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Receita síria

Pratos que são tradição de família, temperos guardados a sete chaves e atendimento amigável são segredo de tio e sobrinho ao comandar empório árabe no Sudoeste

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postado em 20/10/2014 10:17

Ana Paula Lisboa

Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press
A sensação de almoçar ou jantar num lar árabe. É essa a experiência que a clientela tem ao provar falafel, quibe, tabule, kafta, cordeiro, doces em formato de ninho ou massa folhada, entre outras delícias do Oriente Médio no Sadik. “O mote é ser uma casa de família, com as portas abertas, vendendo a comida de casa”, explica Yeissr Imad, 45 anos. Com o sobrinho Gassan Ghazaleh, 29, ele abriu o restaurante no fim de 2011. “Quem comia na nossa casa e era recebido do nosso jeito criava uma amizade eterna com a gente, além de adorar a comida. Se aquela fórmula não proposital funcionava, imaginamos que daria certo num restaurante”, explica Gassan. Não é à toa que o local foi batizado de Sadik, que quer dizer amigo em árabe.

O ambiente, localizado na Quadra 100 do Sudoeste, é pequeno e aconchegante e, na última quinta-feira de cada mês, é possível conferir apresentações de dança do ventre. Os sócios não revelam o movimento da casa, mas garantem que se trata de centenas diariamente. No almoço de segunda a sexta-feira, o sistema é de self-service, e o maior público é de trabalhadores. Aos fins de semana e durante o jantar em qualquer dia, moradores de Sudoeste, Octogonal e Cruzeiro enchem o espaço. Também é comum ter clientes das mais diversas localidades do DF, e até de outros estados: há assíduos frequentadores de Goiânia e Unaí. A movimentação não é fruto de propaganda. “É tudo no boca a boca. Todo o reconhecimento é baseado em comida da mamãe e atendimento simpático”, esclarece Yeissr.

Todas as receitas do restaurante são de Ousseima Imad, irmã de Yeissr e mãe de Gassan. O preparo é tradição de família guardado a sete chaves. “Os cozinheiros daqui são experientes. O chef, Paulo Cavalcanti, tem 50 anos de prática e já ajudou a abrir muitos restaurantes, mas as receitas são todas da minha irmã. Ela envia a combinação de temperos pronta para ser usada em cada prato. Nem mesmo eu e o Gassan sabemos o que são. É segredo”, explica Yeissr. A supervisão também é feminina. “Minha mãe vem aqui uma vez por semana de surpresa para checar tudo. Isso nos faz manter o padrão”, explica Gassan. “Como boa mãe árabe, está sempre dando bronca por alguma razão”, revela Yeissr. A qualidade dos ingredientes e do preparo é prioridade: não é à toa que o restaurante foi citado como um dos melhores pela revista Encontro, dos Diários Associados. “A comida é igual a da nossa casa. A carne mais comum que temos é patinho, que é de primeira”, conta Yeissr. “O cordeiro é o carro-chefe. Seja o Damasco — desfiado com arroz e lâminas de amêndoas — ou parmegiana. É diferente porque não tem cheiro nem gosto forte”, observa Gassan.

Amigos dos clientes

A equipe de 14 funcionários é dividida em dois turnos, e os simpáticos e atenciosos garçons fazem jus ao nome do restaurante. “Além da qualidade da comida, outro fator que faz diferença é que os garçons são orientados para o bom atendimento. É o que nos fez fidelizar e conquistar clientes”, conta Gassan. “A orientação é para que o atendimento não seja frio porque a casa não foi feita para isso. Tem que ser educado e fino, mas não é só isso. Um sorriso e uma conversa espontânea fazem mais efeito do que meras formalidades”, acrescenta Yeissr. A presença de funcionários estrangeiros chama a atenção. “Já tivemos egípcio, sírio, tunisiano, argelino... Ter um colaborador estrangeiro dá charme a casa. Os clientes gostam do português quebrado e os que sabem falar até arriscam pedir em árabe”, explica Gassan. Para motivar os funcionários, Yeissr e Gassan apostam na meritocracia. “Quem faz mais ganha mais. É um grande incentivo para que todos trabalhem a contento”, diz Gassan.

Veia para os negócios

A família de Yeissr e Gassan é de origem Síria e veio parar em São Paulo para tentar uma vida melhor. “Meus pais, como muitos imigrantes, fugiram de um tipo de governo”, conta Yeissr. Mexer com o próprio negócio está no sangue. “A família toda é de empresários. O veio para o comércio é muito latente”, conta Gassan. “O discurso é ‘se não for para ser médico ou advogado, abra um negócio’”, observa Yeissr. Além do restaurante, Yeissr e Gassan são sócios num escritório de marketing e venda de produtos químicos para construção. Eles admitem, porém, que a vida de empresário não é um mar de rosas. “Empreender é ir contra tudo e todos. A legislação trabalhista é muito punitiva, e a carga tributária é alta. Nada mais somos do que trabalhadores com CNPJ nas costas. Nós não vivemos uma vida de luxo. No início, trabalhamos aqui por seis meses sem nenhuma folga”, lembra Yeissr. Para dar certo, eles apostam na busca por conhecimento. “É preciso ter humildade para procurar ajuda, consultoria e estudar”, conta Gassan. Para ajudar outros empreendedores, a dupla pretende escrever um livro para ajudar quem vai abrir um novo negócio.
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