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Carreira em decolagem

Ser comissário de bordo é mais que servir refeições para passageiros. A profissão exige conhecimentos que vão de etiqueta a sobrevivência na selva, além de controle emocional e iniciativa. Mercado foi aquecido por eventos mundiais e não deve ser tão afetado pela crise

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postado em 21/06/2015 13:00 / atualizado em 21/06/2015 13:06


 (Monique Renne/CB/D.A Press)
 

Quem vê os uniformes bem passados e a aparência impecável dos cerca de 11 mil comissários de bordo do país nem imagina que, para começar na área, eles tiveram que aprender a sobreviver na selva — literalmente. A profissão, símbolo de elegância e glamour há mais de 80 anos, exige conhecimentos que vão de regras de etiqueta a técnicas de subsistência em condições adversas, como em alto-mar. Nada disso assusta os candidatos: de 2012 a maio de 2015, foram emitidas 1.781 licenças profissionais pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac); apenas este ano, 298 pessoas conseguiram autorização para trabalhar no ramo — o que equivale a mais da metade dos 435 que entraram para a carreira no ano passado.

Além de ser o cartão de visitas da companhia aérea, o comissário de bordo é um agente de segurança capacitado para lidar com situações de perigo e de emergência. As funções vão desde a assistência ao piloto e à tripulação até prestar socorro durante um possível desastre aéreo. Bruno Muniz, 37 anos, abandonou a carreira como autônomo na área gráfica para realizar o sonho de se tornar comissário de bordo. “Voar era algo que eu queria fazer desde pequeno, uma vontade que eu tinha quando via as pessoas no aeroporto. No começo, tive medo de largar tudo o que eu tinha já tão tarde e gastar muito tempo e dinheiro. Mas tudo vale a pena pelo sonho. É como disse Confúcio: trabalhe com o que você gosta, e você não precisará trabalhar nenhum dia de sua vida”, conta. “Temos que estar prontos para enfrentar as mais diferentes situações, desde arranjar uma chupeta para uma criança até lidar com uma despressurização. O curso prepara para isso.”

Bruno faz parte do novo perfil da profissão. Mais democrático, o mercado tem exigido menos da idade e do gênero. Os homens representam 40% dos 11 mil comissários de bordo do país, segundo o Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA). O perfil médio dos profissionais, no entanto, ainda fica entre aeromoças (60%) de 18 a 29 anos. Os interessados na área devem estar atentos às condições físicas impostas por algumas empresas, como a altura. Em média, as mulheres devem ter, no mínimo, 1,58m, e os homens, 1,62m para estarem aptos a trabalhar em determinados tipos de aeronaves.

Garanta sua contratação
A carreira de comissário de bordo é uma das poucas que têm formação breve e retorno rápido. O salário inicial pode variar de R$ 2 mil a R$ 6 mil — no caso de atuação internacional. Para exercer a profissão, é preciso ter ensino médio completo e um curso de 280 horas. As aulas são oferecidas por mais de 125 escolas no país (veja Onde estudar), com formação teórica que abrange direito, primeiros socorros, meteorologia e até etiqueta. No fim da formação, é preciso obter o certificado de capacidade física (CCF) e o certificado médico aeronáutico (CMA). Eles vão garantir a participação no treinamento de sobrevivência na selva. Nessa prova de fogo, que dura até dois dias, os candidatos aprendem a combater incêndios e a salvar vidas — tudo sem direito a comer nada além de açúcar, sal e água. No total, o investimento na capacitação chega a R$ 1,5 mil.

Bruno Muniz:
 

 

Bruno Muniz: "Voar era algo que eu queria fazer desde pequeno"


“Pode não parecer, mas eles estão ali para salvar vidas. Por isso, o treinamento é pesado e exige resistência física. Antes, procurava-se o estereótipo do comissário bonito. Hoje, o importante para o mercado é saber trabalhar em equipe, resistir à pressão e ter boa apresentação”, explica o coordenador do Instituto Técnico de Aviação Civil (Itac), Weslley Sena. De acordo com Mario Vivarini, autor do livro Bem-vindo a bordo: histórias e segredos de um comissário de voo (Livre Expressão / R$ 39,90 / 288 páginas), o cuidado com a aparência continua sendo um requisito: cada empresa possui a própria norma com relação ao vestuário, mas é preciso estar em dia com unha, maquiagem, cabelo e barba. A beleza, no entanto, não é tudo. “O importante é que o comissário esteja sempre se reciclando, seja aprendendo outra língua seja fazendo cursos oferecidos pelas empresas. Por mais que tenha gente que venha para a profissão pelo dinheiro, só fica quem gosta mesmo”, garante.

“Acima de tudo, o mercado tem exigido postura profissional, etiqueta, disciplina e aperfeiçoamento. As empresas procuram profissionais com controle emocional, que sejam comunicativos e saibam atender bem, independentemente de problemas pessoais”, comenta a diretora da GF Escola de Aviação, Maria Ângela Mattos. “As companhias brasileiras — especialmente a TAM, a Gol e a Azul — passam a explorar mais as rotas internacionais agora; por isso, o conhecimento de idiomas se torna ainda mais fundamental para a contratação. Espanhol, francês, alemão e italiano são alguns dos mais bem-vindos”, diz Marcelo Ceriotti, diretor executivo do Sindicato Nacional dos Aeronautas. “Outros diferenciais para conquistar um emprego são ter feito curso de formação numa instituição renomada e ter nível superior em qualquer área”, complementa Pedro Bom, diretor de uma representação do SNA.

Cenário brasileiro

Os eventos de grande porte sediados no Brasil nos últimos anos — a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20), em 2012; a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude, em 2013; e a Copa do Mundo de 2014 — aqueceram o setor e ajudaram a consolidar novas empresas áreas. “Muita gente começou a voar com a Copa das Confederações e a Copa. É uma profissão que sempre foi valorizada, mas, hoje, há mais oportunidade porque a população tem mais acesso às viagens de avião”, considera Arlete Lucca, assistente de coordenação da escola de aviação Ceab. O número de contratações cresceu nos últimos tempos e deverá ser suficiente para atender os passageiros nas Olimpíadas Rio 2016. Apesar da crise financeira que assola o Brasil, segundo especialistas, o setor deve permanecer estável e até crescer com novas rotas e aeronaves.

Pedro Bom explica que existe uma sazonalidade na aviação com relação à contratação, tanto para pilotos quanto para comissários. “Antes da Copa, houve um boom de contratações, e não estamos encarando demissões porque a aviação aumentou como um todo. As pessoas não foram empregadas apenas para os grandes eventos. As Olimpíadas trarão realocações e concentrações em alguns destinos, mas, provavelmente, não afetará muito o número de novos empregados”, diz. “O setor depende da economia e, normalmente, o crescimento é o dobro do apresentado pelo PIB (Produto Interno Bruto). Então, a tendência é dar uma desacelerada este ano. Mesmo assim, as contratações continuam com a chegada de novas aeronaves e rotas”, avalia.

Lado humano
Apesar de entusiasmados, os jovens não podem deixar de pesar os aspectos negativos da profissão na hora de fazer a escolha. “O trabalho em turno impossibilita um ciclo de sono adequado, por exemplo. Também somos expostos a problemas fisiológicos provocados pela radiação ionizante, pela baixa umidade do ar e pela pressurização das cabines”, enumera o diretor executivo do Sindicato Nacional dos Aeronautas Marcelo Ceriotti. “O prejuízo social também existe. Para estar nessa profissão, é preciso amar muito o que se faz.” Nenhum desses fatores desanimou Paloma Brondani. Aos 34 anos, acumula 13 de trabalho ligados à aviação: 11 como comissária e dois em terra, na área de atendimento. Ela não conta mais as festas, feriados e fins de semana que perdeu por causa da profissão, mas não se incomoda. “Você troca o domingo por uma segunda ou uma terça, mas ainda é possível ter bastante tempo com a família. Durmo em casa, em Brasília, de duas a três vezes por semana”, revela. “Gosto da profissão porque somos multifuncionais. O comissário conhece várias culturas e pessoas, dá uma de babá e até de psicólogo. É uma profissão que tem um quê de glamourosa, mas o mais importante é o que você traz para sua vida, que é aprender a lidar com as diferenças. É um trabalho lindo, em que você conhece vários lugares e culturas”, conta Paloma.

Uma das partes recompensadoras é o reconhecimento. “Não estamos ali apenas para servir o cliente. Nós nos comprometemos a deixar a viagem mais tranquila — e temos que estar prontos para tudo. Se alguém está com medo, sentamos para conversar e fazemos a pessoa relaxar. Você acaba até fazendo amizades, por exemplo, com passageiros frequentes numa rota. Vejo brilho nos olhos de muitos deles, que reconhecem a importância do nosso trabalho.” Para ela, quem quer trabalhar no ramo deve ter vocação para lidar com o público, ser simpático, paciente, cortês e estar sempre disposto a dar o melhor de si em situações complexas. “O bom comissário é um observador e preocupado com o lado humano. Ele sempre presta atenção aos detalhes e sabe quando um passageiro precisa dele”, acrescenta.


"O bom comissário é um observador e se preocupa com o lado humano. Ele sempre presta atenção aos detalhes e sabe quando um passageiro precisa dele”
Paloma Brondani, comissária de bordo


Como se preparar
Alexandre Socth, consultor na área de aviação civil e desenvolvimento pessoal, ministrará oficina preparatória em seleções aéreas em diversas cidades do Brasil. Em 5 de julho, os interessados podem conferir a programação em Goiânia, no Hotel Umuarama Centro. Informações e inscrições: www.melhorandopessoas.com.br.
 
Onde estudar


GF Escola de Aviação (DF)
Informações: (61) 3447-5281 ou www.gfaviacao.com.br

Instituto Técnico de Aviação Civil (DF)

Informações: (61) 3037-7020 ou www.itacdf.com.br

Escola de Aviação Ceab (SP)
Informações: (11) 3081-4949 ou www.ceabbrasil.com.br

Confira a lista completa de escolas no portal da Anac: www2.anac.gov.br/educator
 
Onde trabalhar


  • Depois de mais de cinco anos sem contratar, a TAM está procurando comissários. As vagas são para Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Para participar, cadastre-se no site www.jobs.latamairlinesgroup.net.
  • A Azul está contratando comissários de bordo e jovens aprendizes. O prazo de inscrição vai até 31 de dezembro. Basta se cadastrar no site www.voeazul.com.br para concorrer.
  • A American Airlines está com vagas abertas para cargos de atendimento ao cliente (em Los Angeles, Califórnia) e trainee de comissário de bordo (em Fort Worth, no Texas). Entre os pré-requisitos estão ser fluente em português, mandarin ou japonês. Inscrições: www.aa.com.
  • A Avianca abriu postos de trabalho para brasileiros na Colômbia. É preciso ter fluência em espanhol e conhecimentos intermediários em inglês. Cursar ou ter concluído nível superior será um diferencial. Informações: oceanaircdt.elancers.net/frames/oceanair/frame_geral.asp.

As que mais contratam


Confira o número de comissários de bordo que trabalham em cada companhia no Brasil

TAM     5.205
Gol     3.250
Azul     1.289
Avianca     642
Trip     535
Passaredo     94
Total     17
Map     16
Sete     11
Total    11.059

Fonte: Anac 

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