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Correio Braziliense

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Boa vontade no pódio em 2016

Os voluntários das Olimpíadas não recebem remuneração (nem medalhas), mas a experiência, além dos cursos e certificados fornecidos, enriquece a vida profissional. Vontade e espírito de equipe são fundamentais para ser selecionado

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postado em 10/11/2014 10:39

Ana Paula Lisboa


A estudante de enfermagem Larissa Brandão atuou em dois eventos esportivos e até chefiou uma equipe. Em 2016, quer trabalhar na área de saúde (Carlos Vieira/CB/D.A Press    ) 
A estudante de enfermagem Larissa Brandão atuou em dois eventos esportivos e até chefiou uma equipe. Em 2016, quer trabalhar na área de saúde


Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 estão longe de começar, mas quem quiser trabalhar como voluntário nos eventos precisa ficar de olho no prazo: as inscrições para o programa de voluntariado terminam no próximo sábado (15). A falta de remuneração não afasta os interessados: mais de 100 mil pessoas já se inscreveram para concorrer às 70 mil vagas. Entre os inscritos, estão brasileiros e estrangeiros de 180 países. Além do Brasil, as nações com maior número de candidatos são Rússia, China, Estados Unidos e México. Para as Olimpíadas são reservadas 45 mil vagas, e para as paralimpíadas são 25 mil postos. Entre as oportunidades, 1,5 mil são reservadas para o DF, onde serão sediadas partidas de futebol.

Servidor público do Ministério da Defesa, Thiago Zaccarni Paschoal, 25 anos, foi voluntário na Copa do Mundo de 2014 e pretende repetir o feito nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. “Os cursos trouxeram enriquecimento e certificados, e eu me esforcei para ter assiduidade e tirar boas notas nos testes. Mas o que eu aprendi vai muito além: foi uma experiência muito gratificante por ter conhecido muita gente e pelo sentimento de poder ajudar. Na prática, eu desenvolvi habilidades de comunicação, desinibição, iniciativa… Foi tão bom que quero ser voluntário nas Olimpíadas”, diz.

Thiago Zaccarni Paschoal: experiência na Copa do Mundo motivou candidatura para os jogos olímpicos (Ed Alves/CB/D.A Press  ) 
Thiago Zaccarni Paschoal: experiência na Copa do Mundo motivou candidatura para os jogos olímpicos


Nas Olimpíadas de 2016, ele almeja trabalhar na área de saúde, já que é ex-militar e participou de vários cursos de socorrista. Pessoas com habilidades específicas como Thiago são muito bem-vindas. “Precisamos de um grande número de médicos, enfermeiros, massoterapeutas, técnicos de enfermagem e outros profissionais de saúde, por exemplo”, observa Flávia Fontes, gerente do Programa de Voluntários Rio 2016. Os especialistas em áreas como saúde, esportes, idiomas, logística, tecnologia e transportes ocuparão 40% das vagas disponíveis para voluntariado. Os generalistas são 60% do total e assumirão funções em que não é necessário ter conhecimento prévio, como bilhetagem e credenciamento. Para a área de atendimento ao público em geral há 30 mil vagas.

Os eleitos
Flávia Fontes ressalta que o programa não tem limite de idade. “A partir dos 18 anos, qualquer um pode participar. Temos uma inscrita de 84 anos. Todas as instalações são acessíveis, então os deficientes também podem se candidatar”, conta. O número de inscritos pode assustar, no entanto, para esse processo seletivo, querer é poder. “É uma grande seleção de massa em que a paixão e a vontade de participar são mais valorizadas do que o conhecimento”, declara. Heloisa Coelho, diretora de Cidadania e Voluntariado da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Nacional), frisa que a oportunidade não é restrita a quem tem muito tempo livre. “Um funcionário pode agendar as férias ou conquistar a liberação da empresa para participar.”

A ficha de inscrição é usada como currículo, e o formulário leva cerca de 30 minutos para ser preenchido. Depois da inscrição, a próxima etapa é uma dinâmica on-line e, por fim, uma entrevista. O treinamento é composto por quatro pilares: aprendizado sobre os jogos, treinamento na função e na instalação, treinamento em serviços e aula de idiomas. Os 70 mil voluntários também receberão uma licença para estudar inglês on-line.

Com a missão de entrevistar e selecionar 70 mil pessoas estão 1,5 mil selecionadores, também voluntários, treinados e comandados pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Nacional). Em seis centros de recrutamento — um em Brasília, dois no Rio de Janeiro, um em São Paulo, um em Salvador e um em Belo Horizonte —, eles serão os responsáveis por escolher os voluntários eleitos. “Para as vagas de especialista, o conhecimento será observado também. Mas, em geral, o que conta é vontade e habilidades interpessoais”, revela Heloisa Coelho.

Aprendizado
Com duas experiências de voluntariado em grandes eventos esportivos no currículo, a estudante de enfermagem Larissa Brandão, 21 anos, procura a terceira oportunidade nas Olimpíadas. “Na Copa das Confederações, em 2013, e na Copa do Mundo, em 2014, eu fiquei no estádio orientando o público e organizando filas”, lembra. Apesar de não falar nenhum idioma além do português, a jovem aprendeu a se virar. “Em espanhol, eu conseguia entender algumas coisas. Para inglês e francês, fiz umas colinhas para ajudar.” Na Copa do Mundo, ela também teve a chance de liderar. “Fiquei responsável por seis pessoas. Para lidar com uma equipe num evento importante, você tem que ter domínio da situação, então, desenvolvi muito minhas habilidades. Foi tão bom que quero ir para as Olimpíadas agora”, brinca. “Eu tenho pouca experiência, mas o voluntariado demonstra meu interesse por coisas novas, a curiosidade, a iniciativa… Acho que os empregadores observam isso.”

Sócio da empresa de recrutamento e seleção BR Talent, Rudney Junior endossa a opinião de Larissa e afirma que um voluntariado do tipo traz uma série de aprendizados (veja quadro). “Desenvolve-se dedicação, capacidade de organização, jogo de cintura e trabalho em equipe. Não é um fator determinante para uma contratação, mas é um plus.” Para Janice Valia de los Santos, pró-reitora de Graduação e Extensão da Universidade Cruzeiro do Sul, responsável por uma série de trabalhos voluntários da instituição, o valor desse tipo de experiência não se limita a fins curriculares. “A atividade torna o jovem mais habilidoso e competente para enfrentar os problemas do dia a dia — numa empresa ou em qualquer outro local. É importante para adquirir experiência fora dos padrões acadêmicos”, observa.

Por isso, a pró-reitora acredita que vale a pena, sim, abrir mão da remuneração. “Levando em consideração a oportunidade de adquirir experiência, de praticar outra língua, de aperfeiçoar habilidades de comunicação, entre outros benefícios, vale muito mais do que estagiar durante um mês ou fazer uma imersão”, diz. Segundo Flávia Fontes, gerente do Programa de Voluntários Rio 2016, os participantes recebem muito em troca. “A pessoa doa o tempo, que é o bem mais valioso, mas conhece pessoas do mundo inteiro, desenvolve uma função diferente, aprende a trabalhar em conjunto...”, diz.

Motivação
Segundo Heloisa Coelho, diretora de Cidadania e Voluntariado da ABRH Nacional, os motivos para querer ser voluntário não importam. “Numa sala com 50 candidatos, teremos 50 motivações diferentes. Alguns querem ver os jogos, outros desejam ocupar o tempo livre, um grupo vai para fazer networking… Todas as motivações são válidas. Tudo que leva ao voluntariado é positivo.” Rudney Junior, da BR Talent, alerta, porém, que participar apenas para ver os jogos não faz sentido. “É preciso ter consciência de que será corrido e desgastante: você vai trabalhar muito mais do que usufruir do evento.”

Ele avalia que os brasileiros não estão acostumados ao trabalho voluntário, mas que grandes eventos esportivos estão causando frisson em torno do assunto. “Muita gente quer participar para guardar isso em sua história de vida e poder dizer que participou das Olimpíadas.” Entrar no programa de voluntariado se perguntando por que não vai receber pelos serviços prestados também não é uma boa alternativa. “O Comitê Olímpico teria condições de pagar por isso, mas não é essa a questão. O que está em jogo é a mobilização do país para fazer o evento acontecer”, defende.

Recompensas
Habilidades desenvolvidas com voluntariado

» Agilidade
» Iniciativa e proatividade
» Capacidade de resolver problemas
» Comunicação interpessoal
» Fluência em línguas
» Saber trabalhar em equipe
» Liderança
» Networking
» Valorização da diversidade
» Consolidação de valores éticos e
de cidadania
» Engajamento social
» Autoconfiança
» Construção de amizades
» Capacidade de lidar com situações imprevistas
» Organização

Fontes: Janice Valia de los Santos, Rudney Junior, Flávia Fontes e Heloisa Coelho

Inscreva-se


» Os interessados podem se inscrever até 15 de novembro pelo site www.rio2016.com/voluntarios ou pelo telefone 3004-2016 (ligação local de qualquer região do Brasil). Para participar, é preciso ter 18 anos até fevereiro de 2016 e disponibilidade mínima de 10 dias para atuar durante os eventos. Os 70 mil selecionados serão alocados em nove áreas de atuação: atendimento ao público, esportes, imprensa e comunicação, apoio operacional, produção de cerimônias, protocolo e idiomas, serviços de saúde, tecnologia e transportes. Todos terão a oportunidade de realizar curso on-line de inglês por um ano e receberão treinamento específico sobre a função. Além dos cursos, os selecionados recebem transporte gratuito na área metropolitana da cidade em que vão atuar, alimentação nos dias de trabalho e uniforme completo, composto por camisa, calça, meia, tênis e mochila.

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