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PERFIS DE SUCESSO//NICáCIO MARTINS DE SOUZA »

Feirante de quadras

Desde 1980, paraibano mantém barraca de frutas e verduras na Asa Sul. Entre os clientes, ele é conhecido pela qualidade dos produtos e pela simpatia

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postado em 03/11/2014 10:18

Ana Paula Lisboa

 (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press) 


Entre os moradores da 205 Sul e da 405 Sul, palavras como amigo, anjo, irmão e querido são usadas para descrever o comerciante Nicácio Martins de Souza, 69 anos. Sempre com um sorriso no rosto, o atendimento é marcado por muita prosa. “Sei muito da vida dos clientes, aqui tenho amigos de anos. Eu nem gosto de vender para quem não conversa”, revela. Segundo ele, o segredo para se dar bem com as pessoas está na educação e no respeito. “Tem que ter calma, não responder ninguém mal, mesmo se forem grosseiros. Ser honesto com o cliente e não mentir é fundamental.”

Além de um bom papo, ele fideliza a comunidade pela qualidade dos produtos. “Fruta e verdura não falta em nenhuma época do ano. Eu vendo itens dos mais variados lugares: a pera do Chile, a maçã de São Paulo, o abacaxi da Paraíba, a uva da Itália…Se alguém reclamar de um produto, eu troco na hora. É melhor eu levar prejuízo do que dar prejuízo para o cliente”, explica. Pagar fiado é cortesia reservada a quem é freguês há mais tempo. “Os que eu conheço melhor têm conta comigo. Alguns pagam por semana, outros por mês.” Em cadernos, Nicácio registra os débitos e pagamentos de cada cliente. Apesar da comodidade para o freguês, algumas vezes isso gera problemas. “Tem conta aqui até de R$ 2 mil. No geral, pagam certinho, mas tem gente que não me paga desde maio. Eu fico nas mãos de Deus porque também tenho contas para pagar”, admite.

A barraca funciona de segunda a sábado, das 7h às 13h30. O ponto fixo é a 205 Sul, mas toda terça-feira a barraca fica na 405 Sul. O dia de trabalho começa ainda de madrugada. “Acordo às 2h30 da madrugada para comprar os melhores produtos na Ceasa. Chego em casa mortinho…” O ajudante de Nicácio na barraca é Felipe da Silva Faustino, 17 anos, morador do Jardim ABC, na Cidade Ocidental. Há dois meses, ele o acompanha pelas manhãs. “Carrego os pesos que ele não pode carregar. Gosto porque é um serviço leve e tranquilo. Os clientes são gente boa”, diz.

Ele percebe, porém, que os negócios já foram melhores. “O que eu ganho dá para complementar a minha aposentadoria, que é só um salário mínimo. Já valeu mais a pena. No começo, os supermercados nem vendiam frutas e verduras. A concorrência era mínima, e as pessoas faziam fila na barraca para comprar”, recorda. Mesmo assim, Nicácio quer continuar trabalhando “enquanto tiver forças”. O único problema de saúde é a diabetes, mas ele tem ânimo de sobra para superar os dias em que se sente mal. Mas, se eu não fizesse isso, ia fazer o quê? Ficar em casa sem fazer nada?”, questiona o morador de Águas Claras. “No pouco tempo livre que sobra, eu fico com meu neto de 2 anos. Também cozinho, de tudo que aprendi com a minha mãe: peixe, frango, carne…”

Clientes e fãs

A aposentada Alvina Souza, 69 anos, é cliente de Nicácio há 25 anos e não mede elogios para o vendedor. “A gente brinca tanto. Eu o tenho como a um irmão.” Apesar de também fazer compras no supermercado, ela dá preferência à barraca. “Recomendo os produtos dele para qualquer um, são de qualidade. Também valorizo a pessoa dele, que é amigo de todos.” É o que também pensa Alice Teles Brígido, 67 anos, cliente há 20 anos. “Ele é uma maravilha de gente, é um anjo. É como se fosse um irmão.” A dona de casa Maria Menezes, 60, morou na 205 Sul por vários anos e hoje reside na 406 Sul. As idas à barraca são constantes. “Venho aqui particamente todos os dias atrás de frutas e verduras de qualidade. Fiz muitas amizades aqui na feirinha. Não posso carregar muito peso e o Nicácio sempre manda entregar na minha casa. Às vezes, eu só ligo e encomendo, mas gosto de vir pessoalmente. O atendimento é muito bom e tem a vantagem de que não precisamos pagar no dia”, diz. Antonio Mendes de Oliveira, funcionário da Lanchonete da Escola da 405 Sul também desenvolveu amizade com o comerciante. “Ele é muito querido. Até festa de aniversário já fizemos para ele.”

Imigração

Nascido e criado em Pombal (PB), Nicácio deixou a cidade em 1970 por causa da seca. “Eu tinha uma plantação, mas, como a chuva não veio, não tive retorno e fiquei com dívidas. Fui para São Paulo procurar emprego para pagar as contas. Então, acabei ficando por lá dois anos”, lembra. Em 1972, ele veio tentar a vida na capital federal. “Eu vim para ficar pouco tempo, mas, como arranjei emprego, fui ficando. Comecei trabalhando num mercado como balconista. Depois, virei garçom e até chefe dos garçons num restaurante no Conjunto Nacional. Eu tinha um chefe muito bom, mas ele vendeu o negócio. O novo patrão era ignorante e me xingou. Depois pediu desculpas e quis que eu continuasse ali, mas eu não podia aguentar aquilo”, lembra.

Depois disso, Nicácio teve sua primeira experiência com o próprio negócio: ele abriu um restaurante em Taguatinga. A empreitada durou pouco e, a convite de um amigo, foi vender frutas. “Ele era meu inquilino e me convidou para vender frutas com ele uma vez por semana na 205 Sul. Pouco tempo depois, ele voltou para a terra natal, no Piauí, e eu fiquei com o ponto.” Além dos laços afetivos com os clientes, Nicácio também criou raízes em Brasília. “Conheci minha esposa, uma mineira, aqui. Tenho um casal de filhos, um nasceu em 1980 e outro em 1981”, conta. O jeito para os negócios e a gerência passou para os filhos. “Meu filho é formado em gestão financeira e trabalha numa papelaria no Gama. Minha filha é economista e tem uma loja de moda praia. Minha mulher, aposentada, costura para ela. Todo mundo está dando certo. Minha família é toda trabalhadora”, comemora.

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