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Do baú para a vitrine

Ao atrair clientes graças ao menor preço e à exclusividade, brechós quase quadruplicam no DF. Micro e pequenas empresas representam 95% do segmento de artigos usados no Brasil

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postado em 06/10/2014 11:25 / atualizado em 06/10/2014 13:25

Gustavo Moreno/CB/D.A Press
Ana Davina não sabia mais o que fazer com a grande quantidade de roupas que acumulava no armário. Ex-coordenadora de Cerimonial e Eventos da Universidade Católica de Brasília (UCB), Ana tinha uma cerimônia por dia para conduzir. “Eu coordenava tudo, de colação de grau até festa junina. Como era sempre o mesmo público, precisava variar as roupas, os penteados, tudo”, conta. Em 2011, Ana se aposentou e decidiu limpar o guarda-roupa. Para recuperar o dinheiro investido em vestuário ao longo de quatro anos, colocou à venda, na garagem de casa no Park Way, vestidos, blusas, sapatos – peças de todos os tipos que somavam mil unidades. “Nessa brincadeira, ganhei R$ 5 mil, vendendo de quinta a sábado”, conta.

Interessada na oportunidade de negócio recém-descoberta, Ana foi com uma amiga visitar o Choose Vintage, pequeno brechó de 40m² à venda no Sudoeste. Assim que entrou na loja, encantou-se com o espaço e decidiu entrar de vez para o mercado de artigos usados. “Vi que o brechó era a minha cara e comprei na hora!”, relata. Especializado em vestuário de grifes, em 2014 o Choose Vintage completa três anos atendendo o público feminino.

Assim como Ana, outros empreendedores individuais e micro e pequenas empresas do Distrito Federal decidiram investir no comércio de artigos usados. Em cinco anos, o número de pequenos negócios no segmento quase quadruplicou no DF, com um aumento de 264%. De 77 brechós em 2007, o número passou para 281 em 2012, de acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Estilo e sustentabilidade

A consultora em economia criativa do Sebrae Regina Machado explica o crescimento do setor com base em uma mudança no perfil do consumidor. Inicialmente, o principal atrativo do mercado de artigos usados era o preço. Hoje, compradores também procuram brechós em busca de peças exclusivas e para desenvolver estilo autoral, independente das coleções de marca. “O consumidor de brechós é bem-informado e se interessa por fazer renascer a peça antiga a partir de um novo olhar. Garimpando no brechó, ele se torna o curador da própria coleção”, esclarece Regina.

Para o Gerente de Comércio e Serviços do Sebrae, Juarez de Paula, a sustentabilidade também atrai consumidores para os brechós. “Hoje, o consumidor não vê uma peça já utilizada como algo velho. Ele a compra justamente para alongar a vida útil do produto”, esclarece.

Sustentabilidade foi a motivação que inspirou Bruna Vasconi a criar, em 2007, a primeira loja do brechó Peça Rara, na Asa Sul. À época, a loja vendia somente artigos para crianças. “No universo infantil, as coisas são descartadas com muita facilidade. Gosto de falar que prestamos um serviço para quem compra e para quem vende; vamos além de vender um artigo caro a um preço mais em conta”, explica.

Devido ao grande volume de peças que chegavam para venda, a empreendedora adquiriu uma nova loja na Asa Sul em busca de mais espaço em 2010. Com o novo estabelecimento, também decidiu vender artigos domésticos. Dois anos depois, Bruna voltou a se arriscar em uma nova empreitada e atender à demanda por artigos usados masculinos, criando uma unidade apenas para eles, também na Asa Sul. Em 2013, com o objetivo de atender mais pessoas e diversificar o público, Bruna abriu mais uma unidade na Asa Norte. Hoje, o Peça Rara conta com quatro lojas, que atendem à demanda por produtos de cama, mesa e banho e aos públicos infantil, feminino e masculino.

Parceria de sucesso

Valorizada pelas empreendedoras Ana Davina e Bruna Vasconi, a parceria entre donos de brechós e consumidores pode determinar o sucesso de empreendimentos no mercado de artigos usados. Para preencher as prateleiras das lojas, as empresárias dependem de pessoas interessadas em se desfazer de antigos pertences. Elas se preocupam em atrair e fidelizar compradores a fim de manter a demanda.

O resultado pode significar uma relação mista, de comprador e fornecedor, com os clientes da loja. “O brechó cria uma convivência muito gostosa. A pessoa que compra em brechó fica viciada. A cliente que vende as roupas também compra com a gente. Ela leva um vestido e deixa outro, em vez de levar o dinheiro. Acontece sempre”, descreve Ana Davina.

Entre os desafios na relação com clientes, Bruna indica a seleção e a higienização das peças. Segundo ela, o grande volume de artigos recebido diariamente impede que a empresa se responsabilize totalmente pela limpeza dos produtos. Mesmo pedindo aos fornecedores que só tragam peças limpas, o critério do cliente pode ser menos rigoroso que o da empreendedora. Caso a peça tenha problemas demais, as donas de brechó podem descartá-las. “Grande parte das pessoas que procuram brechós são mais seletivas, de classes A e B. Assim, roupas muito usadas, com bolinhas ou um furinho às vezes não são selecionadas para a venda”, explica Ana.

A precificação também pode ser desafiadora para empreendedores do mercado de artigos usados. Ana Davina pesquisa preços em lojas de grife em shoppings e na internet, além de perguntar às clientes quanto pagaram pelo artigo que desejam vender. “Geralmente cobramos 50% desse valor”, explica. Em regime de consignação, os produtos ofertados pelos dois brechós são vendidos de forma que o lucro seja dividido igualmente entre empreendedora e cliente, o que nem sempre agrada a todas. “A loja quer uma porcentagem maior porque assumimos o custo dos impostos, do aluguel, dos funcionários e outras coisas. Mas os 50% têm se tornado menos interessantes já que as pessoas podem vender os próprios artigos usados na internet”, pondera Bruna.

Além de eventuais negociações, a intimidade entre clientes e donas de brechó favorece troca de ideias, inclusive sobre empreendedorismo no mercado de brechós. Experiente, Bruna dá um conselho: “Já conversei com muitas clientes que se identificam com a oportunidade de negócio e eu sempre falo que a coisa precisa fazer sentido para elas. Se fizer, a probabilidade de sucesso é muito mais alta. Nem sempre dá certo só por causa do investimento inicial barato.”
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