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Fogo de palha

Quem vive trocando de emprego corre mais risco de ser rejeitado em entrevista de trabalho, diz pesquista. No entanto, segundo especialistas, a experiência variada dos profissionais instáveis pode se tornar um diferencial

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postado em 05/01/2015 10:40 / atualizado em 05/01/2015 10:43

Ana Paula Lisboa

Bruno Peres
Passar por muitos empregos na carreira pode ser mal-visto no mercado de trabalho e dificultar futuras contratações. Essa é a constatação de uma pesquisa da empresa de recrutamento e seleção Robert Half. Foram ouvidos 1.185 diretores financeiros de empresas de nove países, incluindo o Brasil. Para boa parte dos gestores brasileiros entrevistados (20%), cinco trocas de emprego ao longo de 10 anos são o bastante para o trabalhador ser considerado instável. Mais da metade dos líderes nacionais (53%) acredita ser muito provável a rejeição desses profissionais em oportunidades de emprego — número acima da média dos outros países, que foi de 38%. Especialistas afirmam, no entanto, que candidatos com histórico de curta permanência nas corporações devem aproveitar a oportunidade de provar seu valor.

“Não se deve rotular alguém por ter passado períodos curtos nas empresas, mas ouvir as razões das saídas. Não significa que a pessoa não seja qualificada. Porém, se a situação se repetiu em várias organizações, a questão tem de ser checada”, defende Bruno Goytisolo, sócio-diretor da consultoria Véli Soluções em RH. No entanto, ele ressalta que considera “curto o período de um ano ou menos, pois é pouco tempo para ter aprendizado e apresentar resultados numa organização”.

Para Goytisolo, não se deve dispensar nenhum candidato com base apenas no currículo: é na entrevista que se identifica se o candidato é inconstante. “O recrutador pede para que o candidato relate sua experiência de trabalho, da mais recente para a mais antiga. A partir disso, ele avalia se a evolução do profissional nas empresas foi coerente com o período trabalhado, então checa o que o fez sair de uma empresa e ir para outra”, afirma.

Experiência
Na opinião do diretor do Instituto Brasileiro de Vendas, Carlos Cruz, o profissional que passa pouco tempo em uma organização dificilmente domina o funcionamento e a cultura da empresa, mas passar por vários empregos pode trazer aprendizado. “Eu me pergunto: por que a pessoa saiu? No tempo em que permaneceu na empresa, o que realizou? Se o trabalho era temporário, por que não foi efetivado? Se não houver consistência no que o candidato fala, fico inseguro quanto à contratação. Quando o profissional tem talento, entrega resultado e gera valor para a empresa, então a companhia vai querer ficar com ele. No entanto, a saída pode não depender do funcionário; tudo tem de ser analisado”, explica Cruz.

O próprio Carlos Cruz já avaliou um currículo “instável”: a candidata havia passado por cerca de cinco empresas durante um período de cinco anos e estava fora do mercado de trabalho havia outros cinco. Ainda assim, foi contratada. “Na entrevista, ela demonstrou que tinha vontade, capacidade e necessidade de trabalhar. Entendemos o momento de vida por que ela estava passando e a contratamos para uma função pouco especializada, mas não faço isso com frequência. Antes de aprová-la, obtivemos referências junto à empresa anterior, senão seria dar tiro no escuro”, alerta.

O publicitário Léo Chacel, 33 anos, é um trabalhador que se beneficiou pulando de emprego em emprego. Nos seis anos em que morou nos Estados Unidos, os trabalhos temporários foram muitos: limpou piscina, recolheu lixo em acostamento de autoestrada, fez registro de cadáveres no correspondente ao Instituto Médico Legal (IML), cozinhou queijo numa empresa multinacional, trabalhou em loja de discos e construiu e pintou paredes. Por duas semanas entregou pizzas. De volta ao Brasil, trabalhou por um mês em uma agência de viagens, até que conseguiu emprego temporário embrulhando presentes de Natal na Livraria Cultura. “Viram meu caso como sinal de experiência e de proatividade, e eu fui subindo na empresa até assumir o cargo de gerente de estoque. Não tinha tempo ruim para mim, nem cargo baixo demais”, lembra Chacel, que, após cinco anos na livraria, se tornou tatuador e hoje tem o próprio estúdio de tatuagem.

Atrás de desafios
A arquiteta Raquel Beck, 39 anos, passou por cinco empresas nos últimos três anos e está atrás de uma oportunidade melhor no momento. “Eu não quero ser assistente, quero ser uma arquiteta desenvolvendo projetos”, diz. “Da última vez, mudei de empresa porque recebi uma proposta melhor. Nunca fui demitida. Mudo quando vejo que não há mais para onde crescer. Eu me incomodo com a falta de desafios.” Ganhos salariais não estão, necessariamente, em vista quando Raquel procura outro emprego. “O grande motivo é a minha inquietação de querer mais e de aprender. Minha satisfação é o desafio, é sair da zona de conforto.” A profissional, que se mudou de Porto Alegre para Brasília há dois anos, percebe que as passagens curtas no currículo podem ser encaradas de maneiras distintas. “Os recrutadores mais jovens me veem como uma pessoa dinâmica, que busca coisas novas. Os mais antigos me avaliam como instável, acham que eu não paro num lugar.”

Acsa Vasconcellos, psicóloga e sócia do Instituto de Integração Homem Trabalho (Insight), observa que as pessoas que mudam muito de emprego podem sofrer com rótulos preconceituosos. “Não é correto estereotipar uma pessoa como profissional instável: é preciso investigar o que motivou as trocas de emprego. Muitas vezes, a saída é baseada numa seleção não eficiente — quando está trabalhando, a pessoa percebe que não se encaixa. Tem gente que muda de emprego porque está buscando novos desafios. Há muitos motivos”, observa. Segundo Acsa, porém, recrutadores sem conhecimento na área de recursos humanos não costumam investigar essas causas. “Eles podem generalizar e já cortar o currículo de uma pessoa antes mesmo da entrevista. É preciso ver o contexto”, avalia.Ela observa, porém, que as mudanças constantes podem ser causadas pela falta de maturidade do profissional. “As pessoas trocam seis por meia dúzia sem avaliar o contexto e o que passar mais tempo numa empresa pode agregar. Um profissional pode aceitar sair do emprego por um salário R$ 50 mais alto.” Do mesmo modo que instabilidade pode ser má vista no mercado, Acsa acredita que ser estável demais também é negativo. “A pessoa que está na mesma função há anos pode ser vista como sem perspectiva e ambição, como alguém que não vai atrás de novos desafios.”

Dando a volta por cima
Juliane Pelissari, psicóloga e coordenadora de desenvolvimento organizacional em uma empresa farmacêutica, afirma que a troca recorrente de emprego não é mais tão mal-vista como em outras épocas, em que era comum passar a carreira inteira em uma mesma companhia. O caso só é mais complicado quando se trata de profissionais de chefia. “Se pessoas de cargos elevados, como gerentes e diretores, passam por muitas empresas ao longo da carreira, isso se torna preocupante, pois é complicado contratar alguém para cargo de confiança e não poder contar com ela por, pelo menos, cinco anos”, diz.

Embora defenda que profissionais com histórico de pouca permanência nas empresas não devam ser desprezados em seleções, Juliane acredita que o passado deve servir como critério de desempate. “Se há dois colaboradores com perfis e habilidades semelhantes, mas um é mais estável que o outro, pode ocorrer de se escolher aquele a esse por segurança. Mas deixar de chamar para entrevista por causa disso, jamais.”

Se a inconstância é muito evidente, ainda é possível reverter a situação. A dica de Bruno Goytisolo, sócio-diretor da consultoria Véli Soluções em RH, é colocar no currículo as razões das saídas de maneira bastante resumida e prepará-lo em, no máximo, duas páginas, de forma sucinta e limpa, para atrair a atenção do recrutador e aumentar as chances de o candidato ser chamado para a entrevista pessoal.

“Na entrevista é possível argumentar e detalhar o que não é possível inserir nessas páginas. O que a empresa menos quer é que o funcionário entre e fique pouco tempo. Ele não começa produzindo o máximo que pode e tem um período de adaptação. Todo empregado que sai leva consigo informações da prática profissional da corporação, e o capital intelectual vai embora; por isso, sair cedo não é bem-visto”, conclui Goytisolo.

Troca-troca

Estudo do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que mudar de trabalho é cada vez mais comum entre os brasileiros. Em 2013, de cada 10 empregados com carteira assinada, seis passaram por desligamento e admissão no posto. A maior parte das rescisões ocorreu entre profissionais jovens e menos escolarizados. Entre 2002 e 2013, 45% das saídas de emprego vieram com menos de seis meses, e 65% das contratações não completaram um ano de duração. O maior número de desligamentos ainda parte dos patrões, mas as saídas a pedido do trabalhador cresceram na última década, passando de 15,6%, em 2002, para 25%, em 2013, motivadas pelo aquecimento da economia e pela redução do desemprego, segundo a pesquisa.

 

 

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