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Só coragem não basta

Em momento delicado da economia brasileira, profissionais que sonham abrir uma empresa em 2015 precisam investir em setores em alta e em inovação

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postado em 03/05/2015 14:26 / atualizado em 03/05/2015 14:28

Ana Rayssa
Em meio a um cenário econômico desfavorável, abrir o próprio negócio em 2015 pode ser encarado como uma decisão arriscada. O que, por si só, exige bastante análise de mercado e dos recursos disponíveis para o investimento, torna imprescindível uma avaliação de ameaças e dificuldades, que são potencializadas pela crise financeira atual. Os riscos de se investir, no entanto, não intimidaram Antônio Marcos de Jesus Portela, 34 anos, e Jeferson de Jesus Nazareth, 29, que, desde o início do ano, vendem açaí em quatro carrinhos móveis em pontos de Brasília sob a marca Açaí Zero°. Apesar de ter feito cursos na área empresarial, pesquisa de campo e análise de mercado antes de começar o negócio, Antônio se sentiu inseguro. “No começo, a gente fica com medo e se pergunta se vai dar certo; com a crise econômica, fico com medo de apostar 100%”, desabafa ele, que mantém o emprego de representante comercial enquanto empreende para garantir uma renda fixa.

Apesar do medo inicial, os sócios estão confiantes no crescimento e planejam a abertura de uma loja física ainda este ano, no Paranoá. “Se depender do nosso trabalho, a empresa vai voar. O negócio tem tudo para dar certo, pois o açaí, devido aos benefícios, está muito em alta, e nosso produto tem bastante saída”, afirma Jeferson. Para minimizar os efeitos da economia, a dupla tomou medidas para evitar o desperdício durante o processo de fabricação e vem buscando tornar a mercadoria mais acessível. “Baixamos o preço, mas também diminuímos o tamanho da embalagem. Assim, alcançamos mais pessoas”, explica. Segundo o consultor empresarial Flávio Resende, aspirantes a empreendedores que pesquisam e analisam o mercado antes de se lançarem no mercado — como Antônio e Jeferson — estão no caminho certo, especialmente num momento econômico que exige mais atenção e cautela. “É preciso adequar o produto, analisar o público e a concorrência para ver se existe chance de dar certo.”

O estudo do contexto do mercado, porém, não pode se limitar ao momento da abertura do negócio. “A conjuntura empresarial é muito dinâmica, o que hoje é um cenário ideal, amanhã pode mudar, e é preciso se adaptar”, alerta. Além desses fatores, persistir é essencial. “É fundamental a capacidade de perseverar, pois nem sempre o contexto vai ser um mar de rosas.”

Desestímulo
Nem todos continuaram com os planos de empreender em 2015. É o caso de Richardson Souza Soares, 25 anos, que decidiu abrir uma empresa na área de engenharia de telecomunicações com três amigos. O objetivo era elaborar relatórios fotográficos de torres de telefonia móvel. Os rapazes começaram a analisar a ideia no ano passado, estudando a área e amadurecendo o projeto para colocar em prática este ano. O grupo acreditava que a iniciativa era promissora, no entanto, as dificuldades financeiras, intensificadas pelo momento econômico, colaboraram para que o negócio, com menos de quatro meses, não fosse levado adiante. “Há muitas dificuldades para quem começa do zero neste momento, como a desvalorização da moeda, que afeta o poder de compra…”, conta Richardson. Os ex-sócios resolveram voltar a trabalhar no setor privado. “Os pequenos negócios sofrem mais com a crise, acabam sendo engolidos pelas grandes empresas. Até penso em retomar o empreendimento, mas apenas se a situação econômica mudar.”

Atalho empresarial
Com as dificuldades impostas aos aspirantes a empreendedores em 2015, uma alternativa para empreender com menos riscos é o sistema de franquia, já que o investimento é feito numa marca consolidada e aceita pelo público, ou de microfranquia, empreendimentos de menor investimento e custo operacional. Renato Negrão, 34 anos, decidiu abrir uma microfranquia da Tutores, marca que oferece reforço escolar. Ele optou por investir em educação, pois verificou em pesquisas de mercado que é um setor menos afetado pela crise na economia. “Optei pela franquia por causa da minha falta de conhecimento nessa área. O sistema tem um nome desenvolvido que facilita minha entrada no mercado, tenho material pronto de apoio e outras estruturas oferecidas para auxiliar o franqueado. Estou começando a empresa e já pulei muitas etapas, como a de planejamento.”

Cara a cara


2015 é um ano para empreender?

Jorge Fernando Valente de Pinho, professor do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB) e consultor empresarial

“O mais prudente é não investir em abrir uma empresa no momento, já que o país está em recessão, e não há previsão de mudança de cenário em breve. A alta carga tributária, os juros elevados dos empréstimos e financiamentos e a burocracia para abrir um negócio são fatores que tornam o investimento muito arriscado. Mesmo se o Brasil estivesse numa época de desenvolvimento, já seria difícil abrir uma empresa e ter lucros substantivos, imagine agora, com o país em crise. Apesar de este não ser o melhor momento, se o empreendedor conseguir conciliar preço e qualidade de forma bem-sucedida em áreas inovadoras e nichos de mercado ainda não ocupados , pode ter chance de sucesso neste contexto econômico difícil.”

Camila Garcia, consultora empresarial

“O momento atual é desafiador, então recomendaria pensar em investir no segundo semestre de 2015. Mas negócios diferentes, inovadores, bem planejados e estruturados têm chances de sucesso. Há também boas perspectivas em setores da economia destinados a públicos específicos. Negócios na área de alimentação — principalmente a saudável e ligada à onda fitness, para vegetarianos e outros públicos — estão em alta e continuam crescendo. Em Brasília, outra área para investir é o mercado de luxo. Planejamento é a palavra-chave. Todos os fatores envolvidos na criação de uma empresa devem ser previamente pensados, analisados e planejados. O empresário deve fazer o planejamento estratégico: definir onde está, onde quer que sua empresa esteja daqui a certo período de tempo e o que deve fazer para chegar a esse objetivo.”