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REINGRESSO

Uma segunda chance

Em tempos de economia desacelerada e falta de emprego, profissionais investem em capacitação na busca por recolocação no mercado. Saber o que se quer é fundamental na hora de tomar coragem para começar de novo

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postado em 15/02/2015 14:44 / atualizado em 15/02/2015 14:50

Carlos Vieira
A economia brasileira terá crescimento reduzido em 2015. Altas taxas de juros, queda nos investimentos da indústria, inflação e desaceleração na produção estão levando empresas de diversos setores da iniciativa privada à reformulação do quadro de funcionários. Em períodos assim, o custo-benefício é responsável por muitas dispensas. Esse é o caso da administradora Gabriele Guimarães, 29 anos, desempregada há um mês. Ela atuava em uma companhia de tecnologia da informação como gestora de qualidade e planejamento estratégico, mas viu a função ser retirada da firma devido a um corte de gastos. “Foram eliminados cargos que sobrecarregavam a empresa financeiramente”, lamenta. Consciente das necessidades do mercado, Gabriele se prepara para fazer uma pós-graduação enquanto busca um novo emprego.

A instabilidade na economia força a reavaliação das funções e das qualificações dos candidatos a ingresso ou reingresso no mercado de trabalho. Independentemente de idade ou de quanto tempo está fora do mercado, empresas buscam funcionários que demonstrem interesse, comprometimento, estabilidade e produtividade. Denize Athayde, professora de economia e gestão de recursos humanos da Fundação Getulio Vargas (FGV), considera necessário que o aspirante a uma vaga faça um alinhamento de planos pessoais e profissionais. “A recolocação é um projeto de vida. É importante definir metas e estabelecer diretrizes”, orienta. Assim, quem possui as qualificações necessárias e quer se destacar entre os concorrentes deve transmitir confiança e passar aos avaliadores a certeza de que não haverá pessoa mais qualificada para a vaga.

Tomando as rédeas
Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 29 janeiro, a taxa de desemprego nesse início de 2014 repete a de 2013, permanecendo em 4,3%. A estagnação ocorre por dois motivos principais: a diminuição de cargos de ocupação e a redução da procura por trabalho. Apesar de o índice de desemprego ser o menor desde março de 2002, a previsão para 2015 não é favorável. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de desemprego no Brasil deve continuar crescendo, e a previsão é que atinja 7,1%, em 2015, e 7,3% até 2016. Segundo Carlos Alberto Ramos, especialista em economia do trabalho da Universidade de Brasília (UnB), o momento é “desfavorável para a criação de empregos”. Na prática, a alta taxa de juros força a indústria a desacelerar a produção, diminuindo o número de postos de trabalho. “Qualquer vaga que tinha potencial para ser aberta num mercado em crescimento não surge.”

O professor analisa que o primeiro semestre de 2015 deve ser marcado por menor produção e redução de salários e prevê mudanças para 2017 ou 2018. “Até lá, o ajuste fiscal deve trazer melhora para as expectativas das indústrias e o aumento do consumo.” Apesar do cenário adverso, André Freire, presidente da Odgers Berndtson, empresa de capacitação e recolocação de executivos, observa que o mercado busca pessoas que possuam um conjunto de qualificações que englobem qualidade técnica, inteligência emocional e trabalho em equipe. Num momento de economia instável, mesmo um profissional gabaritado pode concordar com uma oferta mais simples de olho no futuro. “Em uma fase de crise como essa, é indicado dar um passo para baixo, aceitar um salário menor e acumular funções para voltar a crescer com a organização em outro momento.”
Freire ressalta, porém, que o profissional não pode esperar um crescimento gratuito. “As pessoas pensam, equivocadamente, que o empregador tem um plano de carreira para elas. A empresa tem um plano para ela mesma, o plano de carreira é seu. É preciso tomar as rédeas, fazer planos e tomar decisões.” Entre as medidas mais importantes, ele destaca a busca por capacitação. “O desempregado deve parar e pensar em fazer cursos rápidos. Quanto mais especializado em uma área, maior a chance de contratação. Se enquanto estava empregada a pessoa não conseguiu salvar economias para investir em uma pós-graduação, existem cursos on-line que são uma opção mais em conta”, acrescenta.
A busca por capacitação foi fundamental na carreira da advogada Larisse Souza, 27 anos. Após a formatura, ela passou dois anos desempregada. “Procuravam um pós-graduado, com experiência no mercado. Eu não tinha um diferencial para me destacar nos critérios necessários”, lembra. Após enfrentar 20 entrevistas, sem sucesso, investiu em uma pós-graduação em direito e jurisdição e, antes do término do curso, foi contratada por um escritório de advocacia, onde atua desde 2012.

Postura apropriada
Segundo pesquisa realizada pela Manager Empregos, site de recursos humanos de São Paulo, com 132 profissionais de RH e mais de mil funcionários de empresas privadas de diversos setores, 21,87% dos candidatos a emprego são desclassificados por falta de conhecimento técnico. De acordo com o relatório, ter mais anos de estudo aumenta em 85% as chances de contratação. No entanto, cumprir os requisitos técnicos não garante a contratação. Currículos inadequados e mau comportamento nas entrevistas são responsáveis por 20% das desclassificações. “Essas são as etapas mais importantes, pois o candidato pode mostrar capacidades e se fazer conhecido pela empresa em que deseja atuar. Um currículo mal redigido pode ser o primeiro motivo para eliminar um candidato”, afirma André Freire, da Odgers Berndtson.

Para ele, o currículo ideal é simples e de fácil entendimento, deve ter, no máximo, duas páginas e conter um breve resumo da história profissional do candidato. Outro fator importante é adaptar o documento aos objetivos a serem alcançados dentro da empresa. “O melhor é que o currículo não tenha um formato sólido. Ele deve ressaltar as características pessoais de relevância específica para cada local e vaga pretendida. Ao mesmo tempo, não pode ser um livro, com informações demais”, pondera. O especialista destaca a importância de estabelecer uma linha de raciocínio lógico na descrição da trajetória profissional. “O que chama a atenção são as transições entre um emprego e outro. Não é preciso muitos detalhes, mas a empresa quer ver uma carreira de crescimento. É assim que o recrutador pode compreender aonde o candidato espera chegar e como ele vem se preparando para isso. Buscar capacitação, mesmo estando desempregado, demonstra que o candidato consegue manter o foco no plano de carreira, apesar das dificuldades.”

Na entrevista, sinceridade e transparência são recomendadas, além de boa disposição e apresentação pessoal, com traje adequado ao ambiente de trabalho. “Muitas vezes, o candidato está tão cansado de passar por processos seletivos que deixa transparecer isso no comportamento. O entrevistador tem que sentir que ele tem sede de fazer acontecer e que realmente quer estar ali. Veio para a entrevista? Então, dê o seu melhor. Muitas pessoas têm as características necessárias, mas não são selecionadas por falta de postura apropriada”, afirma André Freire.

A entrevista é o momento para o candidato se apresentar à empresa e mostrar que tem uma vida pessoal alinhada à cultura da companhia. “O currículo já foi lido, não precisa repetir o que está escrito ali. A vida da pessoa não está resumida ao âmbito profissional. Os recrutadores querem que o candidato conte sua história. Casou-se? Teve filhos? Fez uma viagem, ou viveu algo importante para seu crescimento pessoal? A empresa quer conhecer e investir na pessoa que vai ajudá-la a crescer”, explica Freire. A professora da FGV Denize Athayde ressalta ainda que a entrevista é uma via de mão dupla. “Não se fala só aquilo para o que você está preparado; é preciso saber ouvir e responder com sinceridade”, alerta. Perguntar quais os benefícios oferecidos pela empresa e o que é esperado dos funcionários conta pontos positivos, pois demonstra que o candidato se imagina assumindo a vaga.

 

 

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