O que é flexível não se quebra

A nova palavra de ordem no currículo é resiliência. Empresas valorizam profissionais que sabem lidar com a pressão, solucionar problemas e ressurgir das dificuldades fortalecidos

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postado em 03/05/2015 14:15 / atualizado em 04/05/2015 17:48

Ana Paula Lisboa

Breno Fortes

Num cenário de incertezas econômicas e políticas, adversidades deixam empresas no limite, e a busca por eficiência se torna imperativa. As organizações precisam de profissionais capazes de resistir à pressão, resolver problemas, se adaptar às circunstâncias, superar desafios, perseverar no cumprimento de metas e não ficar preso às dificuldades, mas usá-las como oportunidades para crescer. Todas essas características são próprias de quem é resiliente. O termo pode não ser tão conhecido, mas passa a se tornar essencial no dia a dia das organizações e até mesmo nos processos seletivos. “A resiliência tem que fazer parte do pacote básico de qualquer profissional: não pode sair de fábrica sem isso. Nesse momento de sobe e desce financeiro, se o colaborador não tem flexibilidade e adaptabilidade, pode sofrer uma pane, e toda a carreira dele acabar sendo colocada em xeque”, opina Rodrigo de Godoy, gerente de Treinamento Corporativo na organização de educação empresarial Ciatech.

“O modo mais fácil de entender o que é a resiliência é por meio da analogia com o bambu, que, independentemente do vento forte, não se quebra; pode até envergar, mas não se rompe. No mundo profissional, muitas pessoas acabam entrando em pane — cedendo num momento de pressão — em vez de se curvar com o vento e voltar à posição inicial mais resistentes”, compara. É por isso que a habilidade tem se tornado diferencial competitivo, especialmente em cargos mais altos. “Num ambiente de trabalho desgastante, pessoas resilientes apresentam a vantagem de não se deixarem abater facilmente. Acabam servindo de modelo aos companheiros, pois são mais persistentes, hábeis na resolução de conflitos, assertivas, demonstram equilíbrio emocional, autocontrole, resistência a críticas e a dificuldades. Quanto maior o nível de exigência do cargo, mais valiosa é a resiliência, pois há mais exigências”, observa a psicóloga cognitivo comportamental Márcia Votre, representante internacional dos programas de resiliência Friends For Life.

Não resistir à pressão pode equivaler bem mais que a um chilique e trazer consequências negativas sérias para o funcionário e para a empresa. “A pessoa começa a se vitimizar e, em alguns casos, pode jogar tudo para o ar e resolver que não quer mais aquilo, desistir e deixar os outros na mão”, repara Godoy. “Normalmente, a diferença entre alguém que supera os desafios e alguém que é superado por eles está na resiliência. Pessoas menos resilientes podem ser mais lentas ou indecisas e se tornam menos produtivas diante de pressões e da necessidade de tomadas de decisões, não se recuperam rapidamente quando passam por percalços”, observa a psicóloga Márcia Votre. Para evitar profissionais com baixo nível de resiliência, muitos processos seletivos buscam identificar essa característica comportamental. Rodrigo de Godoy ressalta, porém, que isso deve ser bem elaborado para dar certo. “Durante a entrevista, se eu perguntar se a pessoa lida bem com pressão, dificilmente ela responderá que não. A forma como isso pode ser medido é propondo situações reais e perguntando como ela se comportaria”, diz.

Sem se deixar abater

A master coach Bibianna Teodori trabalhou por mais de 20 anos como executiva de empresas italianas nas áreas de RH e gestão de mudanças e defende que todas as pessoas têm algum grau de resiliência, mas podem aprimorá-lo. “Desenvolver essa característica é fundamental para enfrentar os desafios e ser bem-sucedido”, declara. O primeiro passo para melhorar a resiliência é fazer uma autoanálise. “É preciso olhar para si mesmo, entender os próprios pontos de pressão em que chega ao limite e criar uma postura de enfrentamento e não de fulga”, considera Rodrigo de Godoy. Quem pode ajudar ativamente os funcionários a desenvolverem essa capacidade são os gestores. “Se o feedback da chefia for corretamente aplicado, o efeito será fantástico. É possível perceber e aceitar falhas, sentir-se encorajado para encontrar soluções e melhorar, assumir responsabilidade por suas ações e adotar uma postura proativa”, conta Bibiana Teodori.

 

Na chefia e na equipe
À frente de 273 funcionários e de 30 pessoas em nível gerencial, o CFO do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB), Marcelo Nishi, 34 anos, é conhecido pela capacidade de resiliência. “O Marcelo tem uma visão de ambiente fantástica e, enquanto outras pessoas explodiriam em certas situações, ele consegue ser estratégico. Quando erramos, ele usa aquilo para melhorar e direciona a equipe”, atesta o CEO da instituição Carlos Umeoka, 32. Natural da Bahia e com raízes japonesas, Marcelo conta que essa característica foi aprimorada. “O perfil ocidental é muito emocional, e o oriental é muito travado. Encontrei um meio-termo, um jogo de cintura que me ajuda a superar adversidades. Há 10 anos, não tinha o controle que tenho, foi algo que desenvolvi. Na área financeira, há turbulências o tempo todo, se eu me desesperasse, não daria conta do meu trabalho. Aproveito as crises para crescer e as transformo em oportunidades”, revela Marcelo. Ser flexível e se adaptar, porém, não é sinal de fraqueza. “Sou resiliente, mas nem sempre cedo. Sei defender minhas visões e trazer inovação. As pessoas são resistentes a mudanças, mas sem elas você não sai da zona de conforto”, completa.


"O modo mais fácil de entender o que é a resiliência é por meio da analogia com o bambu, que, independentemente do vento forte, não se quebra; pode até envergar, mas não se rompe"
Rodrigo de Godoy, gerente de Treinamento Corporativo