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TRAJETÓRIA A ESCOLHER »

Um futuro tradicional para os filhos

Segundo pesquisa, 83% dos pais têm em mente uma profissão para a prole. A maioria quer que os sucessores sigam carreiras consagradas, como medicina e engenharia, pela estabilidade que teoricamente proporcionam. Veja aqui como lidar com essa pressão

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postado em 10/08/2015 09:50 / atualizado em 10/08/2015 10:09

Paula Braga /Especial para o Correio

Antonio Cunha

A medicina é a grande escolhida para o futuro da nova geração na família de Dimitri Homar, 58 anos. Por influência dele, que é especialista em nutrologia, as três filhas — Wanessa, 29; Weruska, 27; e Dimitria, 24 — decidiram seguir a profissão. “Eu tinha esse desejo de que elas estudassem medicina também. É uma área muito gratificante. Eu até brincava imaginando como seria trabalharmos todos juntos no mesmo consultório. Qual pai tem essa oportunidade?”, conta Dimitri. “Ele sempre teve muita paixão pelo que faz e influenciou não somente minhas irmãs, mas muita gente na família. Meu pai nunca falou claramente que queria que nós fôssemos médicas, mas sabíamos que ele tinha esse desejo”, conta Dimitria, que concluiu a graduação em medicina este ano e trabalha parte do período no consultório do pai. Wanessa está concluindo a residência médica em nefrologia em São Paulo e Weruska terminou a pós-graduação em dermatologia e nutrologia.

Segundo pesquisa, Dimitri não está sozinho entre os que imaginam uma carreira para os filhos: estudo realizado pelo HSBC entrevistou 5.550 pessoas de 16 países e revelou que a maior parte dos pais tem em mente uma profissão específica para os filhos — medicina é a carreira queridinha pelas famílias, com 19% da preferência. O desejo de ter filhos engenheiros também está presente: 11% afirmaram ter predileção pela área para o filho. Para o diretor do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), Marcos Tito, o desejo de que os filhos sigam carreiras tão tradicionais está alinhado aos valores de gerações antigas. “Quando os mais jovens tiverem filhos, provavelmente vão querer que eles sigam as profissões que eles conhecem. Essas carreiras tradicionais estavam em alta na época dos pais. É normal que eles escolham essas áreas para tentar proteger e dar segurança. Mas os pais não podem se tornar anuladores dos sonhos dos filhos”, destaca.

Um dos valores que o especialista atribui à época dos pais é a busca pela estabilidade rápida no emprego. “Esse é um valor das gerações mais antigas. Hoje em dia, as coisas acontecem muito mais rápido por conta da globalização, da internet. Há 30 anos, profissões relacionadas com empreendedorismo e criatividade, por exemplo, não eram tão cotadas. Existe uma febre em relação a alcançar independência, mas isso varia de acordo com o perfil de cada pessoa: alguns vão fazer isso por meio da segurança de um concurso público, e outros vão optar por desafios diferentes”, explica Tito.

Edy Amaro

Apesar de não estarem familiarizados com as novidades no mercado de trabalho, os pais acertam ao pensar em profissões que continuarão tendo espaço daqui alguns anos. “Algumas carreiras estão em mercados que ainda estão em desenvolvimento e que podem não ter capacidade de abranger todos os profissionais graduados na área”, afirma o professor do núcleo de pesquisas Profuturo da Fundação Instituto Administração da Universidade de São Paulo (FIA/USP) Daniel Estima de Carvalho.

 

 

Busca por segurança
A preocupação com a estabilidade no emprego escolhido pelos filhos também parece tirar o sono dos pais brasileiros: o serviço público é bastante cotado entre as profissões desejadas pelos progenitores, com 10% da preferência dos entrevistados — entre os demais países, a média é de 6%. A opção pela carreira como servidor público era o desejo dos pais de Jeremias Cesar Neto, 37 anos. Ele chegou a concluir o curso de graduação em direito como parte do caminho para prestar um concurso na área e seguir na carreira pública, conforme desejavam o pai e a mãe, mas, assim que se formou, decidiu estabelecer uma carreira numa área diferente. Atualmente, Jeremias é empresário e está à frente de dois restaurantes.

“Enquanto eu estava no curso de direito, meu pai comprou uma lanchonete. Comecei a ajudá-lo na administração e me identifiquei. Ele trabalhava como bancário e não queria de jeito nenhum que eu continuasse nessa área de comércio. A vontade dele era que eu concluísse a faculdade de direito e prestasse um concurso”, conta o empresário. Mesmo não seguindo a carreira desejada pela família, ele afirma que recebeu apoio para prosperar e está feliz. “Já pensei em como seria a minha vida se eu tivesse continuado em direito. Acho até que me daria bem na carreira, mas não me arrependo da escolha que fiz.”

Outras conclusões
Os pais de todas as nacionalidades concordam em um ponto: a educação é o grande caminho para o sucesso. Para 89% dos entrevistados, um diploma de nível superior é essencial para ter uma vida próspera. Entre os brasileiros, 63% das famílias acham que fazer uma especialização é uma necessidade básica para alcançar o sucesso — entre o total de entrevistados, o índice foi de 50%. No entanto, 58% dos entrevistados em todo o mundo consideram a universidade inacessível para a maioria da população.

 

Apesar de idealizarem uma carreira para os filhos, o principal plano que a maioria dos pais afirmou ter é que eles sejam felizes (64%). A pesquisa também revelou que a maioria dos pais espera que os cursos de graduação ensinem valores aos filhos. Entre as famílias brasileiras, 87% dos pais esperam que as universidades ensinem aos filhos como se tornarem independentes e financeiramente responsáveis.


"Carreiras tradicionais estavam em alta na época dos pais. É normal que eles escolham essas áreas para tentar proteger e dar segurança”
Marcos Tito, diretor do Instituto Brasileiro de Coaching

 

Negócio de família


Confira as principais dicas de psicólogos e consultores para lidar com o desejo dos pais no momento de escolher a profissão:

Para aqueles que seguirão a carreira desejada pelos pais:

» Você deve desejar a carreira tanto quanto sua família.

» Analise o próprio perfil e leve em consideração se essa carreira aproveitará seus talentos e as atividades que você gosta de fazer.

» Nunca é tarde demais: se perceber que está infeliz na carreira que escolheu, reavalie e mude.

Para os que decidiram seguir uma carreira indesejada pelos pais:

» O melhor é conversar, apresenter motivos pelos quais você acha que será mais feliz nesta carreira do que em qualquer outra.

» A resistência pode ser desconhecimento. Se sua família entender o que você faz, pode ver a profissão de maneira diferente.

» Evite conflitos. Diferentes gerações tendem a ter perfis diferentes. O diálogo ainda é a melhor saída para pais e filhos.

Fonte: Marcos Tito, coaching e diretor do IBC, e Roberta Paiva, psicóloga especialista em orientação profissional

 

Três perguntas para


Roberta Paiva, psicóloga especializada em orientação profissional

Quais são as possíveis consequências de adiar a graduação desejada e investir na carreira que a família quer para evitar conflitos?
Não é aconselhável, apesar de muitos jovens terem feito isso. Porém, o que ocorre realmente é que eles buscam tardiamente a formação desejada. O grande problema é o dispêndio desnecessário de tempo e dinheiro, além da angústia diante da insatisfação com a graduação que não foi uma escolha própria.

Mesmo com o desejo de que o filho siga determinada carreira, qual deve ser o comportamento dos pais caso ele escolha uma área diferente?

Não é fácil para os pais. Porém, se isso ocorrer, eles devem apoiar a tendência profissional escolhida pelo filho. Essa decisão aponta as habilidades e talentos dele. Além disso, a postura colaborativa dos pais não arrisca a autonomia dos filhos. Tudo deve ser tratado com sensibilidade e bom senso.

Como alcançar a felicidade na escolha da carreira?
Esse momento é regado de dúvidas, angústias e sofrimento. Com a ajuda de questionários, entrevistas e testes com psicólogos a pessoa pode entender suas habilidades e economizar tempo e dinheiro.

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