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Correio Braziliense

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A cara do Brasil lá fora

Segundo pesquisas, grande parte dos profissionais toparia trabalhar em outro país. Para especialistas, o brasileiro é bem-visto no exterior graças à criatividade e ao jogo de cintura para lidar com adversidades, mas é preciso se capacitar e investir na mudança

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postado em 23/03/2015 09:21 / atualizado em 23/03/2015 09:52

Ana Paula Lisboa

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20) de 2012, a Copa das Confederações em 2013, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas Rio 2016 colocaram o Brasil em posição de destaque no cenário internacional nos últimos anos. Se depender de profissionais brasileiros que representam o país lá fora, a nação continuará em alta por um bom tempo. O número de interessados em desenvolver carreira em outros países só cresce. Levantamento da empresa de recrutamento Hays e do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) revela que, em 2014, mais de 80% dos executivos brasileiros estavam dispostos a trabalhar no exterior. Em 2013, o percentual era de 62,2%. Pesquisa da Catho confirma a tendência: 76% dos profissionais em geral topariam mudar de país por uma proposta profissional.

O administrador Angelo Graeff, 36 anos, faz parte das estatísticas, já que sempre sonhou com uma experiência internacional. Ele começou a trabalhar na Rexam — multinacional de produção de latas e tampas para bebidas presente em 20 países — em 2002 e, quando soube de uma vaga aberta na empresa no Chile, não perdeu tempo e se candidatou. Angelo foi selecionado e assumiu a liderança da fábrica de Santiago em 2014. “Liderar uma equipe fora do meu país é um desafio, mas estou apresentando indicadores e resultados positivos, então sou bem aceito”, revela. Angelo conta, porém, que, no início, teve de provar ter competência para conquistar a confiança dos colegas. A especialista em recursos humanos Rúbria Coutinho avalia que essa é uma dificuldade normal e que não deve intimidar os brasileiros. “Algumas culturas são mais receptivas, mas, em qualquer ambiente novo, você precisa mostrar sua capacidade.”

André Freire, presidente da empresa de recrutamento Odgers Berntson no Brasil, avalia que quem nasce em terras tupiniquins já conta com uma vantagem competitiva na hora de atuar no exterior: o fato de ser bem-visto. “O perfil do brasileiro é valorizado porque são profissionais que sempre foram obrigados a passar por altos e baixos — econômicos e políticos. O resultado disso é que são vistos como funcionários criativos, capazes de se reinventar e reagir rapidamente.” O número de conterrâneos em altos postos em multinacionais e organizações internacionais também é fruto da consciência de que a diversidade — de nacionalidade e de cultura — é positiva. De acordo com Freire, o fato de o conhecimento de outros idiomas não ser problema em cargos de alta e média complexidade tem ajudado executivos a se estabelecerem no exterior.

Projeto de vida
Mauricio Pane Júnior, 47 anos, é exemplo disso. Vice-presidente de Finanças e Controladoria para a América do Sul da empresa química Basf, acumula três temporadas no exterior. Entre 2007 e 2012, morou em Ludwigshafen, na Alemanha, onde atuou na sede global da companhia na gerência executiva de Transformação Global de Finanças. Antes disso, enquanto trabalhava na multinacional de eletrodomésticos BSH, morou cinco anos no Peru e, entre 2003 e 2004, residiu em Munique, na Alemanha. “Aprendi o alemão ao longo dos anos, já que trabalhei em empresas desse país, mas viver lá é outra coisa. O espanhol é parecido com o português, mas é preciso se dedicar”, conta. Além de ganhar fluência nas línguas e conhecimentos profissionais, Mauricio teve importantes aprendizados pessoais. “A vivência é inigualável. O importante é ter em mente não apenas a carreira: é preciso ser um projeto de vida, porque a experiência envolve toda a sua existência.”

Perfis de altos executivos, como o de Mauricio, estarão cada vez mais presentes no exterior. Essa é a previsão de Luis Fernando Martins, diretor nacional da Hays. “No passado, trabalhar em outro país era mais comum para recém-formados em posições juniores. Hoje em dia, pessoas de média e alta gerência procuram posições fora.”

Empresário no Canadá
Arnon Melo, 48 anos, mora no Canadá há 25 anos e conseguiu construir uma carreira de sucesso vindo de baixo. Graduado em tradução e interpretação, ele chegou a trabalhar na área no país, mas passou por vários subempregos enquanto fazia outra graduação, em comércio exterior, no Seneca College em Toronto. “Depois de me formar, pedi uma oportunidade para estagiar numa empresa de logística. Em nove anos, me tornei gerente do departamento aéreo.” Foi quando ele resolveu colocar em prática o sonho antigo de ter a própria empresa. “Pedi demissão, e os clientes que trabalhavam comigo quiseram me seguir. Treze anos depois, somos referência no mercado Brasil-Canadá”, explica o dono da companhia de logística Mellohawk. “Como imigrante, era difícil conquistar clientes no início. Ter que provar meu valor mais que o canadense nunca me segurou; na verdade, me deu mais força.”

 

Eles chegaram lá

Conheça o perfil de brasileiros de destaque no exterior

Braulio Dias,
61 anos, secretário executivo da Convenção da Diversidade Biológica, mora em Montreal (Canadá) com a esposa


“Acredito que o fato de um brasileiro assumir esse cargo contribui positivamente para as relações diplomáticas do Brasil e a visão que se tem do país. Desde que assumi, há 3 anos, a agenda é bastante cheia. O choque cultural existe porque trabalho com pessoas do mundo todo. Penso em voltar ao Brasil, até porque ainda sou professor da Universidade de Brasília (UnB). As pessoas sempre me veem com muita simpatia e curiosidade por causa da minha nacionalidade. Os brasileiros têm condições de se apresentar de forma bem competitiva no exterior; basta se capacitarem e olharem para fora.”

 

Roberto Azevêdo,
57 anos, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, mora em Genebra (Suíça)


“O país é respeitado nos fóruns multilaterais pela competência técnica dos negociadores. Acho natural que brasileiros venham a ocupar posições de liderança nesse meio. É difícil precisar os fatores que ajudaram a minha eleição há 1 ano e meio, mas o fato de eu ser visto como alguém que poderia construir pontes de diálogo entre países com interesses muito diferentes e o apoio do governo brasileiro ajudaram. Meu conselho para quem quer fazer uma carreira no exterior é estudar muito, ler, aprender idiomas. As oportunidades podem aparecer quando menos se espera; é necessário estar preparado.”

 

Vera Dubeux Torres,
60 anos, professora de ciências agrárias da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), membro da Academie D'agriculture de France, mora em Maceió


“Minha rotina na Academia é de intensas viagens à França. Sou a terceira brasileira a integrar a instituição. Fui indicada por meus trabalhos com a cana-de-açúcar e fui muito bem votada. Vou mostrar a importância da agricultura e da pecuária brasileira para o mundo e também da pesquisa brasileira. Experiências internacionais anteriores foram importantes: fiz pós na França, participei de uma conferência em Harvard e fui indicada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2007, para apresentar a um grupo de franceses a tecnologia brasileira ligada à cana.”


Palavra de especialista


Mundo internacionalista

“O brasileiro, por muito tempo, deixou de disputar grandes cargos do ponto de vista internacional por falta de interesse pela área. O Brasil nem sequer tinha curso de relações internacionais até pouco tempo: o da Universidade de Brasília (UnB) surgiu na década de 1970 e foi um dos únicos por muitos anos. Sempre houve exemplos isolados de sucesso, mas, de uns tempos para cá, o número de profissionais de destaque no exterior tem crescido. Grandes exemplos são o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo; o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Jozé Graziano; o secretário executivo da Convenção da Diversidade Biológica (CBD), Braulio Dias; e o juiz do Tribunal Internacional de Justiça Antônio Augusto Cançado Trindade. Muitos dos cargos têm a ver com agendas importantes para o Brasil e ajudam no desenvolvimento do país. A diplomacia brasileira se fortaleceu muito, e mais pessoas se interessaram pela área. Hoje existe pluralidade: surgem temas mais próximos como o Mercosul, o Brasil passa a ser um ator relevante do ponto de vista internacional. Tudo isso é visto muito positivamente e mostra que há pessoas capacitadas no Brasil. O mundo está mais internacionalista, inclusive na carreira: é mais fácil estudar e trabalhar fora, e os brasileiros estão aproveitando isso.”

Tarciso Dal Maso Jardim, professor de direito internacional do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e assessor-chefe de Articulação Parlamentar no Supremo Tribunal Federal

 

 

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