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Sabedoria antiga para a vida moderna

Em Gracián e o mundo empresarial, Luis Roberto Antonik reúne práticas do autor espanhol para homens e mulheres de negócio de hoje. Obras clássicas podem despertar o desenvolvimento profissional de empreendedores

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postado em 16/03/2015 10:54 / atualizado em 16/03/2015 11:02

Ronaldo de Oliveira
Mais que um manual de autoajuda a executivos, Luis Roberto Antonik oferece lições para agir com prudência e comedimento em Gracián e o mundo empresarial. Ele ensina que praticar o bem, ser cauteloso e estratégico são atitudes valiosas para aprimorar relacionamentos profissionais e mostra que tentar entender as pessoas pode aprimorar e maximizar a convivência profissional e social. Autor de obras como O príncipe revisitado: Maquiavel e o mundo empresarial e Compreenda os momentos de sorte e azar, o geógrafo, economista e administrador Luis Roberto Antonik levou três anos para reunir práticas que, segundo ele, influenciam homens de negócios em todo o mundo há quase 400 anos.

“O conhecimento que Baltasar Gracián tinha sobre as pessoas lhe permitiu compor uma obra, cujos conselhos continuam válidos até hoje”, comenta sobre o líder do conceptismo — estilo literário caracterizado pela sobriedade e pela concisão. Gracián (1601-1658) foi um prosador espanhol e escreveu oito livros (alguns deles usando pseudônimos), sobre temas como a ética da vida e a arte da escrita. O maior ensinamento deixado por Gracián está em ser precavido ante as circunstâncias. Esse é o destaque do livro A arte da prudência, em que o autor clássico reuniu 300 aforismos sobre as relações humanas, que funcionam como um manual estratégico para viver bem.

O ponto forte da obra de Gracián é a atemporalidade. “A linguagem atual e explicativa leva as palavras de Baltasar Gracián para pessoas nos primeiros passos da carreira. Existem excelentes versões dessa obra em português, mas o linguajar rebuscado torna a leitura difícil. Além disso, nenhuma dessas explica muito sobre o texto”, observa Antonik. Ele defende que, por mais que alguns conselhos de obras clássicas possam parecer absurdos nos dias atuais, ainda é possível tirar ensinamentos aplicáveis à atualidade.

Verdades atemporais
Um artigo publicado em outubro de 2013 pela The New School for Social Research revelou que, além de expandir o repertório cultural, clássicos da literatura podem aguçar o desenvolvimento profissional de empreendedores. Em experimento com voluntários, cientistas descobriram que quem lê boas obras adquire mais destreza para compreender o ambiente em que está inserido e para ler as entrelinhas das conversas. “Literatura é o melhor MBA que existe. Bons livros têm o papel de revelar verdades sobre o ser humano. O mercado de trabalho privilegia quem entende de negócios, mas também quem compreende as outras pessoas.” É assim que o empreendedor Fernando Jucá, co-autor de O executivo que gostava de ler (2009), justifica a importância dos livros para a evolução profissional de patrões e empregados.

Anderson Santana, professor de gestão empresarial da Fundação Dom Cabral, também acredita na importância de buscar publicações que estão além da estante de administração. “Histórias fictícias contribuem para a capacidade de compreensão, uma habilidade que o leitor leva automaticamente para a vida real. É necessário estar atento a temas que não dizem respeito à formação técnica, mas que estão em curso dentro das organizações”, afirma. Traduzido por Caio Fernando Abreu e Miriam Paglia, um dos livros favoritos de estrategistas modernos é A arte da guerra de Sun Tzu, escrito no século 5 a.C. “Hoje, essa obra parece destinada a embasar outro tipo de batalha: a de empreendedores no mundo dos negócios. Assim, o livro migrou das estantes de soldados para a mesa de economistas e gestores. Essas técnicas são diferentes de concepções ocidentais, como o ‘jeitinho brasileiro’, porque possuem visão de longo prazo”, comenta Óscar Curros, tradutor de Compreender e aplicar Sun Tzu, de Pierre Fayard.


"Literatura é o melhor MBA que existe. Bons livros têm o papel de revelar verdades sobre o ser humano"
Fernando Jucá, empreendedor e autor

 

Leia


 (Editora Livros de Safra/Reprodução)
 

Gracián e o mundo empresarial

Autor: Luis Roberto Antonik
Editora: Virgilae
224 páginas;
R$ 34,90

 

 (Actual/Divulgação)
 


O príncipe revisitado: Maquiavel e o mundo empresarial
Autores: Aderbal Müller e Luis Roberto Antonik
Editora: Actual;
108 páginas;
R$18


Em O príncipe revisitado: Maquiavel e o mundo empresarial, é possível conferir uma releitura adaptada do ensinamentos de Nicolau Maquiavel para os dias atuais. Segundo o autor, a leitura da obra de Maquiavel é muito difícil. “Não bastasse a erudição filosófica contida na obra, ele cita pessoas da sua época, personagens históricos e mitológicos que estão ao alcance de um grupo ínfimo de pessoas. Vendeu milhões de exemplares, mas ninguém conseguiu ler além do primeiro capítulo. Não está ao alcance dos mortais. Em contrapartida, o ponto positivo de Maquiavel é que ele soube discernir diversas nuances de comportamento empresarial. Adaptei sua obra em linguagem e exemplos atuais. Onde foram citados Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu no original do século 16, distinguimos Samuel Klein e Luiza Trajano nesta releitura do Século 21”, diz Antonik.

 

Três perguntas para Luis Roberto Antonik


A obra original de Baltazar


Gracián foi escrita em 1647. Desde então, foi submetida a diversas traduções. Em que sentido a sua versão se destaca das demais?
A minha tradução tem o objetivo de levar as palavras de Gracián àqueles que estão começando na vida empresarial. Outras versões não traduzem todos os 300 conselhos. Além disso, meu livro é inteiramente contextualizado para a linguagem do terceiro milênio. Gracián usa termos como honra e glória. Ora, um jovem não sabe o que é honra; na linguagem de hoje a palavra é ética. Como terceiro ponto, todos os lugares, nomes, citações e palavras difíceis são explicados. Por último, os conselhos escritos em espanhol clássico estão soltos. Talvez o objetivo de Gracián tenha sido o seguinte: ao abrir o livro, aleatoriamente, 4 séculos depois, o leitor leria um aforismo, assim como fazem aqueles que abrem o Evangelho antes de uma manhã de trabalho, em busca de uma frase que leve sabedoria para aquele dia. Gracián não segue uma ordem ao ensinar sobre liderança. Eu reordenei os conselhos, agrupando-os por assunto.

A que tipo de pessoa se destina seu livro?
Os conselhos escritos em 1647 são para aqueles que desejam vencer no ambiente empresarial, e minha ênfase está em jovens executivos e universitários. Como padre, Gracián era alvo constante de punições por seus superiores, chegava a usar pseudônimos para não ser penalizado. O ambiente de convento no qual ele estava inserido não tem nada de diferente de uma empresa atualmente: também havia hierarquia, disciplina, departamentalização, objetivos, metas, superiores, subordinados e colegas do mesmo nível. Magistralmente, ele colheu todas essas relações e descreveu a melhor forma de comportamento para vencer dentro de uma organização.

O que dizer sobre a atemporalidade do livro, já que a prosa didática ainda faz sentido após 368 anos?
Ninguém sabe que os conselhos de Gracián foram redigidos há quase 400 anos se você não contar. Por quê? Em essência, o homem não muda. O ser humano é arrogante, ardiloso, as aparências prevalecem sobre a verdade e a virtude, o mundo empresarial é um ambiente hostil e enganoso. Daqui 400 anos, a obra de Gracián continuará atual. É claro que eu fiz pequenos ajustes para adaptar a moral do século 17 aos dias de hoje.

 

Na prática


Três aforismos de Gracián aplicados aos negócios nos dias de hoje

Aposte no seu chefe
Seja fiel e celebre as vitórias dos seus superiores, nunca os desafie ou lhes mostre que você é melhor. Essa é a receita para ser um deles. Todo vencido odeia o vencedor. Sendo o seu superior a quem você vence, ele o considerará um tolo, o que lhe será fatal. Sua superioridade sempre será um incômodo, mais ainda quando tiver que ser reconhecida pelo seu superior hierárquico. Existem exceções, mas a regra é essa. Se você tiver vantagens sobre seu chefe, mesmo que pequenas, mas visíveis, dissimule-as, esconda-as.

O maior descuido de um homem é mostrar-se demasiadamente humano
Um homem sem sobriedade não parece ser substancioso, tampouco parecerão suas decisão bem fundamentadas, e isso se torna pior ainda quando já se tem certa idade, pois todos esperam sensatez e juízo dos mais velhos.

Não seja fechada: escute os demais
Não existem pessoas perfeitas. Todos necessitam de conselhos. Ainda que muito poderoso, tenha humildade, pois possui enfermidade insuportável o tolo que não dá ouvidos a ninguém. Considere pontos de vista diferentes.

 

 

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