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RECESSÃO »

Maré de medo

Crise assusta não só quem já perdeu a vaga. Funcionários temem pelo próprio posto e adotam postura mais proativa para atravessar o período. Para empregados e desempregados, a dica é manter o equilíbrio e se atualizar

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postado em 28/09/2015 10:20 / atualizado em 28/09/2015 10:47

Ana Paula Lisboa

A data de 11 de setembro ficou marcada para Manuel Farias da Silva, 25 anos. “Foi a primeira vez em que fui demitido”, revela o ex-funcionário de um hotel. Desde então, ele tem disparado currículos na busca por uma posição. “Nos cinco meses em que trabalhei lá, passei de copeiro a operador de caixa. O dono fechou a empresa e mandou todos os funcionários embora”, relata. A notícia, que não é desejada por ninguém, é ainda mais desanimadora num cenário de instabilidade, em que a taxa de desemprego só aumenta.


“Bate um desespero. Está difícil por causa dessa crise, não existe vaga sobrando”, lamenta. Para se manter, Manuel trabalha como barman freelancer num restaurante. “É um bico para segurar as pontas, enquanto não aparece um emprego”, revela o maranhense, que mora com um primo em Brasília desde 2009. O maior objetivo é conseguir um trabalho na mesma área, mas ele cogita um plano B. “Tenho licença para dirigir só moto, então estou tirando carteira de habilitação pensando em arrumar um serviço como motorista.”

 

Amanda Venicio

Casos como o de Manuel entram para as crescentes estatísticas de falta de emprego — problema social que é mais um dos componentes da avalanche de notícias ruins que se tornou a crise econômica. Sem muitos motivos para sorrir, o empresariado procura cortar despesas, e cada profissional teme pelo próprio emprego.


Não é à toa: nos últimos 12 meses, o mercado formou cortou 986 mil vagas de carteira assinada, segundo dados do Ministério do Trabalho. Apenas em agosto, foram 86.543 vagas eliminadas — a pior média para o mês desde 1995, quando houve redução de 117 mil empregos formais. Com 8,4 milhões de pessoas sem trabalho, a taxa de desemprego no segundo trimestre do ano foi de 8,3%, a maior desde 2012, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) começou a mensurar a taxa. Em agosto, o percentual ficou em 7,5% — o pior resultado para o mês desde 2009 — com 1,9 milhão de pessoas procurando emprego.


Carlos Vieira

O descontrole econômico e político afeta os lares brasileiros, em que o clima pode beirar ao desespero, tanto para quem está em busca de uma vaga quanto para quem ainda está trabalhando. Apesar da instabilidade, é preciso manter a calma. Professora do Institute of Business Education - Fundação Getulio Vargas (IBE-FGV), Patricia Pousa lembra que o nervosismo não ajuda ninguém a achar ou a se manter no emprego.

“De cara, o desânimo é inevitável. Tire uns dias para colocar a vida em ordem, refletir sobre os motivos que levaram à demissão — você pode até chegar à conclusão de que foi só por causa da crise mesmo, mas pode haver problemas na sua postura — e se equilibrar. Só então, vá procurar emprego”, ensina. “As pessoas estão apreensivas. Nas minhas aulas, chegam dois alunos por dia para dizer que foram demitidos. É preciso ficar alerta e aprender a navegar neste cenário de forma racional e equilibrada”, orienta a especialista em gestão de pessoas, liderança e qualidade na saúde.

 

Depois de um primeiro momento de desespero, o motorista Luís Cláudio Costa, 47 anos, pensa em planos alternativos. Ele trabalhava numa concessionária e foi demitido em 2 de setembro por conta de corte de gastos na empresa. “Agora estamos só com a renda da minha esposa, que trabalha como feirante há 12 anos. Esse sistema econômico tem que mudar logo. Todo mundo está com a sensação de que o ano que vem vai ser ainda pior.”


Para encontrar uma nova vaga, ele frequenta agências de emprego e dispara currículos. Com dificuldade para se recolocar no mesmo cargo, Luís Cláudio aponta para outras direções. “Na minha área, estão cortando vagas. Então, estou procurando por emprego em mecânica automotiva (já que fiz curso técnico no ramo em 2011). Enquanto não encontro emprego, arranjar algum bico seria legal”, diz.

Vagas abertas?


Com medo de não conseguirem uma posição equivalente, desempregados buscam opções em cargos mais baixos. A afirmação é endossada por pesquisa da Emprego Ligado, plataforma de recrutamento via geolocalização, que concluiu que a procura por vagas com salários mais baixos (valores inferiores a R$ 1 mil) cresceu 25% no primeiro semestre do ano com relação ao mesmo período do ano anterior.


Apesar das nuvens negras que enchem o trabalhador de preocupações, a professora Patricia Pousa dá, pelo menos, uma boa notícia para quem está à caça de uma nova oportunidade no mercado. “Está havendo muita demissão e reposição em cargos estratégicos, que concentram os maiores salários. Então, há vagas abertas para boas oportunidades, sim. O problema é que as empresas têm dificuldade para encontrar pessoas com a qualificação necessária.” Então, a hora é de estudar.


“Muita gente não pensa em se aperfeiçoar no período de crise porque enxerga isso como gasto, mas é preciso lembrar que há muitas oportunidades de graça na internet, inclusive curso de Harvard e da FGV. Para idiomas, o Duolinguo é uma opção gratuita.” Além de estar atualizado, é preciso se conectar com o mercado. “Networking não é só trocar cartão de visita. São relacionamentos que podem ser construídos em eventos e cursos. Num dos MBAs que fiz, minha turma tinha 30 pessoas, e pelo menos oito foram empregadas em empresas de colegas. A indicação ainda tem um poder muito forte na hora de ser selecionado para um emprego.”

Por uma nova colocação

Antes a fonte pingando do que a fonte seca isparar currículo para tudo em qualquer lugar não é o mais indicado, mas é melhor do que nada.

Alternativas de renda
Enquanto envia currículos, pense em formas de trabalhar como autônomo. Se tiver uma boa ideia, pode até virar um projeto definitivo de carreira

Currículo em dia
Esse é seu cartão de visitas, então erros de português, informações desatualizadas ou excesso de texto não são aceitáveis. Customize o currículo: para cada empresa, destaque as competências mais importantes para aquele lugar.

Corpo e mente presentes na entrevista
Em poucos minutos, o recrutador sabe se a pessoa tem consistência. Você precisa ter na ponta da língua conteúdos da sua área de trabalho e informações básicas sobre a empresa (é indispensável, pelo menos, visitar o site).

Sem alienação
O mercado muda o tempo todo, e é preciso estar atualizado. A postura de busca por conhecimento (estando a par das notícias de jornais e estudando) não pode ser apenas para arrumar emprego, deve ser uma meta de vida.

Fonte: Patricia Pousa

Repense sua postura

Sílvio Celestino, conselheiro da Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo (ABRH-SP), dá dicas para gestores e empregados sobre como agirem em meio à correnteza da recessão econômica sem deixar as emoções impactarem o trabalho

Lado do chefe
Crise não é motivo de falta de respeito! Se você precisa motivar as pessoas para que elas rendam mais, saiba que o universo empresarial não funciona como um jogo de vôlei: não adianta gritar como o Bernardinho. A recessão exige adaptação já que há muitos líderes que passaram por 15 anos de expansão econômica e não sabem lidar com a situação. Olhe as pessoas com empatia e generosidade, veja os funcionários como clientes internos.

Lado do funcionário
Não é só você que está em risco: empresas podem falir, e o governo está falido. Pense grande e procure contribuir para a companhia. Às vezes, a pessoa fica tão preocupada em manter o emprego que se retrai, por isso, não é vista como alguém que colabora. Seja capaz de compreender que seus líderes não são infalíveis, estão sob pressão e podem deixar escapar alguma vibração maior. Se o chefe for duro, não grite de volta, mantenha-se sereno e tente não piorar a situação. Não é agradável, mas todos precisamos aprender a lidar com pessoas emocionalmente instáveis.

 

Lado bom da crise

 

Ed Alves

A maré de recessão pesou para a empresária Rose Borella. Dona da butique de carnes Ready Beef há 12 anos, a nutricionista se viu forçada a cortar parte do quadro de funcionários e adotou estratégias para atrair clientes, já que a casa, localizada no Sudoeste, viu as mesas começarem a se esvaziar este ano. Ante os problemas, Rose acompanhou uma mudança de postura nos 30 empregados que restaram. “Hoje, valorizam mais o trabalho. Eles estão vendo o que está acontecendo por aí e passaram a tomar mais a iniciativa.”


Entre as novas propostas para atrair o público para o restaurante, estão brinquedoteca e apresentações culturais aos fins de semana e a opção de marmita na hora do almoço. As ações geram mais trabalho para a equipe, mas foram bem recebidas. “Não houve rejeições. Apesar de terem que trabalhar mais, eles apoiaram porque isso traz mais resultados para a empresa e para eles também”, conta Rose.


Há dois anos na empresa, o gerente Hamilton Oliveira, 42, admite que mudou a própria postura. “Está difícil achar emprego lá fora, então temos que nos adaptar. Revi conceitos ultrapassados e estou me dedicando mais.” O próximo passo é se atualizar: Hamilton quer fazer um curso na área de informatização. “Quando você aprende algo novo consegue trazer melhores resultados”, percebe.

Mudanças como a de Hamilton estão se tornando comuns. É o que percebe a professora da IBE-FGV Patricia Pousa. “Por um lado, as pessoas estão mais apreensivas, por outro lado, os colaboradores estão saindo da zona de conforto”, diz. “Você está fazendo o mínimo necessário ou o máximo possível? É uma reflexão que você deve fazer se quer continuar empregado ou arrumar um emprego”, pondera.


“Tanto grandes empresas, quanto pequenas estão mudando a forma de trabalhar. É hora de ser estrategista para a sua carreira. Se você está empregado, não fique parado: fique de olho no mercado, esteja com o LinkedIn atualizado, tenha planos B e C para caso aconteça algo inesperado.” Dentro da empresa, a postura, segundo Patricia, deve ser visando ao desenvolvimento da companhia. “Estude como melhorar os resultados, proponha ideias que tragam aumento de receita, comunique-se com a instância superior para saber como ajudar. Não seja uma pessoa cartesiana, mas sim, versátil. Esteja disponível para atividades diferenciadas. Também não dá para ser alguém que não cumpre prazos e metas”, indica.

 

Palavra de especialista

Estresse x Felicidade

 

 

Você pega um jornal e só vê crise, demissões, impostos. Então, se não tiver algo para contrabalançar, as pessoas vão se afundar mais no desespero e na desmotivação. O medo da crise gera mais crise. Enquanto as pessoas acreditarem que as coisas só vão piorar, vão se retrair cada vez mais. Neste momento em que só vem notícia ruim, muitos ficam apreensivos. Até quem a empresa não tinha a intenção de cortar procura outra posição e pede para sair por medo de ficar na rua. É importante que o gestor e a empresa busquem formas de levar um pouco mais de alegria para o colaborador, às vezes até a custo zero, por meio de um passeio, um dia da qualidade de vida, um clube de vantagens com empresas parceiras. Felicidade gera lucro. Um funcionário que passa um período se distraindo e se sente tranquilo produz mais.

Antônio Brigaton,
administrador, sócio-diretor da
Company Group e fundador do Lincard

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