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Respeitáveis artistas de rua!

Músicos, palhaços, malabaristas transformam semáforos, praças e espaços públicos em locais de trabalho. Conheça a história de algumas pessoas que vivem de passar o chapéu nas ruas do Distrito Federal

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postado em 24/08/2015 09:35 / atualizado em 24/08/2015 10:40

Paula Braga /Especial para o Correio , Juliana Espanhol


 

Negócio com arte

Quem trefega pela área central de Brasília é convidado a participar de um espetáculo. As vertentes artísticas são bastante variadas: há artistas de teatro, música, circo. Basta circular de carro ou caminhar alguns metros próximo à Rodoviária do Plano Piloto para virar plateia desses profissionais que preferiram trocar o ar condicionado dos escritórios pelas várias horas debaixo de sol (ou de chuva); o traje formal pelas pinturas no rosto e roupas coloridas; e o computador e as planilhas pelas bolinhas e instrumentos musicais para se apresentar diariamente nas ruas.

“O número de artistas de rua em Brasília tem crescido bastante. Esse tipo de arte se difundiu de  forma que agora estamos começando a colher os frutos disso. O que eu percebo é que o público tem muita vontade de ver esse tipo de apresentação”, afirma Erika Mesquita, uma das artistas organizadoras do Festival Internacional de Artistas de Rua de Brasília, que ocorreu em maio deste ano.

Segundo ela, a cultura de profissionais que utilizam a rua como palco já é bastante valorizada na Europa, e a tendência é que o processo seja replicado aqui no Brasil. “A experiência que tive em outros países me mostrou que o nível dos artistas é muito bom. O público entende que está assistindo a um espetáculo. Da mesma maneira que as pessoas vão ao teatro e pagam para assistir a uma peça, o público deve depositar no chapéu do artista o valor que acredita que deve ser pago pelo trabalho dele”, afirma Erika que já se apresentou em sete países e em todas as regiões brasileiras.


Legislação
A apresentação de artistas na rua não é regulamentada em todos os municípios do país. Em algumas capitais (como São Paulo e Curitiba) existem leis que definem os horários em que as apresentações devem ocorrer e garantem direitos dos artistas. Apesar disso, não existe uma legislação nacional que regulamenta a profissão.

 

Eles ocupam os espaços públicos da cidade para trabalhar com arte

 

 (Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Luciano Delucci, 41 anos
Na entrada da Estação Central do Metrô, duas crianças maltrapilhas assistem a um homem que toca sax. Na capa aberta do instrumento, algumas moedas e notas de dinheiro. O saxofonista hesita. Não sabe se os meninos querem pedir dinheiro ou apenas apreciar a música. Pensa até que eles esperam o momento certo para roubá-lo. Resolve falar. “Tudo bem? O tio está trabalhando, se quiserem contribuir, fiquem à vontade”. Um dos meninos põe uma moeda de 50 centavos na capa do sax. Constrangido, o músico tenta devolver o dinheiro. O menino recusa. “Então, vocês podem escolher uma música, e eu vou tocar”. “Toca um funk, então”. E foi assim que o hit Beijinho no ombro ecoou na galeria.

Para Luciano Delucci, 41 anos, essa foi uma das situações mais marcantes que ele viveu como artista de rua. Ele é  novato no ramo — começou a se apresentar no metrô no início do ano. Brasiliense, o músico viveu durante 10 anos no Rio de Janeiro, onde trabalhou na tevê e gravou uma música para o CD da novela global O amor está no ar, de 1997. Luciano voltou para Brasília em 2008 porque a mãe estava doente. Com poucos contatos, teve dificuldade para se reinserir na cena da cidade. Após a morte da mãe, passou mais de um ano sem conseguir tocar. Aos poucos, se recuperou e viu na música uma terapia.

As apresentações no metrô são a principal fonte de renda dele, que trabalha três vezes por semana, entre a Rodoviária e a Galeria dos Estados. O músico consegue tirar entre R$ 30 e R$ 100 por dia, e sabe de cor os ritmos que rendem as maiores gorjetas. “Toco todo tipo de música, do sertanejo ao gospel! Às vezes, faço pesquisa para ver se a canção está na moda, mas o que faz mais sucesso são as músicas antigas, até porque os jovens não costumam contribuir tanto”, revela. Ele admite que, no início, não foi fácil tocar no metrô. “Eu tinha um pouco de vergonha. Acho que as pessoas de cidades maiores estão mais habituadas aos artistas de rua. Uma vez, uma amiga da minha mãe me viu tocando e ficou muito constrangida”, relembra. Outra dificuldade é a fiscalização. Apesar de ter autorização para tocar no local, ela serve apenas para alguns horários. “Tive de fazer uma espécie de acordo com os lojistas para que eles não reclamem. Senão, eu só poderia tocar durante um período muito pequeno”, diz.

"Acho que as pessoas de cidades maiores estão mais habituadas aos artistas de rua”

 (Paula Braga/CB/D.A Press)
 

Jimena Gramajo e Fausto Encina, 24 anos
Os malabares com argolas, pinos, bolinhas e tecido foram a arte escolhida pelos argentinos Jimena Gramajo e Fausto Encina, 24 anos. Atualmente, eles se apresentam para os motoristas que aguardam nos semáforos fechados próximos à Rodoviária do Plano Piloto, mas perdem a conta dos estados pelos quais já viajaram — eles conseguem enumerar seis: Rondônia, Amazonas, Pará, Amapá, Tocantins e Bahia.

No Brasil desde 2013, Jimena estudou artes plásticas em Córdoba, na Argentina, e, quando terminou o curso, decidiu viajar. A convite de um amigo, ela mora em um apartamento no beco cultural Mercado Sul, em Taguatinga. “Comecei a aprender os malabares quando cheguei aqui. Antes, trabalhei como secretária, dava oficinas de artes para crianças. A estadia de Fausto na cidade é mais curta: ele chegou há duas semanas em Brasília, e não sabe até quando permanece. Assim como Jimena, ele também tentou outras profissões antes de partir para a vida de artista. “Já trabalhei em hotéis, vendendo carros, ensacando gelo para um comércio. Hoje prefiro viajar e trabalhar por conta própria”, afirma.

 (Paula Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

Davis Icomena, 26 anos
Quem vê Davis Icomena, 26 anos, parado durante horas na calçada em frente a um shopping da cidade (onde ele costuma se apresentar e já é figura conhecida de quem passa sempre pelo local) não imagina que ele já se movimentou, e muito, por outros cantos do país. Nascido na cidade de Iquitos, no Peru, o artista mora no Brasil há dois anos e meio e, além de Brasília, já levou a arte da estátua viva para Cuiabá e Goiânia. “É muito difícil, demanda muito aprendizado para conseguir ficar parado durante várias horas”, disse Davis misturando as palavras que conhece em português com o espanhol do país de origem. Aos pés, o artista posiciona uma caixa que convida os passantes a depositarem algum valor para verem o personagem se movimentando. Para compor a caracterização, ele conta com roupa e pintura nada discretas: tudo é pintado de prateado — inclusive o rosto. A composição (que parece levar horas para ser concluída), segundo ele, fica pronta em poucos minutos: “no máximo em meia hora já terminei tudo”, afirma. Ele não revela quanto as pessoas deixam na caixinha após um dia inteiro, mas afirma que o valor que os pedestres escolhem pagar pela arte é suficiente para conseguir viver.

 (Carlos Moura/CB/D.A Press)
 

Erika Mesquita, 35 anos
Desde 2004 as ruas são o palco da caravana Circo Rebote, formada por Erika Mesquita, 35 anos, e pelo marido dela, Atawalpa Coello, 36. Na pele dos palhaços Trompetino e Berinjela, eles costumam se apresentam aos fins de semana na praça da feira da Torre de TV. Os espetáculos reúnem as linguagens do circo, do teatro e acrobacias. “É uma questão ideológica para a gente se apresentar nas ruas, levar o nosso espetáculo onde o nosso público está e ocupar os espaços da cidade”, conta Érika.

Nascida no Rio de Janeiro, ela mora na capital federal desde os 10 anos e já se considera brasiliense. “Há onze anos estamos nos apresentando num dos pontos turísticos da cidade. Tenho muito orgulho de ter ajudado a consolidar essa cultura de artistas de rua na Torre de TV”, destaca. Para aqueles que pretendem iniciar na carreira, Erika ressalta que é necessário estar preparado para todas as situações. “Na rua tudo pode acontecer. O artista precisa estar preparado para qualquer tipo de situação, desde as crianças que querem invadir o espetáculo para participar até os bêbados, que sempre aparecem. Todo espetáculo é imprevísivel.”

 (Antonio Cunha/CB/D.A Press)
 

Luiz do Pandeiro, 64 anos
A voz alta e o sorriso largo de Luiz do Pandeiro quebram o ritmo de quem passa apressado na plataforma entre o Conjunto Nacional e o Conic. Além de ouvir os batuques do instrumento que acabou virando apelido, os passantes escutam conselhos, brincadeiras e ensinamentos cristãos vindos do artista de rua de 64 anos. Diferentemente de muitos músicos, ele começou a tocar pandeiro apenas na vida adulta, aos 47 anos. “Antes, eu só observava os músicos. Desde pequeno via o povo tocar no sertão”, conta. Hoje, ele treina também um pouco de zabumba e sanfona.“Eu me divirto. Vou terminar meus dias fazendo música”, diz.

Nascido e criado no interior maranhense, Luiz Lucena Pacheco teve uma vida de serviço braçal. Trabalhou na roça, foi vigia noturno e, por fim, carroceiro, função que ocupou por 20 anos, apesar de ter apenas a perna direita. Tudo acabou quando ele sofreu um roubo. “Levaram meu cavalo, a carroça, tudo! Achei que fosse ficar doido”, relembra. Foi quando resolveu ir para as ruas levar sua mensagem. De lá para cá, algumas coisas se ajeitaram. De um barraco na Asa Norte, Luiz passou a viver em sua casa própria no Paranoá, financiada graças a um programa federal. Gravou um CD com oito composições próprias, com apoio da Secretaria de Cultura do DF. Também faz aulas numa escola de idiomas, e sonha gravar uma música em inglês.

Porém, a rotina de trabalho na rua tem riscos. Tanto que ele prefere se manter atado a uma das pilastras da plataforma, por segurança. “Tem gente que passa aqui e xinga, faz gestos. Já ameaçaram me jogar lá embaixo, aí passei a usar a corda, não custa nada. Não fico chateado porque sei que quem faz isso não são as pessoas, são os espíritos do mal.” Luiz do Pandeiro trabalha apenas nos dias úteis, pela manhã e à tarde. Discreto sobre o valor que arrecada, ele diz apenas que é o bastante para “ter o que comer”. Para ele, pedir dinheiro nunca foi uma opção, apesar de ter passado por tempos difíceis. Na rua, ele divide espaço com muitos vendedores e panfleteiros. Alguns deles passam e cumprimentam o músico. Também param por ali pessoas bem vestidas, que trabalham nas lojas e em escritórios da região. “Tem alguns que observam, outros fazem brincadeiras, mas no meio dessa multidão alguém sempre me vê. Agora só falta fazer um show para poder ganhar dinheiro!”

 

 

 

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