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Correio Braziliense

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A crise mostra a cara aos jovens

Em momento de aperto na folha de pagamento das empresas, desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos chega a 16,4%. Recém-formados encaram um cenário de incertezas, enquanto cresce a oferta de vagas de estágio

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postado em 28/06/2015 11:49 / atualizado em 28/06/2015 11:53

Ana Rayssa

A crise econômica, deflagrada em meados do ano passado e aprofundada no primeiro trimestre de 2015, começa a abalar com mais intensidade as gerações Y e Z. O desemprego entre jovens de 18 a 24 anos no país atingiu, em maio, taxa de 16,4%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice geral de desocupação subiu para 6,7% no último mês, sendo o mais alta registrada desde agosto de 2010. Enquanto a prioridade de muitas empresas é cortar gastos, mão de obra fixa é dispensada e novas contratações são impedidas.

“É a primeira vez que a geração Y, que tinha um mercado bastante aquecido e boas perspetivas há até pouco tempo, vê uma crise de perto e sente seus efeitos”, aponta o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Alberto Ramos. Segundo ele, o momento não é ideal para aqueles que deixam os portões das universidades. “Se, na situação econômica atual, até os funcionários experientes estão sendo dispensados, é justo indagar o que resta para os recém-chegados.”

Interessada em ter um currículo completo, Ilza Lopes, 27 anos, investiu em atividades paralelas à graduação em gestão financeira, concluída no segundo semestre de 2014. Com certificados de cursos técnicos em agronegócio e em logística, além do diploma, Ilza não esperava ter dificuldade para encontrar emprego. “Foi uma surpresa: eu imaginava que a formatura seria o pontapé inicial e abriria portas”, conta. “A economia não está boa, e o que desejamos é terminar os estudos e trabalhar, mas ninguém parece disposto a dar oportunidade”, avalia, desestimulada.

Até recentemente em situação semelhante à de Ilza, Douglas Domingos de Oliveira, 26 anos, começou a buscar emprego em dezembro de 2014, quando se formou em sistemas de informação. Ele mantinha uma média de cinco entrevistas por mês, das quais, de janeiro a junho deste ano, não obteve mais que promessas de retorno. O jovem, que ambicionava trabalhar em programação ou análise de sistemas, viu-se obrigado a fazer restrições e, na semana passada, aceitou emprego como técnico de informática. Apesar da dificuldade para conseguir trabalho, Douglas não enfrentou o impedimento quando era um estudante à procura de estágio. “Todas as vezes que quis estagiar, consegui”, lembra.

A contradição faz parte da vida de milhares de universitários e ilustra o momento vivido pela geração Y: restrições para conseguir emprego enquanto a oferta de vagas de estágio aumenta. A recessão atual, por exemplo, teve influência positiva ao gerar vagas para universitários de janeiro a maio de 2015, quando foi constatado aumento de 35,65% na demanda por estagiários no país. O levantamento, realizado pela Catho, indica uma tendência de procura por estudantes neste período de aperto. Apenas no Centro-Oeste, a oferta de vagas de janeiro a maio de 2015 foi 181,37% maior que no mesmo período do ano passado, passando de 1.219 a 3.320. No Distrito Federal, a procura por estgiários no primeiro trimestre de 2014 foi 273,16% maior que nos três primeiros meses de 2015, passando de 682 para 2.545 vagas.

Enquanto o mercado de estágio é protagonista de uma fase de crescimento, o percentual de pessoas desocupadas no país subiu de 4,4% para 4,8% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado e de 6% para 7,1% no DF, segundo dados do IBGE. O mês passado também não trouxe bons resultados. Em Brasília, a taxa de desemprego ficou em 14,4%, e as 14 mil novas vagas geradas — principalmente no comércio — não foram suficientes para absorver as 23 mil pessoas que passaram a integrar a força de trabalho da região, formada por 1,5 milhão de trabalhadores. O número de desempregados em maio ficou em 225 mil — 10 mil a mais que em abril —, segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego no Distrito Federal (PED-DF).

 

Marcelo Ferreira
 

De acordo com o economista Carlos Alberto Ramos, a dicotomia entre desemprego e surgimento de ofertas para profissionais em formação é típica no Brasil. “Sempre que passamos por uma crise financeira, o setor jovem é mais penalizado”, avalia o economista, que acredita que o saldo da recessão é negativo para a geração Y. De uma perspectiva um pouco mais otimista, o consultor em gestão de pessoas Eduardo Ferraz não vê o momento atual como decisivo para a população que começa a vida economicamente ativa agora. “Nas últimas décadas, houve crises mais e menos graves do que esta, e isso nunca foi motivo para abalar uma geração como um todo. Não será agora que isso vai acontecer”, diz. No entanto, ele orienta que os jovens não se acomodem, inclusive os empregados.

Mão de obra barata

 Ao mesmo tempo em que o desemprego cresce, vários centros de integração têm percebido aumento na demanda por profissionais em formação, tendo em vista que o custo de um estagiário é inferior ao de uma pessoa contratada por meio da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) apresentou alta de 5,37% no número de vagas de estágio ofertadas em escala nacional no primeiro trimestre deste ano (93.446) em relação ao mesmo período do ano passado (88.680). Em consonância com a tendência, o Instituto Fecomércio (IF) declarou que, nos primeiros meses de 2015, a procura por estagiários e jovens aprendizes no DF aumentou 1,3%. Apesar do horizonte otimista para universitários, nem todas as empresas aumentaram a oferta de vagas para mão de obra em formação no período da crise. O Instituto Euvaldo Lodi (IEL), por exemplo, abriu 1.421 vagas de janeiro a maio de 2014, número que decaiu para 1.343 no período equivalente de 2015. A queda de 5,48% foi entendida pela assessoria do IEL como uma consequência da conjuntura econômica atual.

O boom de oportunidades para universitários em algumas empresas é um efeito indireto da recessão. “Os estagiários são mão de obra barata e qualificada, então, faz sentido que, no cenário atual, as empresas demonstrem preferência por eles”, explica a coordenadora de Estágios do IF, Regina Malheiros. Segundo o superintendente executivo do CIEE, EduardoSakemi, a iniciativa privada investe na mão de obra em desenvolvimento como estratégia para se fortalecer durante a crise econômica. “O estagiário representa uma renovação de cenário; os jovens têm disposição para aprender e contribuir com ideias novas, estão sempre antenados”, explica.

Priorizar a contratação de estagiários em momentos de crise, porém, não é considerado saudável. O economista Carlos Alberto Ramos acredita que, apesar de parecer uma solução imediata, eles não devem assumir obrigações que competem a outros cargos. “Não é inteligente dispensar funcionários e contratar estudantes: um profissional não substitui o outro. O estagiário precisa se dedicar à vida acadêmica e requer treinamento, sem falar que o período de contratação é limitado, o que pode causar insegurança financeira”, afirma.

Cenário desigual
Apesar de diversas empresas estarem recrutando mais estagiários, a distribuição das oportunidades varia conforme o curso. Segundo levantamento da Catho, por exemplo, a maior parte das vagas abertas no Centro Oeste, de janeiro a maio deste ano, foram para administração (30,82%), publicidade (8,9%), marketing (8,02%), análise de sistemas (5,28%) e ciência da computação (5,28%).

André Luís de Sousa, 21 anos, é aluno do 7º semestre de engenharia civil do Centro Universitário Planalto do Distrito Federal (Uniplan) e, desde outubro do ano passado, procura estágio sem sucesso. “Meus colegas enfrentam o mesmo problema. Ultimamente, nem para entrevista a gente é chamado”, conta o estudante, que espera encontrar numa oportunidade de estágio o exercício das habilidades práticas que a faculdade não proporciona. André Luís acredita que, caso não consiga estagiar antes da formatura, terá problemas para arranjar emprego depois. “As empresas exigem experiência, mas nenhuma delas permite um primeiro contato”, aponta.

O superintendente executivo do CIEE, Eduardo Sakemi, aponta outro motivo para que estudantes enfrentem dificuldades para estagiar. “As empresas passam a cobrar postura profissional e conhecimento dos estagiários”, pondera. 

 

Três perguntas para


Eduardo Ferraz, consultor em gestão de pessoas

O que os jovens podem fazer para não serem atingidos pelos cortes no mercado de trabalho?

Para quem está trabalhando, o momento é de mostrar empenho e de se oferecer para fazer algo a mais. Não tenha vergonha de perguntar ao chefe ‘O que posso fazer para contribuir?’

Existe uma maneira de se beneficiar da atual situação atual?
O segredo é ser proativo, não dá para esperar as coisas caírem do céu. Para quem não está empregado ou estagiando, a dica é fazer cursos técnicos ou de especialização e se manter atualizado para que você se destaque quando surgir uma oportunidade.

Como aumentar as chances de ser contratado?
É imprescindível ter um currículo completo, atualizado e disponível na internet. Capriche na descrição das atividades anteriores, principalmente se tiver boas notas ou projetos de destaque durante a graduação.

 

 

Encontre uma vaga


Emprego e estágio

» Vagas do Ministério do Trabalho: maisemprego.mte.gov.br

» Portal Admite-se, dos Diários Associados: www.admite-se.com.br

» Vagas de emprego no DF: www.vagadeempregodf. com.br

» Catho, site de classificados de empregos: www.catho.com.br

» Insight, empresa de colocação profissional: www.insightconsultores.com.br

» Emprego Ligado, classificado de empregos: empregoligado.com.br

» Vagas, portal de empregos e programas de estágio e treinee: www.vagas.com.br

» Nube Estágios, site especializado em ofertas de estágios e cursos profissionalizantes: www.nube.com.br

» O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) está com inscrições abertas para estagiários até 7 de julho pelo site www.tjdft.jus.br. Há vagas para diversos cursos, e a bolsa é de R$ 800.
 

 

 

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