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Correio Braziliense

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Seja você mesmo

Estudar a cultura da empresa, saber se expressar e defender suas ideias com argumentos fortes são fundamentais nas dinâmicas de grupo em processos seletivos. E não adianta fingir: segundo especialistas, o melhor recurso do candidato é a sinceridade

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postado em 20/10/2014 10:08 / atualizado em 21/10/2014 15:36

Ana Paula Lisboa

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Falar sobre si mesmo, responder perguntas sobre atualidades e sobre a empresa e resolver um desafio com a ajuda dos outros participantes. Essas são etapas que costumam integrar uma dinâmica de grupo, fase eliminatória comum em processos seletivos para vagas de estágio e trainee. Requisitos como saber como se comportar, superar o nervosismo, comprovar que conhece a cultura da companhia e que se encaixa a ela, demonstrar poder de argumentação e capacidade de trabalhar em equipe — com os concorrentes — pode não ser tão simples, especialmente, com uma banca de avaliadores acompanhando todos os seus movimentos. Querer chamar muita atenção para si ou fingir ser quem não é também não fazem parte da solução: segundo especialistas, a naturalidade é o melhor caminho.

Carlos Mann, 23 anos, apostou nisso. Quando participava da dinâmica de grupo para seleção de trainee da Ambev, o administrador passou por uma saia justa e investiu na sinceridade para sair da situação. “Fizeram uma pergunta sobre o Marco Civil da Internet, mas eu não fazia a mínima ideia do que era. Em vez de chutar e dar uma resposta nada a ver, eu disse que realmente não sabia do que se tratava, mas que, se fizessem outra pergunta, eu poderia tentar responder. Deu certo, e eu consegui falar sobre a questão seguinte”, lembra. Durante o jogo corporativo de que participou, ele sentiu dificuldade de entrar em consenso. “Sempre havia alguém observando, e era preciso argumentar para optar pela melhor decisão. Ao mesmo tempo em que estava aberto às sugestões dos outros, eu tinha que argumentar para mostrar que a minha ideia era melhor. Competíamos entre nós, mas devíamos trabalhar em equipe pelo bem do grupo”. Extrovertido e comunicativo, ele não sente nervosismo nesse tipo de ocasião e já passou por quatro dinâmicas de grupo.

No caso de Rui, a sinceridade funcionou, mas a psicóloga e analista de Recrutamento e Seleção da Ambev Rebeca Guenka alerta que isso nem sempre é suficiente para apagar falhas. “Ele conseguiu passar na fase, mas certamente foi algo negativo. É preciso estar antenado com as atualidades. Mas é melhor ser honesto do que tentar enrolar”, alerta. Na Ambev, Rebeca está acostumada a coordenar dinâmicas de grupo. Acompanhada por um time de, em média, 15 pessoas, ela observa e faz anotações ao avaliar os candidatos. Ela revela que, no caso da empresa, o maior objetivo da fase é “filtrar pessoas que têm aderência à cultura da companhia.” A psicóloga admite que o método é subjetivo, mas há alguns pontos-chave a serem observados. “São avaliados aspectos como saber se expressar bem, apresentação e trabalho em equipe.” A analista também lista erros imperdoáveis: “Não ter pesquisado sobre a empresa, querer se mostrar demais e não saber defender suas ideias com argumentos sólidos descarta a pessoa.”

Dá para trapacear?

Um questionamento comum em dinâmicas de grupo é saber se o candidato consegue enganar o avaliador fazendo-o pensar que possui outras características em detrimento das próprias. Para a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad, isso não é possível. “Quem tenta enganar transmite uma imagem inconsistente. Não dá para atuar o tempo todo, e o avaliador percebe. É melhor não tentar manipular o processo. Seja o mais natural possível”, orienta. “Se um tímido tentar parecer extrovertido terá um desempenho ruim”, exemplifica. Além de não funcionar, o fingimento pode trazer consequências piores. “Quando você usa frases que não usaria normalmente e tenta fazer algo que geralmente não faria, o avaliador percebe que aquilo é falso, o que conta pontos negativos para você”, alerta Bob Floriano, coach, palestrante e comunicador.

Expressão

Antes de participar de sua primeira dinâmica de grupo, a farmacêutica Lia Guazzelli, 24 anos, pesquisou bastante sobre a empresa e consultou sites com dicas para a fase. Apesar da preparação, ela teve uma experiência negativa na seleção para uma empresa de medicina diagnóstica. “Tínhamos que propor soluções para implantar uma unidade da empresa numa nova região. Como sou farmacêutica, não tinha noção de economia e análise de mercado, então fiquei em desvantagem”, revela. Quanto à argumentação, Lia também ficou para trás. “As pessoas que mais se destacaram eram mais agressivas. Eu percebi, então, que o perfil buscado era mais incisivo. Depois que fui reprovada, no momento do feedback, me disseram que eu tinha ficado muito passiva, não demonstrava meu ponto de vista e não conseguia defender minhas ideias”, diz.

Uma comunicação mais eficiente poderia ter feito diferença para Lia. Segundo o coach Bob Floriano, expressar-se bem é um divisor de águas. “A comunicação é muito importante para colocar suas ideias, pontos de vista e conhecimentos de uma forma compreensível com eficiência. Em uma situação na qual a pessoa tem que conquistar os outros para ser contratada, quem conhece mais a si mesmo e, assim, tem uma comunicação mais assertiva, ganha pontos extras”, defende. Assim como não é bom ficar apático, quem tenta aparecer demais também não tem bom desempenho em dinâmicas de grupo. Bob Floriano indica que o candidato deve chamar, mas não por ter uma atitude exuberante. “A diferença entre ter boa eloquência e aparecer demais está no conteúdo. Quando você se expressa bem e claramente, mas com conteúdo, você não aparece demais. É bom para a sua imagem”, explica. “Mesmo que não tenha a mesma formação de seu concorrente, quem tem autoconfiança e consegue passar o que sabe com maior clareza fica em evidência. Acaba sendo mais fácil descobrir as habilidades de quem tem uma comunicação expressiva. Por isso, essas pessoas acabam se saindo melhor.”

Elaine Saad, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), observa que ter um bom desempenho nesse tipo de teste não é exclusividade dos extrovertidos e daqueles que dominam a oratória. “Não é porque é tímida que a pessoa não fala. A diferença é que a fala dela tem uma energia mais contida. O candidato não pode ficar mudo, mas deve falar quando achar que pode contribuir, sem exagerar.” Ela ressalta que é importante saber falar e ouvir nos momentos adequados. “Ache o equilíbrio entre participar e invadir. Dê a sua opinião; no entanto, dê espaço para que as outras pessoas também opinem.” Camila Augusta Gomes, 26 anos, graduada em psicologia, acertou nesse quesito durante a dinâmica de grupo do trainee da Ambev. “Era um jogo corporativo muito legal em que você tem uma meta a bater, mas precisa ter em mente que é mais importante buscar o bem da equipe do que cumprir sua meta individual. Fiquei muito nervosa porque é muito concorrido. Depois da dinâmica, recebi um feedback da empresa e me disseram que, assim como eu me expressava, eu também abria espaço para os outros. Isso fez diferença.”

Triagem

Segundo Elaine Saad, a dinâmica de grupo é uma prática antiga que só pode ser aplicada a alguns tipos de cargo. “É um método usado em seleções que vão até o início de gerência. Não é eficiente para selecionar executivos. A dinâmica é usada quando há um grande número de candidatos iniciais, especialmente jovens, para a vaga”, observa. Em grande parte dos processos seletivos, a dinâmica de grupo é a primeira fase presencial e constitui etapa eliminatória. Elaine Saad alerta, porém, que ela não deve substituir uma entrevista individual. A dinâmica tem acesso a um limitado grupo de características (veja quadro) que não são suficientes para selecionar um candidato. “Você pode compor a dinâmica de várias formas para ativar competências mais voltadas para aquela vaga e para aquela empresa”, explica. “Como cada dinâmica valoriza mais certos aspectos, não existe uma receita de bolo para o sucesso. Use o bom senso para ser uma pessoa agradável.”

Palavra de especialista
Diferença


Dinâmica de grupo e o uso de técnicas de dinâmica de grupo em seleções são processos bem diferentes. Quando você aplica essas técnicas em processos seletivos, cria uma situação para o candidato se inserir e demonstrar determinadas características e habilidades dentro do perfil esperado — dá para identificar como ele se comunica, como interage com os outros, se é mais tímido ou expansivo… Ainda assim, é um método superficial: geralmente as técnicas são aplicadas com tempo restrito, o que desfavorece uma percepção mais completa do candidato. Uma boa avaliação alia as técnicas de dinâmicas de grupo a uma gama de recursos, como testes e entrevistas. Às vezes, uma questão circunstancial pode influir. Com outros recursos de avaliação, a pessoa tem mais oportunidades para mostrar suas características. Dinâmica de grupo, por outro lado, é um processo de desenvolvimento grupal que aflora a partir da interação. É preciso um tempo maior juntos: pelo menos 8 ou 16 horas. É indicado para aprimorar liderança e trazer desenvolvimento de equipe e interpessoal.

Saara Hauber, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos (SBDG)

“Quem tenta enganar transmite uma imagem inconsistente. Não dá para atuar o tempo todo, e o avaliador percebe. É melhor não tentar manipular o processo. Seja o mais natural possível”


Elaine Saad, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH)

TRÊS PERGUNTAS PARA
Bibianna Teodori, executive e master coach, fundadora da Positive Transformation Coaching

Quais os maiores cuidados que um candidato deve tomar antes, durante e depois da dinâmica de grupo?
Antes, repasse o currículo e a forma como se apresentará. Conheça a empresa na qual pretende trabalhar (essa é uma pesquisa que deveria ocorrer antes mesmo da candidatura à vaga, porque se parte do pressuposto de que a escolha é mútua: a empresa escolhe o candidato e o candidato escolhe a organização). No dia da dinâmica, é importante chegar um pouco antes ao local para evitar a ansiedade. Tenha as respostas para as perguntas mais triviais na ponta da língua — por exemplo, uma grande dificuldade e como a superou, principais defeitos e qualidades. Cuide da sua imagem para que ela transmita credibilidade. Uma boa apresentação começa no vestuário, então, tenha cuidado para vestir algo adequado, mas confortável. Durante o processo, aposte na honestidade. Tenha bom humor para lidar com medo e insegurança. Mantenha clareza e objetividade ao falar e evite gírias e vícios de linguagem. Aja de acordo com a dinâmica, trabalhe bem em grupo e não exagere na autopromoção de suas competências. Ao término da dinâmica, mantenha sua autoestima intacta — independentemente do resultado. Após uma dinâmica, não há ganhadores e perdedores. O que todo processo seletivo visa é identificar se o candidato possui perfil pessoal e profissional mais próximo e adequado ao perfil da vaga que se busca preencher.

O que a dinâmica é capaz de identificar sobre o candidato?
Cada dinâmica é orientada para identificação de 15 ou até mesmo 18 qualidades ou defeitos que uma pessoa apresenta quanto solicitada a trabalhar em equipe. São utilizados modelos bastante diferentes um do outro, dependendo do que se quer verificar em relação às pessoas que participam. Utiliza-se a técnica da dinâmica de grupo porque é uma forma de nivelar pessoas dentro de um mesmo ambiente submetidas a uma mesma situação de teste, de modo que se possa investigar como cada uma dessas pessoas se comporta diante da questão apresentada.

É muito comum que a maior dica dada para a hora de uma dinâmica é “seja você mesmo”. O candidato deve se atentar a isso mesmo que saiba que possui características negativas que gostaria de disfarçar?
Sim. Se você tentar ser o que não é, terá dois problemas: poderá ser selecionado e cobrado pelo que demonstrou na dinâmica ou poderá perder a posição por não ter o perfil que eles estavam selecionando. Nada de passar uma imagem que não lhe representa. Nada de ficar forçando um teatro ali na hora da dinâmica, para depois cair em uma vaga na qual você vai ficar insatisfeito e na qual não vai conseguir atender as expectativas dos empregadores. Saiba se portar, mas não faça nenhuma encenação, seja você mesmo e se você tiver o perfil da empresa tem boas chances de ser selecionado. Se você sabe que tem uma falha, pode falar dela: diga qual é e dê uma breve explicação sobre os danos já causados por ela. Não é necessário contar a vida ou dar maiores detalhes do seu defeito, apenas explicar um ponto que você gostaria de melhorar.

Exemplos de dinâmicas de grupo
1) A um grupo de 10 pessoas reunidas, propõe-se um problema hipotético. Como por exemplo o fato de que cairá em 20 minutos uma bomba atômica sobre a região em que vocês estão; como a possibilidade do ataque atômico já existia antes, existe um abrigo especial, mas que só acolhe 12 pessoas. Além dos 10 participantes da dinâmica, que já têm lugar assegurado, propõe-se que vocês escolham, em consenso, uma única pessoa a mais para levar, entre três que estão fora do abrigo: um aidético, uma freira e uma menina. Não há como levar mais de uma pessoa, e quem ficar de fora estará com a sentença de morte decretada.
Comentário: a discussão certamente pegará fogo, porque cada pessoa tem uma carga cultural, emocional, social, familiar, que a fará ter uma prioridade diferente da prioridade do vizinho. Alguns pensarão em deixar de fora o aidético (vai morrer, mesmo...) e levar a menina (porque ela tem ainda uma vida inteira pela frente). Mas e a freira? A intenção, nesta dinâmica de grupo, é saber como cada pessoa trabalha o consenso, como consegue liderar ou como aceita a liderança, como organiza a apresentação de suas ideias, que poder de argumentação tem para levar as outras pessoas a aceitarem a sua prioridade.

2) Uma outra dinâmica de grupo, formulada especificamente para trainees da área comercial, propõe que uma das pessoas se posicione contrariamente ou a favor de um determinado programa de televisão. É uma apresentação que deve ser feita de improviso para o grupo.
Comentário: Neste caso, a intenção do avaliador é verificar a habilidade do candidato de lidar com outras pessoas (respeito, consideração, polidez) e a habilidade de argumentação, além da capacidade de verbalização e a organização de ideias. O líder da dinâmica de grupo precisa ser competente e ágil para poder avaliar todas as pessoas participantes. Às vezes, até o próprio requisitante da vaga participa, disfarçado de candidato, da dinâmica de grupo. Neste caso, mais do que nunca, não haverá segunda chance de causar uma boa primeira impressão. Portanto, fique alerta, porque o seu futuro empregador pode estar ao seu lado.

Fonte: Bibianna Teodori
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