SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Procura-se mão de obra qualificada

Brasil é um dos países em que é mais difícil contratar bons profissionais, e empresas buscam desesperadamente pessoas com capacitação técnica e comportamental. Na outra ponta, companhias devem investir nos funcionários para evitar a alta rotatividade

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 17/05/2015 13:02 / atualizado em 17/05/2015 13:05

Ana Paula Lisboa

Minervino Junior

Falta de profissionais capacitados, que resulta em alta rotatividade. Essa é a principal queixa de um escritório de contabilidade no Lago Norte, mas que reflete a realidade de muitas empresas no país. “Chegamos a ficar seis meses procurando candidatos para uma vaga porque não aparecem pessoas com o perfil adequado. A rotatividade é alta, mexemos com folha de demissão e admissão praticamente todoos  meses”, relata Marcelo Cavalcante, 34 anos, sócio fundador da Península Contábil. Há 10 anos no mercado, o empreendedor enfrenta a dificuldade, com o sócio Eric Souto, desde o início. A saída é contratar funcionários sem a qualificação adequada. “Treinamos as pessoas do zero e gastamos muito tempo. O fator negativo é que, como são iniciantes, acontecem muitos problemas e já fomos prejudicados financeiramente”, revela.

As complicações enfrentadas pelo escritório não são isoladas e se repetem em todo o território nacional, como aponta pesquisa da empresa de recrutamento Robert Half. Em comparação a outros 12 países, o Brasil aparece em primeiro lugar — empatado com a Áustria — no ranking de dificuldade em encontrar mão de obra qualificada, com 92% dos gestores de RH encarando a tarefa como desafiadora. Os maiores problemas, segundo os entrevistados, são a falta de especialistas técnicos e de competências empresarial e comercial. A demanda de vagas superior à oferta de profissionais e o atraso da contratação durante a crise também figuram entre as principais complicações (veja gráfico).

Baixando expectativas

Ana Guimarães, gerente de Divisão de Mercado Financeiro da Robert Half, observa que os resultados não surpreendem. “Os clientes sempre falam da dificuldade para contratar. A formação acadêmica é a base para deslanchar na carreira: se a pessoa não tem o lado técnico, isso se torna uma lacuna no trabalho”, observa. A falta de competências empresariais é outro problema. “Às vezes, o trabalhador tem ótima formação, mas não acumula uma vivência que permite desenvolver habilidades para aplicar o conhecimento na vida real. Faz falta saber tomar decisões e ter um ‘olhar de dono’, trabalhando como se a empresa fosse dele.” Num cenário de ofertas abaixo do esperado, gestores baixam as expectativas. “Não adianta procurar um perfil que não existe, e é preciso flexibilizar. Se o ‘Batman’ não está disponível, há um ‘Super-homem’ com qualificação diferente que pode ocupar bem a vaga”, exemplifica.

 

O consultor em gestão de pessoas Eduardo Ferraz indica que o empate do Brasil com a Áustria na pesquisa e o fato de o país ter alcançado patamar de dificuldade ao contratar próximo ao de outros países da Europa esconde problemas nacionais. “O que é chamado de ‘mão de obra qualificada’ aqui não se compara a exigências de qualificação de países como esses.” Ferraz avalia o problema da mão de obra no Brasil como gravíssimo, pois resulta em empregos de baixa qualificação. “Mais de 90% das novas vagas geradas no país no ano passado eram de salários abaixo de R$ 1 mil. A economia cresceu rápido demais, e o nível cultural é baixo, mesmo dos candidatos com nível superior.” Como resultado, encontrar gente qualificada é raridade. “As empresas estão desesperadas atrás de pessoas capazes de dar retorno já no primeiro dia de trabalho. Não é nada de espetacular, é apenas o básico. Aí, em vez de contratar um funcionário por R$ 5 mil, companhias dão lugar a quatro com salário de R$ mil. Não é porque ela quer! É para dar conta de subsistir.”

As deficiências dos empregados começam na baixa qualidade do ensino no país, mas nem tudo está perdido: profissionais podem driblar as lacunas com cursos e atividades extras. “Se a pessoa estiver disposta a pagar o preço, consegue desenvolver qualquer competência”, ensina Cyndia Bressan, psicóloga e coordenadora do MBA de Gestão de Pessoas por Competências, Indicadores e Resultados do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (Ipog). Num momento de economia instável, Cyndia orienta profissionais a se capacitarem e a praticarem o networking, porque é no momento de crise que pessoas mais capacitadas serão ainda mais valorizadas. “Sempre tem vaga para quem é bom”, resume.

Rotatividade
Leonardo Henrique Santos, 25 anos, é o funcionário mais antigo da Península Contábil e está na empresa há dois anos. “Comecei aqui como office-boy e, hoje, sou auxiliar da parte fiscal. Quando cheguei, não sabia nada, e foram me ensinando. Já cometi erros por falta de experiência, mas consegui superar”, revela. Mesmo treinando funcionários, o sócio fundador Marcelo Cavalcante enfrenta problemas. “Demora de 1 ano a 1 ano e meio para a pessoa pegar o jeito. Quando ela fica boa, logo sai. Na maioria das vezes, por um salário um pouquinho maior.” O consultor em gestão de pessoas Eduardo Ferraz explica que isso ocorre porque o assédio em torno de profissionais qualificados é grande. “Antes, era preciso uma oferta, pelo menos, 20% maior para alguém trocar de emprego. Agora, com 5%, o pessoal já sai. Isso queima o filme, mas, como o mercado está desesperado, opta por pegar essas pessoas.”

Ana Guimarães, da Robert Half, avalia que outra catapulta para a rotatividade é um processo seletivo malfeito. “O papel do RH é contratar e manter os talentos. Muitas vezes, não ficou bem definido o que era esperado naquele cargo, e a pessoa não se encaixa; ou então, não há alinhamento com o perfil da empresa e as expectativas com relação ao recém-contratado são altas demais”, pondera.

E o desemprego?
Num cenário de desemprego com taxa próxima dos 8% nos três primeiros meses de 2015, pode causar estranhamento a conclusão de mais de um terço dos recrutadores de que “a demanda supera a oferta”. Ana Guimarães pondera que “o número de profissionais no mercado é superior à quantidade de vagas, mas não o de profissionais com a qualificação necessária.” Eduardo Ferraz explica que rotatividade tem tudo a ver com isso e prevê que, quanto maior a quantidade de pessoas procurando trabalho, mais receio os funcionários terão de deixar um posto. “Quando a taxa de desemprego atingir 10%, trabalhadores terão medo de trocar de emprego três vezes num ano. É a chance de as empresas qualificarem essas pessoas, e as fidelizarem com uma boa política de retenção”, diz.

O papel da empresa

A psicóloga Cyndia Bressan percebe que as empresas têm dificuldades de encontrar dois tipos de perfil: o de pessoas que querem trabalhar e se comprometer e o de gente com qualificação comportamental. “Encontrar alguém que reúna competências de comportamento — como resiliência, ‘olhar de dono’ e saber lidar com a diversidade — e técnicas é quase impossível”, declara. Para ela, ter pessoas comprometidas e trabalhando bem não depende apenas dos profissionais: também é papel da empresa. “A motivação é intrínseca, mas a companhia pode criar um ambiente motivador com gestores inspiradores. Hoje em dia, os profissionais não pensam só no salário: eles querem se sentir úteis e valorizados. É isso que vai fazer com que a pessoa se comprometa. Empresa com foco apenas na produtividade é algo da época da Revolução Industrial, que já passou. As pessoas qualificadas estão mais conscientes das oportunidades e vão ficar onde possam ser felizes”, defende.

publicidade

publicidade