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Correio Braziliense

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Uma carreira na internet

Mais que diários virtuais, blogs são vitrines para pessoas comuns mostrarem a própria personalidade e ganharem seguidores - e dinheiro também. Veja como jovens transformaram um passatempo em trabalho e inspire-se. Profissão ainda não é regulamentada

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postado em 16/03/2015 10:37 / atualizado em 16/03/2015 11:00

Ana Paula Lisboa

André Violatti
Engana-se quem ainda acha que blogs não são assunto sério. Existe até curso superior de olho na nova carreira. Buscando profissionalizar quem atua no ramo e suprir necessidades do mercado, o Centro Universitário Belas Artes, de São Paulo, iniciou, neste semestre, a primeira turma do curso de mídias digitais sociais. Apesar de não ser exclusivo para a profissão de blogueiro, os graduados estarão aptos a produzir qualquer tipo de conteúdo para internet, inclusive sites pessoais.

A blogueira mais influente do Brasil e a quinta do mundo, segundo o site Signature9, é a recifense Camila Coutinho, 26 anos, que emprega cinco pessoas e tem, inclusive, assessoria de imprensa no exterior. Há sete anos, ela criou o Garotas Estúpidas numa madrugada de insônia para falar sobre estilo, beleza e celebridades e, hoje, recebe 6 milhões de acessos por mês. Quem acompanha pode até pensar que é apenas diversão e glamour, mas Camila se graduou em design de moda antes de falar sobre o tema na internet. “Era um hobby, mas começou a dar o mesmo retorno financeiro que meu trabalho como assistente de estilista, então larguei o emprego.”

A carreira ainda não é regulamentada, mas Camila não tem dúvidas: “Está mais do que claro que blogueira é uma profissão. Tenho uma empresa, contrato pessoas e pago impostos como todo mundo.” Ela não revela quanto lucra com a página, mas diz que, após dois anos, “começou a dar um retorno legal”. A jovem encara a influência na web com responsabilidade. “Não criei o blog para ser influente, mas atinjo muita gente, inclusive meninas novas. Tento não incentivar o consumo desenfreado e mostro que, para ter estilo, não é preciso gastar muito.”

Com 40 mil leitores por dia no Diário de acessórios (www.diariodeacessorios.com.br), criado em 2008, a brasiliense Denise Gebrim, 31 anos, exibe looks do dia, dá pitaco no visual das famosas e compartilha detalhes glamorosos de sua rotina, como ida a salões de beleza e restaurantes, comparecimento a eventos e viagens — a última foi a Semana de Moda de Milão, que terminou em 2 de março. Antes de começar a escrever para a internet, ela se graduou em marketing de moda em Milão e fez um curso de design de moda em Brasília.  “A profissão de blogueira está sendo reconhecida, é algo sério. Conheço minha leitora; existe uma abordagem específica para meu público”, diz. As postagens patrocinadas trazem rendimentos ao blog, mas Denise garante ser criteriosa. “Para falar de um produto, tem que ser algo que eu realmente usaria. Quando uma postagem é paga, prefiro dizer logo e ser transparente”, observa.

Para Jorge Adriano, gestor de Processo de Inovação e Tecnologia do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o profissional digital é uma figura ainda pouco conhecida e estudada, mas que precisa demonstrar experiência e conhecimento. Blogueiras que se especializam na área de atuação e têm domínio do assunto escolhido para o blog, como Camila e Denise, estão no caminho certo. “Embora seja um profissional novo, ele precisa se especializar. As pessoas não percebem que, assim como você pode se tornar famoso da noite para o dia, pode fazer o contrário e jogar sua reputação no lixo”, alerta. A fama pode ser altamente rentável. Apesar de a maioria não divulgar os rendimentos, é um ramo lucrativo, e muitos fazem do site a única fonte de renda por meio de parcerias comerciais e propagandas. Um post patrocinado pode chegar a custar R$ 15 mil entre blogs da plataforma F*Hits, a primeira entre páginas de moda e beleza, por exemplo (veja quadro).


Regularização
A facilidade de começar uma página on-line e o crescimento de blogueiros têm atraído aspirantes para a área. A brasiliense Luísa Ferrari Tomé, 23 anos, criou o La Luisité (laluisite.com) há apenas um mês, mas percebe resultados. Com receitas vegetarianas e criações DIY (Do It Yourself — faça você mesmo), a página conquistou mais de 500 seguidores no Facebook. “Após terminar a faculdade de psicologia, senti que era a hora de criar o blog. Tem muita coisa que eu fazia, receitas, criações no cabelo. As pessoas me pediam dicas e me incentivavam a criá-lo.” Ela tem investido em novos equipamentos para melhorar a qualidade técnica dos vídeos que publica, espera que os números aumentem e diz que poderia até viver da nova profissão caso alcance sucesso. A empresária e consultora de marketing digital Julia Morales, CEO do portal Brazilian Blogs, avalia que investir seriamente no site desde o início é um dos passos para o sucesso. “Como em qualquer novo negócio, é preciso investir e se dedicar.”

A profissionalização trouxe burocracias para o empreendedor digital. “É interessante procurar um contador, alguém que auxilie nos procedimentos: é necessário se regularizar. O blogueiro é um microempreendedor, deve emitir nota fiscal, ter reservas financeiras e pensar em contribuir para a previdência social”, aconselha. Segundo Roberto Lemos, apesar de a profissão ainda não ser reconhecida regularmente, as perspectivas são otimistas. “Os investimentos crescem cada vez mais, e os profissionais estão procurando entender esse universo para criar conteúdos adequados. A tendência é continuar crescendo”, acredita.

A designer Sabrina Olivetti, 36 anos, e as jornalistas Marina Fabri e Thais Marques, 29, criaram o blog Coisas de diva como um passatempo para falar sobre moda e beleza e hoje comandam o nono blog mais influente do Brasil segundo o site Signature9. Elas não esperavam tanto crescimento e encontraram na formalização do negócio o maior desafio. “Tivemos que aprender sozinhas a montar uma empresa e passar por todos os processos burocráticos envolvidos”, conta Sabrina, que lista como os maiores benefícios da profissão poder trabalhar em casa, fazer o próprio horário, não ter chefe e poder mexer com uma paixão: os cosméticos.

Independência
Além de se capacitar e se dedicar, focar mais na qualidade do que em lucros comerciais é uma das chaves para conquistar leitoras e manter uma postura bem-vista nas redes. É nisso que aposta a jornalista paulistana Juliana Romano, 25 anos. Ela poderia viver apenas do faturamento do Entre topetes e vinis (www.juromano.com) — criado em 2009 para muheres plus-size — que recebe 500 mil visitas mensais, mas prefere manter um emprego como repórter para ter liberdade editorial. “Trabalhando, posso negar qualquer publicidade em que eu não acredite.” Seguindo o mesmo caminho de independência, o mineiro Ique Carvalho, 32 anos, é dono de uma agência de publicidade e criou o The Bro Code (www.thebrocode.com.br) há dois anos, onde fala sobre o amor. Em menos de três meses, vendeu 15 mil exemplares do livro Faça amor, não faça jogo, baseado nas publicações da página. Apesar de ter sido procurado por anunciantes, negou os pedidos. “Escrevo para as pessoas conhecerem umas às outras internamente, para isso não há produto”, conclui.


Rendimentos

  • Presença em eventos com vídeo – R$ 2.500 a R$ 25.000
  • Presença em eventos com post – R$ 2.500 a R$ 25.000
  • Post – R$ 1.000 a R$ 15.000
  • Vídeo – R$ 1.500 a R$ 40.000
  • Menção – R$ 500 a R$ 25.000

Referência de valores usados pela plataforma F*Hits

 

Palavra de especialista Ética na internet

Não há exigências para assegurar um comportamento ético no espaço virtual. É perigoso confiar em tudo que se fala na internet, e o público precisa ter discernimento. Toda blogueira é formadora de opinião, e o maior interesse de manter a credibilidade deve partir dela. Ela tem que merecer a confiança das pessoas para não sofrer represália dos próprios leitores. Não é crime fazer merchandising, mas uma blogueira honesta vai procurar anunciar produtos confiáveis. O público dos blogs ainda é limitado, não chega a 30% da população, mas a tendência é que, daqui a uma geração e meia, alcance 50% ou 70%. A amplificação dessas páginas é um processo irredutível.

Luiz Carlos Iasbeck, professor da Universidade Católica de Brasília, pós-doutor em comunicação e cultura

 

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