Sem pensar no amanhã

Segundo pesquisa do Sebrae-SP, micro e pequenos empresários se lançam em novos projetos sem conhecer o mercado nem os clientes em potencial. Veja como a falta de preparo pode selar para sempre o destino da nova empresa

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postado em 17/08/2014 12:35 / atualizado em 18/08/2014 11:33

Juliana Espanhol

Na contramão: a administradora Andrea pesquisou bastante para avaliar a viabilidade do negócio e conhecer o mercado de lingerie plus size (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press    ) 
Na contramão: a administradora Andrea pesquisou bastante para avaliar a viabilidade do negócio e conhecer o mercado de lingerie plus size


Os aspirantes a empreendedores não refletem sobre o futuro. Essa é a conclusão de pesquisa recente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP). De acordo com o levantamento, 46% dos 2,8 mil micro e pequenos empreendimentos consultados no estado de São Paulo iniciaram os negócios sem conhecer os hábitos de consumo dos clientes ou o número de consumidores que teriam. Mais da metade (55%) não elaborou um plano de negócios nem previu como a empresa funcionaria na ausência do gestor.

Ainda que os números se refiram a apenas uma unidade da Federação, o coordenador da pesquisa do Sebrae-SP, Marcelo Moreira, acredita que o estudo traz à tona problemas que atingem outras localidades. “Pelo tamanho e diversidade do estado e pela quantidade de empreendedores consultados, São Paulo tem, muitas vezes, o poder de representar o país”, analisa. Para o coordenador e professor de finanças do Ibmec-DF Ricardo José Stefani, a falta de planejamento é comum. “Muitos empresários entram no negócio sem fazer uma pesquisa aprofundada, apenas pensando que conhecem o mercado”, diz.

Raimundo Angelino Silva, 59 anos, foi um desses empreendedores. O comerciante mantém em casa um estoque de mais de 30 tipos de doces trazidos de Anápolis e Nerópolis (GO). Ele revende os produtos a mercados e padarias de Sobradinho, Planaltina e Paranoá. No entanto, antes de abrir o negócio, há 17 anos, o maranhense só havia trabalhado como vendedor. “Comecei na cara e na coragem. Antes as minhas vendas eram no grito, já comprei e vendi fiado. Também levei prejuízo”, lembra. Por meio de cursos e pela própria experiência, Silva aprendeu a administrar as finanças e conseguiu obter crédito para investir no negócio por meio da Secretaria de Trabalho do Distrito Federal (Setrab). Hoje atende cerca de 30 clientes. “Meu diferencial é dar assistência para cada comprador. Faço questão de repor os produtos na loja e não penso duas vezes antes de trocar um produto que apresente algum problema.”

Raimundo aprendeu a se organizar por meio de cursos e pela experiência (André Violatti/Esp. CB/D.A Press) 
Raimundo aprendeu a se organizar por meio de cursos e pela experiência


Planejamento é tudo
A entrada de Andrea Vasques, 43 anos, no negócio da moda para tamanhos grandes foi bastante planejada. A ideia para criar a loja que leva seu nome veio a partir da própria necessidade, quatro anos atrás. “Para o meu tamanho, na época, só encontrava roupa íntima bege em Brasília. Identifiquei uma oportunidade para investir em lingerie sensual plus size.”

A empresária procurou orientação profissional para pesquisar o mercado e avaliar a viabilidade do negócio. Também participou de eventos e de desfiles de moda para identificar fornecedores. A partir da pesquisa, passou por um período de teste de dois anos antes de abrir a loja na Asa Norte. “Comprei um estoque pequeno e comecei a vender em feiras. No contato direto com o público, identificava do que as clientes gostavam. A maior dificuldade foi convencê-las de que todas podem usar lingerie sensual”, relembra.

Depois das feiras, Andrea abriu um pequeno estúdio onde atendia as clientes e também investiu nas vendas porta a porta. O ponto fixo veio há dois anos e meio, incorporando não só as peças de lingeries e moda praia, mas também roupas. No fim do ano passado, ela dobrou o tamanho do estabelecimento. Atualmente, o negócio conta com 1,5 mil clientes cadastradas. As peças, que variam do tamanho 44 ao 62, abusam de estampas.

Andrea acredita que a formação acadêmica em administração deu a ela uma visão realista. “Quando comecei, já sabia que dificilmente teria lucro nos dois primeiros anos. Tudo o que eu ganhei nesse período foi usado para reinvestir no negócio”, diz. Por enquanto, ela não dispensa o segundo trabalho como gerente de logística e suprimentos em uma empresa do ramo da tecnologia. “A loja é o meu sonho, mas, no momento, não posso abrir mão do meu emprego”, revela.

Quando não dá certo
A consequência mais grave da má administração, a falência, atingiu 341 micro e pequenos empreendimentos no país de janeiro a julho deste ano, de acordo com levantamento da Serasa Experian. O número é mais elevado do que o de médias e grandes empresas na mesma situação: 66 e 20, respectivamente.

“Em termos de carga tributária e distribuição, as grandes redes acabam sendo privilegiadas. O grande negócio quase sempre oferece um preço melhor. O pequeno sobrevive de teimoso, precisa buscar um diferencial para permanecer no mercado”, avalia o coordenador e professor de finanças do Ibmec-DF Ricardo José Stefani. “O preço mais baixo por si só não é mais um diferencial. O empresário deve conhecer o consumidor e oferecer algo a mais para conquistá-lo”, opina Marcelo Moreira, coordenador de pesquisas do Sebrae-SP.

Além do próprio Sebrae (veja quadro), outras instituições, como a Secretaria de Estado da Micro e Pequena Empresa e Economia Solidária (Sempes) e a Associação Comercial do Distrito Federal (ACDF), dão suporte aos empreendedores iniciantes. “Nosso papel é orientar quem deseja se tornar empresário e dar apoio aos que entraram no mercado”, resume Antônio Augusto de Moraes, secretário da Sempes.

Cursos gratuitos
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) oferece cursos de capacitação empresarial com durações variadas, presenciais e a distância. Algumas formações são gratuitas, enquanto em outras o investimento varia de R$ 30 a R$ 150, em média. Quem deseja abrir uma empresa também pode obter informações nos postos do Sebrae presentes nas unidades do Na Hora em Taguatinga e Riacho Fundo.

Unidade Riacho Fundo
Shopping Riacho Mall, 2º andar, QN 7, Área Especial 1, Riacho Fundo 1
Funciona de segunda a sexta, das 7h30 às 19h, e aos sábados, das 7h30 às 13h.

Unidade Taguatinga
QS 3, Lote 11, Lojas 4 a 8, Pistão Sul/Águas Claras
Funciona de segunda a sexta, das 7h30 às 19h, e aos sábados, das 7h30 às 13h

Informações: 0800 570 0800.

 

 

 

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