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PERFIS DE SUCESSO//FRANCISMÁRIO FERREIRA DE LIMA »

O peixeiro de Águas Claras

Em feira, potiguar apaixonado por frutos do mar conquista clientela com simpatia, boa negociação e produtos de qualidade

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postado em 11/08/2014 10:08

Ana Paula Lisboa


 (Antonio Cunha/CB/D.A Press ) 


Camarões pequenos e grandes, salmão, pescada amarela, gurijuba, robalo e várias outras espécies de pescado ficam expostas todo fim de semana, das 9h às 13h, na Peixaria Água Viva, uma das barracas mais movimentadas da Feira de Águas Claras. Os produtos acabam com rapidez, já que clientes não param de chegar. “Quem vem cedo encontra os melhores e maiores”, diz o proprietário Francismário Ferreira de Lima, conhecido como Mário. Natural de Alexandria (RN) e morador de Samambaia, aos 41 anos, mexe com peixes há 25 anos e carrega a experiência de quem construiu a carreira em muitas feiras. Em um quarto de século na profissão, teve bancas nas feiras de Samambaia e de Vicente Pires. Na feira de Águas Lindas e na Feira do Guará, atuou como empregado.

Para ele, “feira é cultura” por causa do contato intenso entre as pessoas, capaz de aproximar uma comunidade. “Aqui, temos produtos diferenciados que não se encontram em supermercado, como peixe para fazer sashimi. No mercado, vem tudo cortado e embalado, e o cliente não tem opção de avaliar o produto e escolher de verdade”, compara. Outro aspecto em que a feira sai ganhando é a barganha. “Se você não negociar, você não ganha o cliente”, nota.

Para conquistar, outros requisitos são necessários. “É preciso saber conversar, ter simpatia, falar direito. Se eu falar palavrão aqui, perco o freguês.” Apesar do atendimento exemplar, Mário conta que o segredo do sucesso está mesmo na qualidade. “Os pescados vêm fresquinhos, direto do mar, porque a qualidade é a prioridade. Aqui, conservo tudo num carro-frigorífico. Esses peixes vêm do Mercado Ver o peso, em Belém, e não têm mais de dois dias que foram pescados”, garante. O valor cobrado, segundo ele, também é outro ingrediente na receita para a popularidade. “O preço tem que ser justo”, conta.

Paixão
 “Eu vim para Brasília tentar ter uma vida melhor. Comecei trabalhando em lanternagem, mas não deu certo. Foi então que eu fui aprender a ser peixeiro na Feira do Guará”, lembra. A combinação de trabalho com um gosto pessoal deu certo. “Eu sou apaixonado por peixe. Minhas filhas, de 21, 19 e 15 anos, sabem cortar e fazer peixe como eu”, garante. A paixão está na família e na comida de casa. “79% do que eu como é peixe”, calcula. Apesar de levar jeito para feirante, durante a semana, Francismário tem expediente fixo. “Trabalho há oito anos na Natural Pescados, em Samambaia. Lá, fico de segunda a sexta e, aqui, sábado e domingo”, conta. O chefe dele, inclusive, é um dos grandes incentivadores do negócio. “Ele me empresta o carro-frigorífico, por exemplo. Sou uma pessoa honesta e correta, por isso, todo patrão vira meu parceiro. É bom manter as portas abertas”, percebe. A integridade nunca lhe deixou ter problemas com a fiscalização. “Eles ficam em cima, mas, como eu disse, eu gosto de fazer tudo certinho”, conta.

Clientes amigos

Mesmo trabalhando de segunda a segunda, Mário garante que sobra tempo para folga até porque a Feira de Águas Claras, além de ser seu local de trabalho há 11 anos, é também um ponto de encontro de amigos. “Todo mundo aqui me conhece e sabe da minha vida. O contato com os clientes é maravilhoso. É um povo educado. São amigos mesmo”, diz. A freguesia não é só de Águas Claras. “Tem muita gente de Asa Norte, Taguatinga, Guará… Além da feira, tenho clientes fixos em restaurantes, para onde faço entregas.”

A dona de casa Graça Novais, 47 anos, mora em Vicente Pires, mas faz questão de vir a Águas Claras atrás de Mário. “Gosto muito do atendimento dele. O preço é bom, já que não tenho dó de comprar comida. Sou maranhense e gosto muito de peixe e de camarão e aqui encontro com ótima qualidade”, observa. A maioria dos clientes demonstra ter intimidade. Enquanto Mário corta um peixe, pesa ou embala outro, tira dúvidas de fregueses que não param de chamá-lo. “Mário, quanto você faz para mim nesse peixe?” ou “Mário, como eu preparo esse peixe?” são perguntas frequentes.

Quando um cliente pergunta como preparar gurijuba, ele indica um molho. “Coloque o peixe na panela com cheiro verde, pimentão, tomate, cebola, leite de coco e azeite. Não ponha água, deixe apenas o caldo que vai sair do próprio peixe para ficar mais saboroso. Então, é só tampar. Não é preciso lavar o peixe, mas quem quiser pode passar limão.” Camarão seco ele indica para misturar no arroz ou colocar num molho. Para tirar o cheio de peixe das mãos, ele tem uma dica infalível. “É só passar pó de café.”

Estrutura
Na Feira de Águas Claras, Mário conta com cinco ajudantes, mas, na hora de cortar, a faca só é guiada pelas mãos dele. “Rapidinho, eles aprendem o trabalho, mas só eu corto porque sou mais responsável”, explica. Além dos funcionários, o irmão, Francisco Lima, 43, é quem ajuda no caixa. “A freguesia é muito grande. Se eu não vier, ele não dá conta de todo mundo. Eu trabalho numa loja de varejo, então, apesar de não entender de peixe, sei lidar com o público”, conta Francisco. O caixa até anda moderno para uma feira: há três anos, Mário deu aos clientes uma comodidade, a opção de pagar com cartão. “A renda vale a pena em termos. O ruim é que a Feira de Águas Claras não tem água, energia ou estrutura. Então, isso dificulta o nosso trabalho e precisamos nos virar”, lamenta. Apesar disso, ele não pode reclamar do movimento. Embora não saiba dizer quantos clientes atende por dia, garante que são, pelo menos, mais de 50.

"Os pescados vêm fresquinhos, direto do mar, porque a qualidade é a prioridade”


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