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Correio Braziliense

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Passando a limpo

Sobram oportunidades para aprendizes em empresas de limpeza e conservação, que chegam a ser multadas por não conseguirem contratá-los. O setor é encarado com preconceito pelos jovens, mas há esforços para oferecer mais cursos de formação técnica

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postado em 15/02/2015 14:17 / atualizado em 15/02/2015 14:25

Juliana Espanhol

André Violatti
Estudantes quase não têm ingressado no setor de limpeza e conservação como aprendizes. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), dos 340 mil aprendizes admitidos em 2013, apenas 1,9 mil estavam no ramo. Empresas da área reclamam dos altos investimentos para a divulgação das vagas, sem o devido retorno, além da aplicação de multas por órgãos de fiscalização às organizações que não contam com aprendizes no quadro de funcionários. Afinal, segundo o Decreto Federal nº 5.529/2005, empresas de médio e grande portes (com mais de sete empregados) são obrigadas a contratar, jovens de 14 a 24 anos como aprendizes. O número mínimo desse tipo de contratação é de 5% sobre o total de funcionários.
“Entre os nossos associados, há quem tenha recebido multas que vão de R$ 300 mil a R$ 3 milhões”, conta Edgar Segato Neto, presidente da Federação Nacional das Empresas de Serviços e Limpeza Ambiental (Febrac). Para a federação, a falta de mão de obra é consequência, principalmente, do pouco interesse de adolescentes para entrar no ramo. “Os que ainda estudam não se interessam em trabalhar na área de limpeza. Os pais não querem os filhos nesse ramo porque o trabalho é visto como algo que não dá futuro”, argumenta.

Outras reclamações do setor incluem a falta de cursos de formação técnica na área, um dos requisitos para que o estudante exerça a função, já que podem ser aprendizes estudantes de ensino médio ou de ensino técnico em área relacionada. No entanto, a coordenadora-geral de Preparação e Intermediação de Mão de Obra Juvenil do MTE, Ana Alencastro, explica que há esforços para que mais cursos sejam criados. “Estamos trabalhando na expansão para oferecer formação técnica em todos os setores da economia”, diz. A associação de empresas do ramo com um trabalho braçal pode afastar jovens que não sabem que há outras opções dentro das organizações. “Não é porque a pessoa trabalha numa empresa do setor de limpeza que deve ser aprendiz de faxineiro. O estudante pode fazer um curso que envolva aquela atividade e dê formação para outras ocupações, como limpeza ambiental — área de estudo que inclui conhecimentos sobre reciclagem e uso de materiais alternativos —, por exemplo”, explica. Ainda assim, para a federação, a situação é complicada. Por isso, ela propõe que o percentual de aprendizes seja calculado sobre o número de funcionários da administração da empresa. “No caso de empresas grandes, a quantidade de aprendizes pode superar o número de funcionários de escritório, que é onde conseguimos colocá-los. Para atender à cota, só abrindo mão de efetivos”, diz Segato.

André Violatti
Controvérsia

Há quatro anos numa empresa do setor de asseio, conservação e serviços terceirizáveis, Gustavo Pereira, 20 anos, conseguiu um emprego de assistente pessoal na mesma firma onde foi aprendiz por dois anos e fazia serviços administrativos. “A área é meio discriminada, ninguém quer trabalhar com limpeza. Acho que os jovens preferem serviço no escritório e não percebem que isso existe em empresas de conservação”, diz. Com a expectativa de cursar administração no futuro, ele acredita que a prática como aprendiz será positiva para alcançar novas metas profissionais. “Acho que a experiência vai me ajudar pelo conhecimento e pela maturidade que adquiri durante o ensino médio”, completa.

O caso do assistente administrativo Richard Lopes, 26 anos, é curioso: quando adolescente, acabou trabalhando na área de limpeza a contragosto, num órgão público. “Quando entrei, não sabia que faria esse serviço. Eu fazia troca de papel higiênico e de galão d'água, coisas de responsabilidade do pessoal da limpeza”, lembra ele, que, na época, fazia curso técnico de auxiliar administrativo. Ele confessa que, se tivesse informações precisas sobre as atribuições, teria pensado duas vezes antes de aceitar a vaga. “A pessoa mais nova busca sempre o melhor. Ninguém quer que os colegas saibam que ele trabalha naquela área, é até motivo para bullying”, afirma. O jovem ficou na função por um ano, depois procurou outra empresa, onde foi aprendiz em sua área de estudo. Filha de uma funcionária da área da limpeza, Ana Paula Silva, 20 anos, cursa supletivo de ensino médio. Ela não pretende seguir na mesma área que a mãe e percebe que os serviços gerais não são bem vistos pelos jovens. “Mesmo que não tenham preconceito, as pessoas com quem convivo ainda prefeririam trabalhar em empresa de outro ramo.”

Edgar Segato Neto explica que o setor de limpeza acolhe um percentual considerável de trabalhadores de 18 a 24 anos no entanto, são pessoas que não atendem às condições para serem aprendizes — que incluem estar na escola, ou, caso tenha concluído o ensino médio, estar fazendo curso técnico. “Cerca de 30% dos trabalhadores estão na faixa etária, mas não estão em fase escolar. Muitas vezes, têm filhos e não podem se manter com a bolsa”, explica. Com o salário mínimo-hora de R$ 3,58, um aprendiz deve receber, no mínimo, R$ 357,99 para 20 horas semanais. Num regime de 30 horas por semana, o valor mínimo sobe para R$ 536,99.

A área de limpeza não é a única que passa por dificuldades para cumprir a lei: empresas de vigilância, de motoristas e de combustíveis também esbarram em impedimentos, seja por oferecerem ambientes possivelmente perigosos, seja por lidarem com instrumentos que só podem ser manuseados por maiores de idade. Por isso, foi formado um grupo de trabalho com representantes do governo e do empresariado para discutir o assunto. “A expectativa é que, até abril, tenhamos propostas para resolver a questão”, comenta Ana Alencastro.

Oportunidades
O superintendente educacional do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), Eduardo de Oliveira, acredita que a aprendizagem é um tipo de qualificação positiva para a carreira. “Além de cumprir a questão legal, as empresas buscam novos talentos. O jovem que participa desse tipo de programa tem chances de ser efetivado”, diz. Segundo ele, as áreas administrativas e comerciais são as que mais oferecem vagas. De acordo com o MTE, 80% dos jovens continuam no mercado formal após a conclusão do período de aprendizagem. “Um ponto positivo é que o vínculo em evita que os jovens larguem a escola”, percebe Ana Alencastro.

Aprendiz há 3 meses, Laine Alves, 14 anos, pretende usar o dinheiro da bolsa para, futuramente, custear uma graduação em medicina. “É bom ter meu dinheiro”, diz. Apesar de estar trabalhando em escritório no setor de limpeza, a adolescente garante que não teria preconceito com o serviço braçal. “É o tipo de coisa que faço em casa, e eu ganharia um salário da mesma forma.”

Procure sua vaga

Saiba onde se inscrever para ser aprendiz. Vale lembrar que, como o jovem trabalhará em regime celetista, o interessado deve ter Carteira de Trabalho e cadastro de pessoa física (CPF). Além dos meios descritos abaixo, algumas empresas fazem seleções independentes.

Portal Mais Emprego
No site mantido pelo MTE, há espaço para que empregadores cadastrem vagas, disponibilizadas para trabalhadores inscritos.
Acesse: maisemprego.mte.gov.br

Cadastro Nacional de Apredizagem
O site permite que os interessados vejam as ofertas de cursos de aprendizagem por município.
Acesse: www.juventudeweb.gov.br/indexPesquisaAprendizagemInternet.asp

Agências
Os interessados podem encontrar vagas diretamente em agências de aprendizagem. Nas páginas 5 e 6 do caderno Trabalho & Formação Profissional e no site www.correiobraziliense.com.br/euestudante, é possível acessar a lista de oportunidades para esta semana oferecidas por CIEE, IEL, IF, Espro, Super e Brasília Estágios.

Novo Pronatec
Oferta de mais vagas
Em acordo fechado na última quarta-feira (11), o governo federal criou o Pronatec Aprendiz na Micro e Pequena Empresa. A expectativa é gerar 12 milhões de vagas em cursos técnicos até o fim de 2018. A iniciativa faz parte do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e cobrirá os custos de treinamento e acompanhamento dos estudantes do Pronatec Aprendiz na Micro e Pequena Empresa, enquanto as empresas pagarão os salários. Os jovens poderão trabalhar até 6 horas por dia (fora do horário escolar). Durante o programa, o aprendiz terá vínculo empregatício, com anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social. As empresas devem recolher 2% de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), e não haverá verba rescisória. Para participar, as micro e pequenas empresas precisam ter, ao menos, um trabalhador contratado para cada jovem aprendiz.

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