SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

VAGAS ON-LINE »

No banco de reservas

Usuários reclamam da eficiência de portais de currículos na internet. Após meses cadastrados, muitos não foram chamados para entrevistas de empregos. No entanto, empresas afirmam que a peneira virtual ainda representa um bom caminho para ser contratado

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 21/09/2015 11:07 / atualizado em 21/09/2015 11:11

Augusto Berto - Especial para o Correio

Breno Fortes

Entrou em extinção a figura do candidato que bate à porta das empresas com currículo na mão em busca de emprego. Grandes responsáveis por isso são páginas na internet que ganharam popularidade ao fazer a ponte entre empregador e desempregado. Quem procura trabalho cadastra currículo no banco de dados on-line. Se a empresa abrir vagas, pode acessar o sistema e descobrir, em poucos segundos, o candidato ideal. Na teoria, o trabalhador fica em evidência para concorrer a milhares de oportunidades pelo país. Na prática, sobram reclamações. Usuários relatam passar anos cadastrados em bancos de currículo on-line sem nunca receberem convites para entrevistas.

Graduada em recursos humanos, Fernanda da Silva, 30 anos, deixou de se iludir com os anúncios sedutores mostrados na tela do computador. Fora do mercado há um ano, mesmo com especialização em gestão de pessoas, ela se cansou de ter esperanças. Fernanda calcula ter se inscrito em mais de 40 bancos de cadastro. Jamais foi convocada para assumir uma vaga e não entende como existe tanta oferta, se ninguém a procura. “Sempre atualizo meu currículo, não deixo de preencher os dados solicitados... Parece que nada adianta. Bate muito desespero. Eu me candidatei até a cargos inferiores, mesmo assim não me chamam”, lamenta a profissional de RH, que começou a vender bolos e cupcakes para complementar a renda e ajudar os pais, ganhando R$ 200 por mês, em média, com as sobremesas.


Sobre a temática da reportagem, por e-mail, a Catho afirmou que “todos os anos, são realizadas, pelo menos, 200 mil contratações a partir de vagas publicadas em sua plataforma”. No entanto, a empresa não comentou as queixas relatas por usuários que não são convocados para entrevistas.

Deslizes

Apesar das reclamações de candidatos como Fernanda, responsáveis por contratações em empresas do DF ressaltam a importância dos bancos de currículo on-line. “É muito prático para o nosso lado. Quando a empresa me procura, quer um funcionário para o dia seguinte. Com os dados disponíveis, fica mais rápido encontrar alguém para preencher a vaga”, explica Franklin Oliveira, psicólogo e dono da Urbaniza RH, empresa de recrutamento de profissionais.


Se a ferramenta ajuda os dois lados envolvidos, por que tantas pessoas ficam anos sem receber propostas para assinar a carteira de trabalho? Consultores de RH atribuem grande parte da culpa aos próprios desempregados, por cometer erros que complicam a vida dos recrutadores. A principal falha ocorre no preenchimento dos dados. Quando a empresa recorre ao sistema, pesquisa por palavras-chave. Logo, para ser encontrado, o documento deve conter termos relacionados à vaga pretendida. Se a busca é por um posto de mecânico, “manutenção” e “oficina” são expressões que devem ser incluídas.

Essa pode ser a razão por que Diego Alves, 29, não recebe propostas. Estudante de engenharia civil, ele se candidata a vagas em qualquer área. Os dois últimos empregos, arranjados por indicação de amigos, foram como frentista de posto de gasolina e operador de telemarketing. “Se eu for procurar por alguém para o trabalho de recepcionista, por exemplo, o currículo do Diego não vai aparecer no sistema porque terá palavras relacionadas com engenharia”, explica Acsa Vasconcellos, consultora da Insight RH. Em tempos de crise, porém, é difícil colocar na cabeça do desempregado que ele deve buscar empregos apenas na área de formação. “Eu tenho que pagar as contas de casa, aceito tudo que aparecer, não me dou ao luxo de escolher local de trabalho”, desabafa Diego.


Na ânsia por um novo emprego, muitas vezes, as pessoas cadastram currículos para vagas sem o conhecimento necessário. A consultora de recrutamento da Perfil Humano RH Angélica Bertassi, diz ter recebido, na última segunda-feira, dados de 600 aspirantes a um emprego de especialista em tecnologia da informação. “Concorreram cozinheiros, advogados... É um tempo que eu perco para tirar quem não tem o perfil desejado”, analisa Angélica. Para essa vaga específica, ela selecionou apenas oito pessoas para entrevistas. Os sobreviventes no processo agradaram por atender à demanda de experiência na área; morar perto do empregador também foi um diferencial.

Saiba mais

Acesse os principais sites com bancos de currículo:

www.catho.com.br
Os primeiros sete dias são grátis. Os planos de assinatura variam de R$ 19,90 a R$ 79,90.

www.infojobs.com.br
Serviço gratuito. Usuários com conta premium (com mensalidade de R$ 49,90) têm vantagens.

www.manager.com.br
Serviço gratuito.

www.curriculum.com.br
O cadastramento é gratuito. Para ter acesso a mais benefícios, é preciso pagar mensalidades.

www.vagas.com.br
Todos os serviços são gratuitos.

www.sine.com.br
Os serviços oferecidos são gratuitos.

www.empregosembrasilia.com.br
Os profissionais podem divulgar ofertas de trabalho de forma gratuita.

vagasonline.elancers.net
O serviço oferecido é gratuito.

 

Erros de todos os lados
Por um lado, candidatos geram confusão ao atirarem para todos os lados e se candidatarem para vagas sem atender os pré-requisitos, por outro lado, empresas também podem deixam aspirantes confusos. Além das páginas on-line que funcionam como bancos de currículo terceirizados, muitas companhias têm a própria base de dados para armazenar perfis de candidatos. Basta clicar na tradicional aba “Trabalhe Conosco” dos sites corporativos. O problema ocorre quando as organizações permitem o envio dos dados para o cadastro interno, mas, quando anunciam vagas disponíveis, pedem para os candidatos entrarem em contato por um canal diferente, como outro site ou um e-mail antes não divulgado.


Lincon da Silva, 32 anos, técnico em segurança do trabalho, acordava todos os dias para enviar currículos para sites de empresas. “Chegava a mais de 50 por dia”, conta. No entanto, passou a questionar a utilidade da tarefa depois que as mesmas corporações, quando precisavam de funcionários, direcionavam o recebimento de currículos para um
e-mail diferente. “Isso confunde a cabeça e deixa os desempregados com esperança. Se existe o banco de dados interno, para que solicitar de novo as minhas informações? Não entendo o que se passa com os gestores de recursos humanos”, diz Lincon, indignado.

Profissionais de RH reconhecem a adoção da prática. “O banco da empresa tem muita coisa antiga. A pessoa manda e esquece, não atualiza. Para quem vai recrutar, fica mais fácil pedir para enviarem novos currículos”, explica Angélica Bertassi. “Usar o banco de dados interno é como escolher os melhores grãos de arroz, lavar, preparar… Dá muito mais trabalho, e não temos tempo para lidar com isso. Quando pedimos novos currículos, é como se fosse comida pronta, quentinha”, finaliza a consultora.


Para quem busca emprego, o anúncio de “Trabalhe Conosco” tem chances de ser apenas mais uma ilusão. No entanto, quando a carteira fica vazia, vale apelar para qualquer fiapo de esperança. Cássio Reis, 31, procura uma vaga que pague mais que os R$ 1,1 mil que ganha como estoquista de supermercado. Nos últimos três anos, ele se cadastrou em tantos sites de emprego que perdeu a conta de quantos, e nunca foi convocado para entrevistas. “Meus amigos pensam que é lorota, mas vai que um dia dá certo e minha vida muda. Acreditar ainda é de graça”, brinca.

publicidade

publicidade