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EXECUTIVAS »

Ainda longe do topo

Mulheres são minoria em altos cargos de chefia. Desequilíbrio entre as horas dedicadas ao trabalho e à família é um dos empecilhos para a presença feminina nesses postos. Empresas podem oferecer medidas para ajudar

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postado em 09/03/2015 10:57 / atualizado em 09/03/2015 11:12

Juliana Espanhol

Breno Fortes
No mundo, apenas 24% dos cargos de direção sênior são ocupados por mulheres. A proporção encontrada no Brasil é semelhante, onde a presença feminina nesses postos corresponde a 22%, de acordo com pesquisa da consultoria de negócios Grant Thorton, divulgada no ano passado. Estudo da consultoria Bain & Company, também de 2014, apresenta números desanimadores: 4% dos principais executivos entre as 250 maiores empresas brasileiras são do sexo feminino. “O acesso de mulheres a cargos de topo de carreira, tanto no setor privado quanto no público, é baixo em comparação à quantidade de trabalhadoras inseridas no mercado”, afirma Tania Fontenele, economista e pesquisadora em gênero. “As mulheres ainda sofrem com uma herança social de discriminação e com a tripla jornada — de trabalhadora, de mãe e de esposa”, explica. Para os empregadores, a divisão desequilibrada de funções familiares é apontada como o principal entrave para a ascensão de mulheres, de acordo com pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O esforço pelo delicado equilíbrio entre as diferentes esferas da vida é uma constante na trajetória de mulheres que atingiram altos cargos profissionais. “Passei por situações em que fui para casa, botei minha filha para dormir e voltei a trabalhar”, conta Silvia Fazio, 43 anos, presidente da Women in Leadership in Latin America (Will) — organização lançada em 2014 para estimular o desenvolvimento profissional feminino na América Latina — e sócia do escritório de advocacia Chadbourne & Parke LLP. A advogada considera a busca por harmonia entre casa e trabalho importante para a própria satisfação.

 

Outro ponto crítico da vida profissional de muitas mulheres, a maternidade pode ser um período ameno, a depender da política da organização, como conta a diretora de Marketing e Vendas Varejo da Pfizer, Erika Pagani, 37 anos. “Minhas filhas têm 4 e 6 anos. Felizmente, pude sair tranquila, não tive o temor de voltar à organização numa posição inferior”, relembra. A engenheira civil está há 11 anos na companhia, tendo ingressado na área de Inteligência de mercado. A filial brasileira da empresa farmacêutica adota, desde 2008, um programa que visa à valorização feminina, com benefícios como horários flexíveis, licença-maternidade de seis meses, horário diferenciado para a saída às sextas-feiras. Em seis anos, o percentual de trabalhadoras na chefia da empresa passou de 23% a 50%. “Agora, sempre temos mulheres nos processos seletivos, e a escolha é pautada pela meritocracia; tanto que temos conseguido atingir nossas metas”, diz Cristiane Santos, responsável pelo programa Diversidade & Inclusão da Pfizer.

Disparidade
De acordo com pesquisa do Fórum Econômico Mundial, a igualdade de gênero no Brasil ainda está longe de ser alcançada. O país aparece com 0,694 ponto no índice da organização — quando mais próximo de 1, mais igualitária é a sociedade (veja quadro). Com a pontuação, o Brasil fica em 71º lugar entre 142 países. Outras nações da América do Sul, como a Argentina, a Colômbia e o Chile aparecem em posições mais altas no ranking: 31º, 53º e 66º, respectivamente. Paraguai e Uruguai ficam em 81º e 82º lugares. Quando observado o índice sobre disparidade salarial entre homens e mulheres que realizam o mesmo trabalho, a posição do Brasil cai para 124 na lista, com índice 0,51.

A injustiça salarial permeia as mais diferentes carreiras mundialmente, chegando inclusive ao universo do cinema. A desigualdade foi assunto até mesmo na premiação do Oscar 2015, realizada em 22 de fevereiro. Depois de receber o prêmio de melhor atriz-coadjuvante pela atuação no filme Boyhood, Patricia Arquette defendeu igualdade de salários e de direitos para as mulheres. O discurso foi aplaudido com entusiasmo por estrelas como Merryl Streep.

 

Luta contra os clichês
O cenário de desigualdade não deve ser motivo para esmorecer, e o Brasil apresenta melhora. De acordo com pesquisa do site de colocação profissional Catho, houve aumento de 109,93% no número de mulheres que ocupam postos de vice-presidência de 2002 a 2015. A quantidade de presidentes cresceu 67,96%. O crescimento em cargos de gerência e de supervisão foi de 82,17% e 76,79%, respectivamente. Na opinião de Dezée Mineiro, 52 anos, CEO da DQS na América Latina, multinacional especializada em certificação de qualidade, ser levada a sério ainda é uma questão a ser superada para mulheres em posições de destaque, principalmente num ambiente muito masculino. “Muitas vezes, a mulher é mal interpretada. Se um homem toma uma atitude que não era esperada, é considerado corajoso. Quando uma funcionária faz o mesmo, é vista como emotiva”, afirma. Desde 2004 no cargo mais alto da empresa, ela está à frente de uma equipe de 150 pessoas. Entre as unidades da companhia, presente em 80 países, o resultado da filial comandada por Dezée se destaca.

Para a presidente da rede de salões especializada em cabelos cacheados e crespos Beleza Natural, Leila Velez, 41 anos, a chave para chegar ao topo é empenho. “É preciso ter resiliência e persistência. Ser apaixonado pelo que faz e acreditar no próprio potencial. Por outro lado, é preciso manter o pé no chão, pesquisando o mercado em que está e se capacitando.” O quadro de funcionários da rede é composto por 90% de mulheres, sendo que 70% são ex-clientes. Ex-funcionária de uma lanchonete fast-food, ela comanda, com os sócios, 3,5 mil colaboradores em 18 unidades em cinco estados.

 

Em 10 anos de empresa, a administradora Lorena Porto, 35 anos, chegou à diretoria executiva do Hospital Anchieta, localizado em Taguatinga. Ela começou a carreira no próprio hospital, tendo passado pelas áreas de Recursos Humanos e de Logística e Infraestrutura. Como jovem líder, aposta na flexibilidade para lidar com a diversidade de pessoas. “O segredo é usar instinto feminino e jogo de cintura. A formação acadêmica também ajuda a entender que cada geração é diferente”, diz. À frente de 1,8 mil funcionários, entre médicos e demais colaboradores, Lorena acredita que características femininas são fundamentais na área de saúde. “Se eu pudesse escolher um dia para representar um hospital, seria o Dia da mulher ou o Dia das mães, pois o papel feminino tem tudo a ver com se colocar no lugar no outro, acolher, ouvir, ser resiliente”, afirma.

Quando assumiu a área de Eventos e Incentivo da empresa Nascimento Turismo, Silvia Paes Leme, 50 anos, era a única funcionária. Em 10 anos, o departamento se tornou uma empresa-irmã, com cerca de 40 empregados. Apenas no ano passado, o faturamento da empresa aumentou em 18%. “Acredito que a visão acalentadora da mulher é uma vantagem. Às vezes, é preciso sair um pouco do papel de gestor e estender a mão ao colaborador, não há problema nisso”, afirma.


Conscientização
Apoiada por personalidades como a cantora Beyoncé e a diretora de Operações do Facebook, Sheryl Sandberg, a campanha Ban Bossy (banbossy.com) estimula a liderança entre meninas. Para a executive e master coach Bibianna Teodori, medidas podem ser tomadas para que crianças sejam educadas com consciência. “É preciso que meninos e meninas realizem tarefas domésticas com igualdade.”


Desigualdade

4%
Percentual de mulheres entre os principais executivos das 250 maiores empresas brasileiras

22%
Participação de mulheres em posição de chefia no Brasil

Fonte: Bain & Company e Grant Thorton

 

 

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