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O mundo empresarial é delas

Número de empresárias aumenta com velocidade e, em 10 anos, pode superar o percentual de homens empregadores. Mulheres burlam o preconceito e a jornada dupla para abrir o próprio negócio

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postado em 01/03/2015 10:53 / atualizado em 03/03/2015 17:57

Ana Paula Lisboa

Marcelo Ferreira
Cerca de um terço dos empreendedores do país são do sexo feminino, mas se o crescimento da quantidade de empresárias continuar na proporção da última década, o cenário pode se inverter. O Anuário das Mulheres Empreendedoras e Trabalhadoras em Micro e Pequenas Empresas, publicado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), revelou que, entre 2002 e 2012, o número de empregadoras no Distrito Federal cresceu 64%, contra pouco mais de 10% de crescimento entre empresários. Simone Jabour, 50 anos, é uma das donas do próprio negócio da capital federal e garante que ser mulher sempre foi importante para a empresa. “Temos sensibilidade, olhamos todos os detalhes, enquanto o homem vê mais o início do processo e o resultado final. Fazemos tudo com mais cuidado e carinho. A mulher pode não perceber, mas é forte e guerreira”, observa.

A trajetória da fundadora do bufê e confeitaria Sweet Cake, criado em 1993, serve de exemplo para as filhas, Gabriela, 27 anos, graduada em nutrição, e Luiza, 23, formada em gastronomia, que hoje trabalham com ela. “Minha mãe é a general da loja”, comenta a caçula. Como no caso de muitos negócios, o início da atividade empresarial começou com o crescimento da família. “Parei de trabalhar para cuidar dos filhos. Em casa, passei a produzir doces para fora e, aos 25 anos, abri a loja”, conta Simone. Hoje, a unidade do Lago Sul recebe, em média, 180 clientes por dia; na Asa Sul, o número sobe para 300. A empresa também atende de 70 a 80 festas por mês e conta com 92 funcionários. “Sou empresária, mãe de três filhos. Dei conta de tudo”, comemora. Apesar dos avanços na sociedade, Simone percebe que as mulheres enfrentam dificuldades a mais. “A gente sempre sofre um pouco de preconceito.” As tarefas domésticas também são uma realidade para ela. “Além da empresa, na minha casa, cuido de tudo: administro, limpo, faço compras”, diz. “Nós a admiramos muito”, conta Gabriela, que, agora também acumula uma jornada dupla com a chegada de Artur, 5 meses.

Crescimento

O percentual de aumento no número de empregadoras no DF é o quarto maior no país, sendo superado apenas por Sergipe, Acre e Ceará. Entre 2002 e 2012, o crescimento do número de empregadoras no Brasil foi de 19% e de 18% para empreendedoras em geral (veja quadro). Segundo a diretora de Gestão e Produção do Sebrae-DF, Cassiana Abrita Garcia Brandão, os resultados podem ser comemorados. “A expectativa é que, nos próximos 10 anos, essa ascensão continue, pelo menos, nesse ritmo. Podemos até superar os homens.”

Cassiana avalia que as mulheres de negócio ainda têm desafios a enfrentar além da jornada dupla: a entrada em áreas predominantemente masculinas e a presença em cargos de gestão. “Executivas e gestoras de grandes empresas são destaque na mídia, pois antes isso era incomum. Apesar disso, elas superam barreiras e preconceitos e, aos poucos, ocupam seu espaço”, comemora. O aumento expressivo da quantidade de empreendedoras em Brasília se deve ao crescimento do ramo de serviços, segundo Jorge Fernando Valente de Pinho, professor aposentado do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB). “O forte da economia aqui é o setor de serviços, por isso as mulheres têm crescido e apresentam resultados até superiores. A mortalidade das micro e pequenas empresas também está menor. Ainda não há dados históricos que permitam fazer correlações, mas houve melhoria, e há uma probabilidade forte de isso estar relacionado com a presença de mais empreendedoras no mercado.”

 

Ronaldo de Oliveira
Vida de mãe
Abrir o próprio empreendimento é uma opção cada vez mais comum para quem precisa conciliar a profissão e o cuidado com a casa e os filhos, como observa Cassiana Brandão. “Sendo dona do próprio negócio, há mais flexibilidade para administrar o próprio tempo.” Essa foi a saída encontrada por Vanessa Oliveira, 34 anos. Questionada por um superior sobre o que era mais importante para ela — a maternidade ou a vida profissional —, ela decidiu sair do emprego em 2010. “Eu trabalhava em assessoria de obras da construção civil e fazia muitas viagens. Chegava a levar minha filha para o canteiro”, lembra. A ideia de investir em uma nova carreira surgiu por acaso. “Uma amiga tinha morado na Nova Zelândia e comentou que lá era comum ver publicidade nos saquinhos de pão, coisa que não existia aqui.” Hoje, a empresa de publicidade em saco de pão se expandiu em formato de franquia, possui 165 unidades em todo o Brasil e imprime 1,8 milhão de sacos por mês. Apesar de ainda ter pouco tempo disponível, Vanessa consegue se dedicar mais à filha de 4 anos. “Achar que vai trabalhar menos sendo empreendedora é uma ilusão, mas tenho flexibilidade nos horários. É possível conciliar, e o empreendedorismo pode tornar isso mais fácil.”

Fundadoras da Ambiente Eficiente, consultoria em edificações sustentáveis que atende a 10 construtoras e incorporadoras no DF e em outras capitais, as arquitetas Ana Maria Nicoletti, 52 anos, e Darja Kos Braga, 42, também comemoram a flexibilidade. “Somos responsáveis por todos os laudos e temos que estar à frente de tudo. Ser empresária realmente demanda mais do que ser funcionária, mas você tem horário flexível para se dedicar à família”, diz Darja, que veio da Eslovênia e é mãe de dois filhos. A jornada dupla, porém, nunca foi empecilho para crescer. “Sempre trabalhei, cuidei dos meus dois filhos e dei conta de tudo. Somos supermulheres”, diz Ana Maria. A empresa foi a primeira do DF na área de eficiência energética e tem evoluído bastante. Ana Maria avalia que o mercado está mais aberto. “A aceitabilidade de um negócio independe de o empresário ser homem ou mulher. Leva-se em conta a qualidade.”

Gestão sensível
Um dos segredos para o sucesso nos negócios liderados por mulheres está na sensibilidade, como no caso da empresária Simone Jabour, da Sweet Cake. “Elas sabem tratar bem o público. Isso é muito importante no comércio”, avalia a diretora de Gestão e Produção do Sebrae-DF, Cassiana Brandão. Eline Kullock, especialista em RH, presidente e fundadora do Grupo Foco, observa que características inerentes às mulheres são úteis na gestão de um negócio. “Sensibilidade, intuição e empatia são alguns desses traços. Geralmente, a mulher tem capacidade de comunicação e senso de comunidade mais bem desenvolvidos. A capacidade de lidar com vários assuntos ao mesmo tempo é bem-vinda. Elas também sabem ler melhor as emoções dos clientes”, observa. Com a presença cada vez maior de mulheres em diferentes esferas, a especialista não se surpreende com o crescimento do número de empreendedoras. “Estamos acompanhando uma feminilização do mercado.”


Capital empreendedora
A Endeavor, organização de fomento ao empreendedorismo, lançou o Super City, jogo que reúne dados oficiais do Índice de Cidades Empreendedoras (ICE-2014) sobre 14 capitais brasileiras, incluindo Brasília. A plataforma promove uma competição saudável e chama a atenção do público para os desafios do ambiente empreendedor brasileiro. O game revela que 30% da população do DF tem potencial empreendedor. Por aqui, o tempo médio para abrir um negócio é de 75 dias. O preço do m² figura como o segundo mais caro, atrás apenas do Rio de Janeiro. Brasília figura em 5º lugar no ranking do ICE. Brasília também aparece como o segundo maior mercado, atrás apenas de São Paulo, devido ao alto poder de consumo dos brasilienses. Acesse: supercity.endeavor.org.br.

 

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