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Espelho, espelho meu...

Pesquisa revela que a beleza, em vez de ajudar, pode até atrapalhar na hora de ingressar no mercado de trabalho. Profissionais garantem que mostrar capacidade é a saída para lidar com a aparência acima da média

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postado em 27/10/2014 10:24 / atualizado em 27/10/2014 09:33

Ana Paula Lisboa

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
A modelo Jéssica Teixeira, 21 anos, usa a beleza como ferramenta de trabalho e, graças ao visual exuberante, fez diversas viagens e campanhas. Mas nem sempre foi assim: a beldade já se sentiu discriminada por ser muito bonita. “Fui eliminada de três seleções para o cargo de vendedora por causa da minha beleza. Diziam que eu não tinha cara de quem precisava do trabalho. Acho que era preconceito e inveja”, reclama. “Uma das empresas depois voltou atrás e me contratou, mas eu tive que me esforçar para mostrar que não era só um rosto bonito e que tinha capacidade”, lembra. Depois da contratação, o visual fora do comum causou problemas. “Eu sei vender, mas os outros funcionários diziam que eu era bonita demais para ser vendedora e me rejeitavam.” Entre a clientela, as reações nem sempre eram das melhores. “Era uma loja de ternos, e eu tinha de fazer as marcações dos ajustes no cliente. Passei por saia justa duas vezes porque as namoradas ficaram com ciúmes e fizeram escândalos”, relembra. Depois de tantos problemas, Jéssica pediu demissão em dois meses.

O senso comum mostra que a beleza abre portas, e Vinicius de Moraes dizia que ela é fundamental. Ter uma aparência acima da média não significa, porém, facilidade para entrar no mundo do trabalho. Uma pesquisa da empresa de recrutamento brasileira Elancers mostra que experiências como a de Jéssica podem ser mais comuns do que se imagina. Segundo o levantamento, em vez de atrair, um visual exuberante pode repelir os recrutadores. O estudo consultou 2.075 pessoas responsáveis por contratações, entre as quais 46% evitam contratar pessoas muito bonitas. Apenas 2% admitiram buscar profissionais com beleza acima da média. A boa aparência (40%) e a aparência mediana (46%) são as preferidas (veja quadro).

Os resultados não eram esperados nem mesmo por Cezar Tegon, presidente da Elancers: “Dizem que a pessoa bonita tem 50% a mais de chance que as outras, e a pesquisa revelou o contrário. Foi uma surpresa. Nos Estados Unidos, todas as pesquisas mostram que a beleza abre portas, e esperávamos que no Brasil também fosse assim. Na verdade, aqui, quem é muito belo ou muito feio está em maus lençóis. O recrutador prefere a pessoa comum”. As respostas eram anônimas, mas Tegon entrou em contato com alguns recrutadores para entender o porquê das escolhas. A partir daí, elencou possíveis motivos. “Alguém muito belo poderia trazer distrações para o ambiente de trabalho. Para uma posição próxima a um diretor ou diretora — como assistente ou secretário —, pode-se evitar um candidato com beleza acima da média para fugir de problemas com o cônjuge. Existe também o estereótipo de que pessoas muito bonitas não costumam ser inteligentes”, presume.

Tegon observa, porém, que a restrição a pessoas bonitas depende do segmento. “Áreas de atendimento, vendas, saúde e beleza procuram pessoas bonitas e exigem currículos com fotos. Nesses casos, a beleza faz diferença para melhor.” Mesmo assim, ele percebe motivos para que os belos demais sejam preteridos. “Se você está numa loja com seu parceiro, atendentes com beleza acima da média podem trazer constrangimentos. Por isso, os recrutadores acabam preferindo pessoas de boa aparência em detrimento das muito belas.”

Diferenças

Monitor de ensino especial na rede pública do DF há quatro anos, Caio Lima, 24 anos, está acostumado com piadinhas. “É bem engraçado. Existe um pouco de assédio. Costumam me chamar de Caio Castro e Jesus Luz… Já recebi cantadas de mães de alunos. Eu fico sem graça, mas tento sair de escanteio”, diz. A beleza também trouxe complicações com colegas. “Já tive problemas com professoras casadas. Às vezes, acontece de os maridos ficarem com ciúmes”, explica. Antes de fazer carreira na educação, Caio trabalhou como atendente de locadora e representante comercial. “No âmbito comercial, a beleza favorece”, percebe. Hoje Caio cursa gestão ambiental na Universidade de Brasília (UnB) e trabalha numa agência de ecoturismo e de turismo de aventura. “Na hora de fechar parcerias, sinto que minha aparência faz diferença para melhor.”

Miss DF em 2011, a advogada Alessandra Baldini, 27 anos, acredita que a beleza nunca a prejudicou ou beneficiou na carreira. “No trabalho, todo mundo me chama de miss, de forma carinhosa. As pessoas acham legal e brincam, mas não desdenhando”, conta ela, que hoje é servidora pública. No período de faculdade, porém, a beleza era mal-interpretada. “Os colegas tinham a impressão de que quem é bonito é burro. Eu sempre fui boa aluna, entrei no curso com 17 anos, era modelo e as pessoas, às vezes, perguntavam: ‘ela tirou essa nota?’. Existe preconceito.”

Cuidados especiais

Preocupar-se com o traje para a hora de uma entrevista é fundamental, mas com os resultados da pesquisa em mãos, o presidente da Elancers, Cezar Tegon, sugere que profissionais mais atraentes sejam mais contidos nessa ocasião. “Se a pessoa é muito bela, em vez de ficar ainda mais bonita para uma entrevista ou dinâmica de grupo, deve ser mais comedida. Se for mulher, trabalhe menos a maquiagem e os acessórios e evite roupas chamativas. Tanto homens quanto mulheres podem optar por vestimentas mais básicas e sóbrias”, recomenda. “Se o candidato for feio, aí sim deve investir mais na aparência: vá bem-vestido e asseado, capriche no cabelo e na maquiagem. Tente chamar atenção.” Tegon adverte, porém, que o que tem de sobressair é a capacitação.

Érika Gagliardi, professora de gestão de pessoas do Centro Universitário de Brasília (Uniceub), acredita que, atualmente, o foco da maioria dos recrutamentos e das seleções está na competência e que a boa apresentação — e não a beleza — conta pontos. “O que se procura são as habilidades técnicas e comportamentais: postura, iniciativa, criatividade, saber trabalhar em equipe... Também é preciso se vestir adequadamente para aquela empresa”, explica. Apesar disso, Érika alerta que os muito formosos podem ser, sim, preteridos. “Vai depender do preconceito e da ética de quem está contratando, mas a presença de uma pessoa muito bonita pode gerar desconforto no selecionador”, conta. “Ainda existe preconceito: os colegas ficam duvidando da capacidade, especialmente se for mulher. Mas, se a pessoa se impõe e mostra competência, os outros deixam isso de lado”, garante.

O analista de marketing Márcio Rosemberg, 29 anos, já enfrentou essa situação. “Eu via que as pessoas duvidavam da minha competência, mas, quando percebiam que eu me encaixava, eu não tinha problemas. Existe na cabeça de algumas pessoas a ideia de que a beleza é um caminho mais fácil e de que a pessoa bonita não precisa estudar para se destacar”, explica. Apesar disso, Márcio nota que, entre entrevistadoras, ele fazia mais sucesso. Além do trabalho em marketing, Márcio já fez trabalhos como modelo. “Os colegas me perguntavam por que eu não seguia a carreira artística, mas eu sempre respondi que era um hobby. Eu sou um cara muito sério exatamente para não dar liberdade e evitar comentários.”

Credibilidade

Lourdes Scalabrin, diretora estratégica do Grupo Empreza, é responsável por recrutamento e seleção de cargos de média complexidade e questiona os conceitos de beleza apresentados no estudo. “A pesquisa não explica, caracteriza ou classifica o que é boa aparência, aparência mediana, muito belo, feio… É muito subjetivo. Eu não considero essa pesquisa relevante”, critica. Segundo a diretora, o estudo contraria a diversidade. “Vai contra a política das empresas de contratar independentemente de raça, cor, deficiência…” Ela informa ainda que atributos físicos não podem ser requisitados numa vaga porque seria discriminação. “Quando nossos clientes nos passam uma vaga, às vezes, há um código de vestuário e apresentação a depender do ramo de atuação. Por exemplo, para uma empresa de cosméticos, em que é preciso demonstrar produtos, podem pedir que a candidata tenha pele e cabelos bem-cuidados, zelo com a higiene e com as unhas, além de postura e roupas adequadas. Mesmo assim, a boa apresentação — e, claro, o desempenho — importa mais.”

Para o presidente da Elancers, Cezar Tegon, a pesquisa é respeitável. “O questionário sobre a imagem dos candidatos foi enviado a 10 mil empresas cadastradas. Mais de 2 mil quiseram responder à pesquisa. É um número considerável, e não dá para dizer que não é uma pesquisa. É assim que os recrutadores se portam na hora de uma seleção”, garante.

Flávio Kothe, professor de estética da UnB, observa que o que foi constatado pelo levantamento faz sentido. “As pessoas bonitas tendem a ser mais discriminadas em funções que não sejam de contato direto com clientes, especialmente se forem mulheres”, diz. O anonimato das respostas, segundo Kothe, revela motivos menos conhecidos por trás dos processos seletivos. “Ninguém vai dizer que não vai contratar uma pessoa porque ela é feia ou bonita. O recrutador vai dizer que a vaga já foi preenchida ou não vai dar uma explicação. Os motivos que levam a uma não contratação são muito diversificados e podem até ser negativos e espúrios, mas, geralmente, mente-se a respeito disso.”

“Um homem ou uma mulher com muita beleza podem despertar problemas na empresa. Uma pessoa próxima pode confundir gestos de simpatia com abertura amorosa. É possível não contratar uma secretária muito bonita para evitar problemas em casa”, explica. Para o professor, porém, todos os aborrecimentos podem ser resolvidos e, em certos casos, a beleza pode abrir portas. “A pessoa que se sente bem na própria pele transmite isso também para as atividades profissionais de forma positiva. Os problemas que uma pessoa bonita pode vir a ter podem ser repelidos e superados se ela for bem despachada.”

Eleito o homem mais bonito do Brasil, o publicitário brasiliense Lucas Montandon, 25 anos, acredita que a aparência sempre o ajudou na hora das contratações. “Sempre fui bem-vestido para as entrevistas e fui bem recebido.” Hoje Mister Brasil 2014, ele mora no Rio de Janeiro e se divide entre a carreira de modelo e trabalhos freelancer em direção de arte. “Assim como em qualquer relacionamento, as pessoas aceitam você melhor num primeiro momento por causa da beleza, mas depois que te conhecem com profundidade, a beleza física não importa. Na área de publicidade, vale mais a competência. Para ser modelo, aí sim, a beleza conta mais que qualquer outra coisa”, conta.
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