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Entraves para o crescimento

Ter uma empresa eficiente, isoladamente, não supera os obstáculos do contexto nacional - como alta carga tributária, burocracia e falta de infraestrutura. No entanto, todo empresário precisa lutar para conseguir bom nível de produtividade e, assim, impactar positivamente a competitividade do país

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postado em 17/08/2015 10:10 / atualizado em 17/08/2015 10:23

Ana Paula Lisboa

Breno Fortes

As dificuldades que atrapalham o crescimento das empresas no país — e, consequentemente, o desenvolvimento nacional — perpassam por problemas econômicos e desafios estruturais. O famoso Custo Brasil é fruto de um círculo vicioso e, como envolve diferentes atores, só pode ser superado em conjunto, defendem especialistas. E não são poucos os problemas a enfrentar para ter uma nação competitiva.

“Se as empresas são obrigadas a assumir os custos da falta de segurança, da educação de baixa qualidade, da burocracia e da infraestrutura deficiente (que o Estado deveria prover), isso prejudica a produtividade interna e a competitividade nacional, já que uma afeta a outra”, defende Renato da Fonseca, gerente executivo de Competitividade da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Se o Brasil tinha entraves para alcançar bom nível de eficiência antes, as complicações do momento econômico entram em campo para agravar o caso. De janeiro a junho, 232 mil negócios foram abertos, de acordo com dados da Secretaria da Micro e Pequena Empresa. No entanto, no mesmo período, 191 mil empreendimentos fecharam as portas. Os números de abertura e fechamento nunca foram tão próximos. No ano passado, a cada duas instituições lançadas no mercado, uma encerrava atividades. Em 2000, a proporção era de cinco para uma.

Não é apenas o investidor nacional que teme o contexto brasileiro: o país foi rebaixado pela agência de classificação de risco Moody’s. A nota — que serve como certificado de segurança — passou de BAA2 para BAA3, e o país se encontra na categoria de investimento de qualidade média em nível global.

Ricardo Jucá, sócio da consultoria de educação corporativa Atingire, aponta que os problemas para abrir uma empresa são prejudiciais na busca por alto rendimento. “O próprio processo de abertura é um dos mais longos do mundo, muito burocrático e com muito dinheiro envolvido”, diz. “A grande quantidade de impostos e a variabilidade deles; o fato de o transporte rodoviário não ser o mais efetivo, mas ser o mais utilizado... Há uma série de considerações sobre mudanças necessárias feitas há tempos; o governo não ataca as questões, e sobra para o empreendedor lidar com elas”, resume.

Cenário do DF
“A pressão no empresário é muito grande; ela vem do Estado, dos funcionários, dos clientes. Não tem para onde correr, especialmente em 2015, com a crise”, percebe Élvio Júnior, 35 anos, dono da Gráfica 76, localizada no Setor de Indústrias Bernardo Sayão, no Núcleo Bandeirante. Com 17 funcionários na equipe, ele lida com problemas estruturais, como alta carga tributária, mão de obra cara e desqualificada e falta de infraestrutura; além da crise econômica que puxa a eficiência para baixo. A imposição de acompanhar a tecnologia bate à porta periodicamente. “Quem não se atualiza fica fora. Há máquinas mais modernas a cada dois anos, e são caras: apenas para começar uma empresa do porte da minha, são necessários R$ 5 milhões. E é complicado fazer investimento no contexto daqui”, relata ele, que é membro da diretoria do Sindicato das Indústrias Gráficas do Distrito Federal (Sindigraf-DF).

Com os problemas já existentes e o entrave econômico, a saída num cenário com perspectivas de crescimento pífio é aumentar a produtividade de dentro para fora. “Temos que olhar para dentro, reduzir custos internos. Se eu vou ganhar R$ 1 milhão por um serviço, mas vou ter um custo de R$ 800 mil, é preciso remanejar para que o valor pago renda mais baixando os gastos da produção”, observa. Élvio Júnior percebe que o Custo Brasília pesa em comparação a outras unidades da Federação. “Os salários são mais altos, e a carga tributária é maior. Perdemos em relação a Goiás, Minas Gerais, São Paulo…”, reclama.

“No DF, além do conjunto de questões centrais que atrasam a eficiência nacional — como a sobrecarga de impostos e a reduzida credibilidade do governo para atrair investidores —, enfrentamos ausência de políticas definidas de desenvolvimento, que, no mínimo, igualem o DF aos estados em termos de impostos e tragam incentivos para investidores e empreendedores”, concorda Jamal Jorge Bittar, presidente da Federação das Indústrias do Distrito Federal (Fibra-DF). Apesar dos aspectos negativos, a capital federal tem, pelo menos, um ponto atrativo: “Nossa localização serve de estímulo logístico”. Bittar acredita que, com uma boa política de desenvolvimento, a matriz econômica local poderia passar a ter foco industrial.


"Se as empresas são obrigadas a assumir os custos da falta de segurança, da educação de baixa qualidade, da burocracia e da infraestrutura deficiente, isso prejudica a produtividade”
Renato da Fonseca, gerente executivo de competitividade da CNI

 

Dá para reverter?


Na pior classificação da história no Índice de Competitividade Mundial do International Institute for Management Development (IMD) — que avalia eficiência governamental e dos negócios, desempenho econômico e infraestrutura —, o Brasil está em 56º lugar entre 61 nações, ficando atrás de países europeus e também de latino-americanos, como Chile (35º) e México (39º). Essa foi a quinta queda consecutiva do país no estudo. Para reverter o quadro e colocar o Brasil para crescer, é preciso esforço de muitos atores, principalmente do governo, do empresariado e até da massa da mão de obra.

Professor do Instituto of Businesss Education — Fundação Getulio Vargas (IBE-FGV), Júlio César Nogueira de Sá, especialista em gestão de RH e marketing, diz que “reclamar do governo é batido” quando se trata de competitividade. Mesmo assim, ele aponta elementos-problema no contexto nacional. “Não temos incentivos para ter empresas eficientes. A desoneração da folha de pagamento no passado penalizou quem era eficiente e tinha pouca mão de obra; há vários agravantes na tributação.” Ele aposta, porém, que a mudança deve vir de dentro dos negócios. “Temos empresas com eficiência de primeiro mundo, mas são minoria. Falta fazer disso uma prioridade dentro das organizações.”

O presidente do Conselho Federal de Administração (CFA), Sebastião Mello, observa que a competitividade é baseada em muitos fatores — como tributação, logística, transporte, tecnologia e mão de obra — que não dependem, diretamente, do empresariado. Mas aposta que o avanço nacional pode começar nas empresas. “O que queremos é um país mais profissional e, para isso, precisamos de empresas mais profissionais.” Para promover mudanças dentro das companhias, Renato da Fonseca, gerente executivo de Competitividade da CNI, defende um sistema meritocrático. “É preciso recompensar o esforço.”

Fonseca cita propostas para reverter a situação. “Para fazer o estado diminuir o Custo Brasil, a agenda passa por educação, infraestrutura, financiamento, tributação, burocracia… Só que hoje estamos num processo de ajuste econômico. Não adianta pedir para reduzir a carga tributária agora. O que o governo pode fazer, no momento, é atacar a burocracia, o que reduziria gastos do estado e das empresas. Também é preciso fazer deslanchar a infraestrutura para criar um ambiente seguro para investidores”, aposta. “A agenda de competitividade tem que se tornar prioridade. Se as indústria e as empresas brasileiras sobreviveram com todo esse custo, imagine o que serão capazes de fazer se passares a ter menos gastos!”

 

Palavra de especialista


 (SAE Brasil/Divulgação)
 

Atrasos e mais atrasos

A infraestrutura problemática faz com que a burocracia e a logística gerem mais custos no Brasil do que em outras partes do mundo. Comparando o mesmo tipo de empresa no Brasil e no México, por exemplo, aqui, é preciso sete vezes mais pessoas para cuidar da área financeira, porque temos uma quantidade enorme de formulários e tributos. É possível encontrar produtos fabricados no Brasil sendo comercializados na Argentina com preço inferior do que o praticado aqui por causa dos impostos. Logística é outro problema: nossos portos, aeroportos e alfândegas não são eficientes. O transporte interno demora e custa mais. Por fim, temos o preço da matéria-prima nacional, que é elevado em diversos setores. Também lidamos com uma situação inflexível para contratar a mão de obra, que é cara.

Gábor Deák, membro do Conselho Executivo da SAE Brasil, instituição internacional voltada para o progresso da mobilidade

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