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O famoso mal necessário

Tomar decisões corretas não é sinônimo de agradar a todos. Entenda como gestores públicos de alto escalão driblam a impopularidade de medidas inevitáveis

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postado em 06/10/2014 13:49 / atualizado em 06/10/2014 14:03

Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press
Aleksandra Santos, 35 anos, é a coordenadora- geral de Recursos Humanos do Ministério da Justiça e, logo ao assumir o cargo, teve de lidar com uma situação difícil. “Os servidores estavam saindo de uma greve, e a orientação era para que cortássemos os salários de todo mundo,” relembra. De acordo com Aleksandra, a situação envolvia mais de 30 mil funcionários. “Não era a decisão que eu queria tomar, levando em consideração as necessidades financeiras das pessoas, mas foi o que tivemos que fazer.” Ela é profissional da carreira de especialista em políticas públicas e gestão governamental há 12 anos e atuou também no Ministério do Planejamento. Para Aleksandra, as decisões mais difíceis de serem tomadas são aquelas que, mesmo sendo corretas, provocam reações indesejadas na equipe de trabalho ou na sociedade.

Esse é o mesmo apontamento de pesquisa realizada pela Universidade de Harvard divulgada em agosto deste ano pela revista americana Business Week. Os pesquisadores entrevistaram 20 altos funcionários da administração do governo Barack Obama, nos Estados Unidos, e perguntaram qual foi a decisão mais difícil que já tomaram e por quê. Em quase todos os casos, a medida era vista como correta, mas era impopular: ia contra a opinião de superiores, ou desafiava a recomendação de agências governamentais, como no caso do fechamento de programas sociais populares.

Rogério Londero Boeira, especialista em desenvolvimento de pessoas e pesquisador da Escola de Aprendizagem Corporativa Cultman, pesquisou os fatores que o administrador leva em consideração na hora de tomar decisões no Brasil. “Primeiramente, ele prioriza aquilo que beneficia o chefe direto; em segundo lugar, o que agrada ao grupo; em terceiro lugar, o que lhe agrada pessoalmente; apenas em último lugar, o que beneficia o processo, ou seja, a decisão correta e objetiva”, relata o professor.

Pelo bem da sociedade

Aleksandra conta que o maior desafio na sua área é justamente combater essa cultura e criar uma administração mais eficiente. “É um ministério muito antigo. Você tem que lidar com um servidor que não corresponde a expectativas há anos e continua ali. As pessoas estão acostumadas a não entregarem os resultados adequados porque existe uma cultura patrimonialista”, explica. A última decisão de Aleksandra foi inserir um sistema de ponto biométrico para controlar o cumprimento da carga horária, mas a medida não foi bem recebida pelos demais funcionários. “As pessoas não entendem e, de fato, algumas das minhas decisões enfrentam esse problema.”

Professor de administração pública na Universidade de Brasília (UnB), José Matias-Pereira explica que, na gestão do Estado, é natural se deparar com decisões extremas e eventualmente tomar atitudes que contrariam o atual governo. “O gestor tem que estar preparado para tomar medidas que são mais importantes para o país a longo e médio prazos, e não para os governantes do momento. Isso é o que separa o bom gestor público do gestor medíocre”, sentencia. O professor explica que, na área pública, as decisões devem privilegiar o bem-estar da sociedade, mesmo que inicialmente a própria população discorde. “Políticas públicas complexas, como as de educação, saúde e transporte, envolvem uma diversidade tão grande de opiniões que podem ser aparentemente impopulares, mas a médio e longo prazo, darão retorno”, justifica.

Matias-Pereira descreve aquela que, para ele, foi a decisão mais difícil da carreira, quando participou do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). “Fiz um parecer que determinava a desconstrução de uma siderúrgica e fiz essa escolha mesmo contrariando o grande financiador de campanha política do então presidente da República”, relembra. Ele explica que a análise dos relatórios técnicos demonstrava que aquilo era o correto a se fazer.

Ariel Pares, 62 anos, é diretor do Departamento de Economia no Ministério do Meio Ambiente. Analista de ciência e tecnologia, é gestor público há quase 20 anos e foi secretário de Investimento Estratégico no governo Lula e diretor no Ministério do Planejamento. Para ele, o serviço público combina o cidadão como pessoa com a vida profissional. “É uma possibilidade de se fazer da carreira pessoal uma atividade de contribuição ao público, de transformação social. É a chance de contribuir com as mudanças sociais e econômicas do país,” afirma. Entusiasmado com as possibilidades da gestão pública, para ele, as escolhas mais custosas estão relacionadas à interrupção de projetos.

“Acho que a decisão mais difícil foi em 1999, quando o governo cortou brutalmente os recursos do orçamento e fez um ajuste fiscal dramático. Tive que cortar verbas no planejamento e interromper todos os projetos que considerava importantes. São medidas de impacto social muito negativo.” Ele relata que, na época, empresas públicas como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) tiveram que desistir de pesquisas que levaram anos para ser realizadas. “Estávamos prejudicando o futuro do país, prejudicando pesquisadores que se empenharam anos a fio. Isso tudo é muito duro.”

Pares explica que, apesar de negativas, as medidas eram necessárias. “Você só faz um ajuste fiscal cortando despesas. É a única forma de controlar a inflação para que a população tenha condições de crescimento mais sustentável lá na frente”, justifica. Na opinião do diretor, decisões difíceis são aquelas que prejudicam a sociedade temporariamente para garantir que ela venha a ganhar no futuro. Ele também citou como exemplo os malefícios ambientais da construção de uma hidrelétrica. “Você prejudica a comunidade local para produzir energia e favorecer o país, mas, para aquela comunidade, essa perda não tem preço. Dilemas assim são difíceis, mas constituem decisões que precisam ser tomadas com ganhos futuros em mente,” explica.

Questão de negociação

Apesar de a pesquisa da Universidade de Harvard se concentrar em administradores públicos, os pesquisadores acreditam que os resultados também são pertinentes na iniciativa privada. Herbert Kimura, especialista em gestão de risco e professor de métodos de decisão na UnB, avalia que, em empresas particulares, a decisão correta envolve realizar atividades que tragam benefícios para o proprietário. “Desde que propiciem um aumento da riqueza do dono da empresa, decisões, populares ou impopulares, devem ser implementadas”, afirma.

Kimura alerta para o fato de que a empresa também se relaciona com outros grupos, como funcionários, clientes, fornecedores e a comunidade. Dessa forma, a complexidade da decisão empresarial aumenta. “Uma corporação, mesmo que privada, deve gerar valor aos mais diversos interessados. Por isso, a preocupação ambiental e a responsabilidade social corporativa se tornaram elementos importantes de gestão privada e tomada de decisões,” afirma.

Guilherme Corrêa Neto, 36 anos, é sócio-diretor da Vivancy Soluções Interativas e trabalha há 10 anos como gestor de empresas. Para ele, as decisões mais difíceis estão relacionadas ao corte de pessoal. “É sempre complicado porque não se trata apenas de um funcionário: as famílias também estão em jogo, e os trabalhadores que ficam não se sentem confortáveis com a situação,” explica. Em sua administração, Guilherme relata que procura envolver e motivar as pessoas para que elas acompanhem cada decisão a ser tomada.

Para Londero Boeira, especialista em desenvolvimento de pessoas, essa é a estratégia correta. Ele defende que tomar boas decisões não é um ato de coragem, mas de negociação. “Decisões exigem um alto grau de avaliação, mas demonstrar conhecimento e informação sobre o assunto leva a equipe a pensar como o gestor. Não é uma questão de coragem, mas de quantas pessoas você consegue trazer com você.”

Empreendimento em grupo

Três passos para identificar emoções e melhorar a tomada de decisões


Rogério Londero Boeira, especialista em desenvolvimento de pessoas, explica que as emoções estão presentes em cada decisão tomada. Por essa razão, os gestores devem procurar identificá-las cotidianamente, como um exercício, para que o planejamento e a realização de projetos sejam realmente eficientes.

» Anote suas impressões: durante uma reunião, anote as impressões, sentimentos ou reações que teve sobre a conversa e peça que todos na equipe façam o mesmo.

» Compartilhe as impressões: ao fim da reunião, peça que os envolvidos troquem as anotações. É natural que as pessoas tenham percepções diferentes sobre o mesmo assunto e destaquem partes diferentes da mesma conversa.

» Negocie: Ao observar as impressões dos outros na equipe, questione as próprias percepções. Verifique se você está mais inclinado a possibilidades que trazem boas emoções. Antes de tomar a decisão final, pergunte-se “por quê?”

“Decisões exigem um alto grau de avaliação, mas demonstrar conhecimento e informação sobre o assunto leva a equipe a pensar como o gestor. Não é uma questão de coragem, mas de quantas pessoas você consegue trazer com você”
Londero Boeira, especialista em desenvolvimento de pessoas
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