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Senhor das frutas

Pioneiro na Feira do Buritis, piauiense conquista clientes com negociação de preços e oferta das mais diversificadas espécies, mesmo fora de época

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postado em 06/10/2014 14:07

Ana Paula Lisboa

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Sobre a bancada, o colorido de grande variedade de frutas atrai os passantes: desde quem deseja uma sobremesa ou lanche mais natural até quem quer levar sacas para casa. Maçã, pera, melancia e abacaxi são as mais pedidas e não podem faltar, mas também ganham atenção frutas de época, como morango e jabuticaba, e espécies menos comuns, como lichia, sapoti e mangostin. Atrás da barraca na Feira do Buriti, quem coordena o vaivém dos produtos naturais, pesa na balança antiga e informa o valor é seu Santos, como é conhecido.

Aos 57 anos, Valdinar Martins Santos mantém uma rotina agitada. Acorda todos os dias cedinho, sai de casa, na Ceilândia, ou do sítio que possui, no Setor de Chácaras da Vila Planato, rumo à Central de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa), onde escolhe as melhores frutas. Quando necessário, ele recorre a outros pontos, como a Feira da Ceilândia. “Busco frutas sete dias por semana. Não tenho fornecedores padronizados porque procuro as mais diferentes”, conta.

Além de oferecer produtos frescos e de boa origem, Santos sabe informar detalhes sobre cada um. “O mangostin, por exemplo, dá no Pará, na Amazônia e na Bahia”, ilustra. O conhecimento e a escolha do ramo de comércio são movidos por uma paixão de infância. “Eu gosto demais de fruta. É bom e saudável de comer. Como muito desde menino. Comia muito caju, goiaba, mamão e banana no Piauí. Mesmo sendo difícil de conservar, não penso em mexer com outra coisa não, nem verdura. Só fruta”, diz. O gosto pelo alimento é fácil de ser percebido: enquanto atende um cliente e outro, delicia-se com frutas. “Já comecei trabalhando nisso, nunca tive outra profissão e, se eu pudesse voltar no tempo, escolheria trabalhar com fruta de novo”, garante.

A barraca é aberta todos os dias às 8h e funciona até as 18h. Apesar de não saber informar quantos clientes atende por dia, diz que o movimento é bom devido à localização, próximo ao Palácio do Buriti. “O ponto aqui é bom. O maior movimento é de funcionários do GDF (Governo do Distrito Federal): do Palácio do Buriti, do Detran (Departamento de Trânsito), da Terracap (Companhia Imobiliária de Brasília)... Somos muito procurados também por moradores da Asa Norte. Muita gente já me conhece e me procura. Como todo comércio, alguns meses e dias são mais fortes, e outro mais fracos. No fim, vale a pena para ganhar o pão de cada dia.”

Jeitinho
Para conquistar os clientes, ele acredita que os comerciantes precisam ser flexíveis. “Tem que ter confiança… Não tem jeito de não existir fiado. Também tem muito cliente barganheiro, que diz que está caro, pede para fazer outro preço. Eu tenho que ceder. Não posso perder cliente, pois o comércio está difícil”, percebe. Para cativar a clientela, Santos oferece todas as frutas desejadas a qualquer época do ano, mesmo com valor diferenciado. “Consigo trazer toda fruta fora de época. Com irrigação e estufa, nunca falta. Só que é lógico que isso encarece, e o produto chega mais caro.” Mesmo assim, os clientes optam por pagar mais. “Procura sempre tem, mas o custo é repassado, por isso, os preços não são sempre os mesmos.”

Imigrante

Natural do município piauiense de Água Branca, Santos deixou os pais, hoje falecidos, no Piauí e veio morar no Distrito Federal com quatro amigos aos 17 anos, em 1974. “Eu queria uma vida melhor”, revela. Como cliente da Ceasa, teve a ideia de passar a vender as mercadorias que comprava. “Vendi poncã na Rodoviária, tive bancas nas feiras de Taguatinga e Estrutural, mas ser vendedor-ambulante é igual a ser cigano: anda para lá e para cá, cansa muito e nem vende tanto porque não dá para carregar tanta coisa”, conta. “Para se sair bem, é preciso achar um ponto fixo com bom movimento e vender produtos de qualidade.”

Santos começou a vender atrás do Palácio do Buriti em busca de mais um ponto, quando ainda não havia nenhuma feira no local. “Eu comecei aqui no início da década de 1980. Os ônibus do GDF tinham horário certo para trazer e levar os funcionários, e eu aparecia lá toda manhã nesses horários”, lembra. “Eu pagava o frete de uma kombi e colocava as frutas em uma lona no chão mesmo. Não tinha nem sacola, embalava tudo com jornal. Fui dos primeiros aqui, eu e a dona Anita da barraca de frutas e verduras”, relata. Com o tempo, as coisas melhoraram, a feira ganhou estrutura, Santos comprou a própria kombi e, desde 1996, conta com um funcionário de vendas. Ele lamenta, porém, alguns avanços. “A concorrência era bem menor. Naquela época, poucos mercados vendiam frutas. Era uma coisa boa de vender”, compara.

Futuro

Acostumado à boa localização da região da feira, nos fundos do Palácio do Buriti, Santos ainda não sabe o que fará caso o centro administrativo do DF seja transferido para Taguatinga. “Essa feira é muito conhecida, então, talvez, mesmo com a mudança, eu continue aqui. Taguatinga também é muito movimentada e é mais perto da minha casa… É um caso a se pensar”, admite. Pai de uma bancária de 25 anos, Santos pensa em se aposentar daqui a 10 anos. Entre os desejos para a barraca, estão a chegada de água e energia elétrica. “A localização é boa, mas falta estrutura.”
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