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Correio Braziliense

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CENÁRIO PROMISSOR

Carreiras que desafiam o mercado

Cresce a demanda por profissões novas, como as de analista sensorial e audiodescritor. Trabalhadores conseguem prosperar em nichos específicos, mesmo em tempos de crise

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postado em 26/07/2015 12:25 / atualizado em 27/07/2015 16:08

Os ponteiros do relógio têm ritmo próprio, dependendo de quem consulte as horas. Para aqueles que foram diretamente afetados pela crise econômica e o desemprego — que atingiu 6,9% em junho, a maior taxa dos últimos cinco anos segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) —, as horas andaram para trás. No entanto, para quem resolveu apostar em determinados mercados novos, em que há mais demanda do que oferta de profissionais, a marcha dos ponteiros continua à frente.

A procura por gerontólogos, audiodescritores, analistas sensoriais e algumas outras carreiras continua em alta, como atesta Yara Leal, que trabalha há mais de 20 anos como gerente de desenvolvimento de RH e consultora de consumo e negócios. “A crise muda tudo, mas alguns setores são menos afetados. São profissionais estratégicos em empresas ou que atuam em nichos específicos que continuam crescendo”, analisa a sócia-diretora do grupo Questão de Coaching.

“Há mais demanda por serviços de personal — como o organizer e o stylist — porque o estilo de vida mudou, e as pessoas têm menos tempo. É uma oportunidade para se especializar e até de oferecer novos subprodutos, já que isso está se popularizando, e a clientela não é mais só da elite. A área de atuação do gerontólogo cresce com o aumento do número de pessoas mais velhas. A carreira de audiodescritor está em alta não porque tenha aumentado o número de cegos: o que mudou é que eles estão mais inseridos na sociedade e cobram acessibilidade”, exemplifica Yara sobre novos nichos de mercado. Com relação a carreiras estratégicas, uma delas é a de analista sensorial. “Ele define diferenciais para um produto, como um cheirinho ou sabor característico. É um potencial pouco explorado que deve crescer.”

O contador e professor da Universidade de Brasília Roberto Bocaccio Piscitelli percebe que as áreas de serviços, lazer e turismo, apesar da rápida expansão da última década, foram as mais penalizadas devido à queda no consumo, um sintoma da crise: “Isso é natural quando a economia é impulsionada por meio de um processo de ascensão social, como ocorreu no Brasil. As pessoas passaram a consumir produtos aos quais antes não tinham acesso e criaram novos hábitos”.

Outro aspecto que afeta determinadas carreiras é a globalização. “O mundo passa por intensas mudanças que se agravaram com o surgimento da internet”, explica o economista e também professor da UnB José Matias-Pereira, que diz que os efeitos da globalização repercutem negativamente em algumas carreiras, ao passo em que favorecem outras. A posição é ratificada por Yara Leal. “Como exemplo, cito a profissão de carteiro, que passa a ser menos procurada por causa da internet” (confira outras carreiras em alta e em baixa no quadro).

Novos mercados de trabalho

Confira o dia a dia de quatro profissões em ascensão e oportunidades de trabalho e cursos:

Audiodescrição
  • Função: transmitir objetivamente informações visuais contidas em obras de arte, filmes, espetáculos e eventos sem se sobrepor ao conteúdo sonoro, em um processo que visa compensar elementos visuais com palavras
  • Remuneração: em eventos presenciais, o preço médio da hora gira em torno de R$ 200. Pela diária de sete horas, os serviços custam de R$ 1.200 a R$ 1.400. No caso de audiodescrição voltada para tevê e cinema, o minuto de adaptação varia de R$ 100 a R$ 150, já que envolve outros profissionais, como roteirista e até diretor.

 

Ana Rayssa
Em 2012, a discussão em torno das políticas de acessibilidade para pessoas com deficiência se intensificou com a criação do Projeto de Lei (PL) nº 4.248, que exige o uso de audiodescrição nos filmes exibidos nos cinemas e nos canais de televisão. Em consonância com o discurso, a Portaria nº 188/2010, do Ministério das Comunicações, determina o uso da audiodescrição em, pelo menos, duas horas semanais na programação das emissoras de tevê aberta que operam em sinal digital.

“A procura por audiodescritores aumentou consideravelmente”, avalia a psicopedagoga Sônia Miranda, que trabalha há 23 anos com pessoas com deficiência visual e na alfabetização e reabilitação de crianças cegas e de baixa visão. Ela faz especialização na área na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a única do país. A audiodescrição é um recurso destinado a deficientes visuais, e Sônia descreve a profissão como a arte de transformar palavras em tudo que é visto. “É um trabalho que abrange a televisão, o teatro e todos os tipos de cerimônias e espetáculos. Vivemos em um mundo cada vez mais visual, e é nosso dever garantir que todos tenham acesso aos mesmos direitos”, afirma.

“O audiodescritor tem que entender a estética do produto que está traduzindo, essa é uma sensibilidade que se adquire com esforço e estudo”, explica a professora Soraya Ferreira, que coordena um grupo de pesquisa e extensão em audiodescrição na UnB chamado Acesso Livre. Há cerca de um mês, Sofia Fiore, 24 anos, aluna de pedagogia na insituição, criou uma empresa que oferece serviços de audiodescrição. A ideia que deu origem à Verbo Produções Audiovisuais surgiu no grupo de pesquisa e extensão coordenado por Soraya. “Começaram a nos chamar para realizar trabalhos fora da universidade, foi aí que eu me dei conta da alta procura por audiodescritores em Brasília”, conta a estudante.

A empresa é convidada para realizar serviços em reuniões governamentais. “Os espetáculos e as produções culturais ainda não julgam a audiodescrição indispensável ou não têm verba para investir no recurso”, diz Sofia, ansiosa pela inserção da audiodescrição na vida cultural de Brasília.

Oportunidades:

  • A Globo Tradução contrata audiodescritores. Enviar currículo para: adm@globotraducao.com.br. Telefone: (61) 3327-7192
  • O Curso de especialização em audiodescrição na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência abre 100 vagas. O curso é semipresencial e tem duração de 2 anos. Pré-inscrições no site: www.ngime.ufjf.br/pre-inscricao-audiodescricao.

"Vivemos em um mundo cada vez mais visual, e é nosso dever garantir que todos tenham acesso aos mesmos direitos"

Sônia Miranda, psicopedagoga e audiodescritora

Fernanda com Francisco Soares: cuidado (Edy Amaro/Esp. CB/D.A Press)
 

 

 

Fernanda com Francisco Soares: cuidado


Gerontologia
  • Função: prestar serviços dos mais variados para a população em envelhecimento
  • Remuneração: como ainda não é uma profissão regulamentada, não há piso salarial estabelecido, mas a Associação Brasileira de Gerontologia (ABG) estipulou que o salário do gerontólogo varia entre R$ 2.364 e R$ 4.728; profissionais experientes excedem a renda média.

“O Brasil não pode mais ser chamado de país dos jovens”, diz o coordenador da pós-graduação em gerontologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), Vicente Paulo Alves. O professor se refere à mudança na pirâmide etária da população, que passa a ter cada vez mais idosos. “É aí que entra a figura do gerontólogo, que pode trabalhar como professor, cuidador de idosos, capacitador. Os locais de trabalho podem ser instituições de longa permanência (asilos) ou empresas”, explica. Comumente confundido com geriatra, o gerontólogo não é um médico especializado no atendimento de idosos, como é o caso do primeiro. “A atuação vai além dos cuidados de saúde, e o principal objetivo é resguardar a qualidade de vida e a autonomia dos pacientes”, conclui Alves.

No país, apenas a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Universidade de São Paulo (USP) oferecem bacharelado na área. Por se tratar de uma graduação recente nas agendas das universidades, a maioria dos interessados em trabalhar como gerontólogos recorre à especialização. É o caso de Fernanda Giuliani, 30 anos, que se formou em fisioterapia pela Universidade Federal de Campinas (Unicamp) e, hoje, faz mestrado em gerontologia na UCB, o único existente no DF. “O trabalho do gerontólogo precisa ser multidisciplinar, para atender o idoso em todas as demandas, e existem muitas oportunidades disponíveis, tanto em asilos quanto em residências.”


"O principal objetivo é resguardar a qualidade de vida”
Vincente Paulo Alves, professor de gerontologia

Bruno trabalha degustando sorvete (Wendel de Souza Oliveira/Divulgação)
 

 

Bruno trabalha degustando sorvete


Analista sensorial
  • Função: utilizar os cinco sentidos para analisar atributos — como sabor, aparência, textura e aroma — de alimentos e outros produtos e qualificar sua eficácia no mercado
  • Remuneração: o piso é de seis salários mínimos; segundo dados da Fundação Salvador Arena, a renda inicial é estimada em R$ 4.500, a média em R$ 6.000 e a sênior em R$ 10.000.

A afinidade com química durante o ensino médio motivou Bruno Gabriel Gazza, 21 anos, a virar analista sensorial. Hoje, o jovem tem um diploma em tecnologia de alimentos pela Faculdade de Tecnologia Termomecânica (FTT) e trabalha com controle de qualidade na Oggi Sorvetes, em São Bernardo do Campo. Ele participa de sessões de degustação de sorvetes e caldas ao longo da semana, a fim de avaliar as características dos produtos. “É uma missão árdua”, brinca. Na opinião de Bruno, a maior garantia de emprego para a função em tempos de recessão econômica é “a necessidade das indústrias de diminuir o custo de fabricação dos produtos sem alterar as características, medida adotada quando há cortes”.

A professora da disciplina de análise sensorial na FTT, Márcia Pulzatto, explica que compete aos profissionais da área avaliar a preferência dos consumidores por certos sabores em detrimento de outros, verificar as particularidades que os caracterizam e desenvolver novos alimentos. O analista também pode atuar em empresas de bebidas, cosméticos, perfumes, produtos de limpeza e de automóveis. “É uma área ampla. O cheiro dos carros novos é desenvolvido pelos nossos profissionais”, exemplifica.

Oportunidades:
  • A BRF contrata analistas sensoriais. Inscreva-se no site: www.sonhadoresbrf.com.br.

"O cheiro dos carros novos é desenvolvido pelos nossos profissionais”
Márcia Pulzatto, professora de análise sensorial

Barbara vê o mercado do DF como promissor (Breno Fortes/CB/D.A Press)
 

 

Barbara vê o mercado do DF como promissor


Personal organizer
  • Função: facilitar a rotina pessoal dos clientes por meio do uso das habilidades de logística e organização
  • Remuneração: o valor médio da hora cobrada é de R$ 80 para iniciantes e varia de R$ 120 a R$ 160 para aqueles já estabelecidos. Um iniciante fatura em média R$ 2.100 por mês, e um profissional com nome no mercado pode ganhar até R$ 15.000, segundo estimativa da empresa Oz!

Para atender à demanda por soluções práticas voltadas à vida pessoal, surge o personal organizer, profissão ainda não regulamentada e importada dos EUA para o Brasil em meados da última década. José Luiz Cunha, diretor da Oz! Organize Sua Vida, estima que, atualmente, cerca de 800 pessoas atuem na profissão no país. Segundo ele, o ramo não será prejudicado pela crise porque trata-se de uma carreira ligada a momentos de transição. “Podemos organizar desde a chegada de um bebê até um funeral; realizar workshops; organizar escritórios; ensinar clientes a usarem os novos dispositivos tecnológicos; oferecer consultoria em mudanças corporativas e treinar empregadas.”

Barbara Volnei, 34 anos, se mudou de Goiânia para Brasília há seis meses e trabalha como personal organizer há oito anos. “Aqui, o mercado é muito promissor, o número de pessoas que se mudam para a capital e precisam de ajuda para organizar a própria vida é grande”, explica a profissional. “Tem glamour associado ao nome, mas é um trabalho que exige esforço físico e pensamento estratégico.”

Oportunidades:

  • A Oz! Organize Sua Vida oferece cursos em vários nichos da profissão. Inscrições: www.organizesuavida.com.br.
  • A Simplesmente Organizar oferece cursos e workshops. Acesse: www.simplesmenteorganizar. com.br.


"Podemos organizar desde a chegada de um bebê até um funeral”
José Luiz Cunha, diretor da Oz! Organize Sua Vida

 

Outras carreiras

 

Em ascensão

Analista de compliance

A área está em alta em função dos escândalos e investigações na política. As empresas estão preocupadas em desenvolver uma estrutura que estabeleça regras e crie mecanismos que assegurem o cumprimento das normas.

Analista de riscos
Profissão relacionada a identificar os riscos de fraudes e de perda de produtos e insumos dentro de uma empresa, a fim de prevenir essas situações.

Desenvolvedor mobile

Com a popularidade dos aplicativos para celular, a profissão está em alta. Existe demanda por pessoas criativas e engenhosas que desenvolvam soluções práticas para a vida moderna.

Gestor de big data
Big data é um sistema de banco de dados no qual as empresas têm acesso a informação detalhada sobre funcionários, clientes, empresas e mercado. O profissional implementa a ferramenta em empresas.

Em declínio

Analista de mídias digitais

Há cinco anos, esse profissional, era muito procurado mas, hoje, a área está saturada, porque existem muitas pessoas com esse perfil disponíveis no mercado de trabalho.

Gerente e caixa de bancos
Os aplicativos de bancos têm facilitado muito a vida de correntistas, que não precisam mais se deslocar até agências para fazer transações rápidas.

Corretor de imóveis
O mercado de imóveis está em baixa. Além disso, existem muitas pessoas atuando na área, o que caracteriza um cenário saturado.

Engenheiro de óleo e gás
É uma carreira muito dependente da Petrobras, que, devido aos sucessivos escândalos dos últimos anos, não tem mais as mesmas força e credibilidade de antes.
 

 

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