sobre Pipoka com relação aos computadores. “Eu sou das antigas, estou sendo apresentado agora ao WhatsApp. Enfim, não sou muito inteirado no assunto”, confessa, rindo. A escolha profissional do filho, no entanto, não é motivo de decepção. “Fico muito feliz que ele tenha estudado para isso, foi algo para o qual nós demos total apoio.” Os outros filhos do ex-jogador também seguem carreiras fora do esporte. Rebeca, 19 anos, estuda biotecnologia, e José Maurício, 18, acaba de ser aprovado para estudar comunicação organizacional na Universidade de Brasília (UnB).

Tradição
Vindo de uma família com mais de 40 médicos, Helcio Miziara, 80 anos, passou boa parte da vida se dedicando à saúde de outras pessoas. Só no Hospital de Base de Brasília, como patologista, são 43 anos de experiência. Porém, seus dois filhos, Helcio Filho, 49, e Maria da Graça, 46, seguiram caminhos diferentes. O primogênito é administrador nos Correios e a filha mais nova é empresária no ramo da moda. A tradição da família continua por meio de uma das filhas de Helcio Filho, Mariana, que é médica.

“Cheguei a pensar em medicina quando tinha uns 16, 17 anos, muito porque admiro meu pai como homem, ser humano e médico. Não fiz porque, na época, tinha dúvidas sobre o meu talento para a área”, diz Maria da Graça. Antes de se estabelecer na moda, como dona de loja e consultora, ela estudou direito e relações internacionais. “No fim, acabei aliando duas coisas que sempre me interessaram, o comércio e a moda”, explica.

Apesar de ter crescido vendo o pai na rotina entre consultas e atividades em laboratório, Helcio Filho optou pela administração, mantendo contato indireto com a medicina por meio de voluntariado em hospitais. “Tenho muita admiração pela área da saúde, principalmente, pelo trabalho de médicos que atendem os mais necessitados”, afirma.

Para o pai, o trabalho é uma questão de vocação. “Ser médico exige dedicação, não adianta fazer só porque acha bonito ou para agradar a outras pessoas. A rotina é corrida, às vezes, é preciso fazer atendimentos à noite ou durante fins de semana. Também é uma atividade que exige estômago”, diz Helcio, que já atuou como médico legista.

Ambos os filhos concordam que o pai nunca fez pressão para que eles seguissem a área de saúde. “Talvez se ele tivesse influenciado um pouco mais, eu tivesse cedido. Mas ele sempre nos deu liberdade para escolher”, explica Maria da Graça.

“Anos depois, quando eu já era pai de família, ele comentou que gostaria que um dos filhos fizesse medicina. Porém, enquanto estávamos na fase de escolher, ele nunca argumentou em favor de uma profissão”, diz Helcio Filho. A vantagem de ter filhos cujas áreas de trabalho são distintas é a troca de experiências “Sempre pergunto coisa para eles, trocamos informações”, diz Helcio Miziara.

O poder da criação
De acordo com Thiago Cardoso Costa, mestre em psicologia, a influência dos pais na decisão profissional pode ser tanto positiva quando negativa. “Não há problema em demonstrar paixão pela profissão e mostrar como é a rotina e a atividade profissional. Quando os pais pressionam ou insistem demais em determinada carreira, às vezes, inconscientemente, a influência pode se tornar negativa.”

Os primeiros sinais de alerta, segundo o especialista, são frustração e insatisfação. “Ao perceberem que fizeram uma escolha por influência externa, alguns filhos acabam culpando os pais. Nesse caso, o ideal é que eles apoiem o filho no processo de mudança”, afirma Costa. Nos casos em que ainda há dúvidas, o especialista recomenda a procura por ajuda profissional para realização de testes vocacionais .

Por outro lado, a ideia de que os pais querem que o filho siga certa profissão pode ser ilusória. “Às vezes, os filhos têm uma falsa percepção de que os pais fazem pressão para seguir numa área”, diz José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC). Uma boa conversa pode ajudar a esclarecer a questão. “Por exemplo, perguntar ao filho sobre o que ele mais gosta de fazer ou como ele se vê em 10 anos são questionamentos que podem ajudar na escolha”, diz Marques.

José Roberto Marques diz que é possível estimular algum interesses por meio da prática. “Com treinamento, pais e filhos podem trabalhar habilidades e competências para uma melhor adaptação em determinada área desde cedo. Outra alternativa é buscar uma ligação entre o que o filho gosta de fazer como hobby e a profissão do pai”, afirma.

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