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OPORTUNIDADES TEMPORÁRIAS »

Sem vendas, sem vagas

Quem quiser ganhar renda extra deve enfrentar concorrência maior este ano. Ainda assim, o posto sazonal é uma porta de entrada para o mercado de trabalho, e 20% dos contratados são efetivados

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postado em 04/10/2015 12:19 / atualizado em 04/10/2015 13:03

Ana Paula Lisboa

Cadê as vagas temporarias?

 

Ana Rayssa

Com um contingente de 219 mil pessoas sem trabalho — 7 mil a mais que no mês anterior —, a taxa de desemprego no Distrito Federal pulou de 13,6% em julho para 14,2% em agosto, segundo dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) da Secretaria do Trabalho. No período, 19 mil vagas foram cortadas na região. Não é à toa que muitos profissionais esperam encontrar num trabalho temporário de fim de ano uma chance de voltar ao mercado.

É o caso de Luana Cardoso, 22 anos, que trabalhou como vendedora e caixa numa loja de acessórios femininos em Taguatinga por 1 ano e meio e perdeu o emprego depois que o empreendimento fechou. Há mais de um ano, a estudante de psicologia tenta encontrar outra oportunidade.“Muitos dizem que não estão contratando por causa da crise”, relata ela, que já foi secretária e atendente de telemarketing.

Ana Rayssa

Com a chegada do fim do ano, Luana almeja uma oportunidade temporária no comércio. “Não estou nem programando viagem para trabalhar nessa época e contribuir para a renda da família. Tenho mandado currículos para vagas que encontro na internet ou por meio de agências de emprego. Apesar da crise, acredito que vou conseguir. Quero me dedicar para ser efetivada”, conta.

A chance de arranjar um emprego fixo depois desse tipo de experiência anima interessados: 20% dos convocados para atividades laborais de até três meses são contratados, segundo a Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem). Valdênia Fernandes, 32 anos, faz parte dessa estatística. Depois de procurar uma agência de trabalho temporário, ela foi convocada por um restaurante na Estrutural para uma curta temporada. No cargo de ajudante de cozinha, demonstrou empenho e conseguiu ser efetivada. “Eu me esforcei bastante e consegui uma vaga fixa”, explica.

Estudante de direito, Gabriela Morais, 21 anos, está interessada em um posto temporário para o período de férias. “Enquanto não arrumo estágio, seria uma boa oportunidade. Mas está difícil encontrar qualquer tipo de vaga com a crise”, diz. A jovem acredita que se daria melhor como caixa, já que trabalhou por dois meses na função em uma distribuidora.

Vacas magras
Apesar da grande procura por vagas sazonais, a temporada de vacas magras acarretada pela crise também se aplica a esses postos. Nove em cada 10 varejistas não pretendem contratar temporários no fim do ano por causa da falta de confiança na economia e da queda nas vendas. O levantamento com 1.168 empresas em cidades do interior e em capitais brasileiras foi feito pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

O enxugamento das vagas começou em 2014. O Sindicato do Comércio Varejista do Distrito Federal (Sindivarejista-DF) informa que, em 2013, abriu 5 mil postos temporários no comércio, e 20% dos trabalhadores foram efetivados; em 2014, 18% das 880 pessoas selecionadas para trabalhar no período conseguiram emprego fixo depois da experiência. Este ano, a movimentação nesse sentido é baixa, puxada pelo pessimismo da crise econômica.

“A situação está crítica”, declara Edson de Castro, presidente do Sindivarejista-DF. A cada ano, os estabelecimentos da capital federal eram responsáveis por 180 contratações de papais noéis, mamães noéis, noeletes e outros personagens natalinos. O recrutamento, por meio do sindicato, costumava ocorrer de agosto a setembro, bem como a busca por profissionais temporários para atender o aumento da demanda no comércio no fim do ano — contratações que tendem a se estender por 30, 60 ou 90 dias. No entanto, até o momento, a procura por esses candidatos não foi expressiva.


“Está tudo tão parado que não houve demanda”, revela Edson. “Nosso termômetro será o Dia das Crianças. Se tivermos alta movimentação em 12 de outubro, devemos ter boas vendas no Natal. A partir daí, o comércio deve se estruturar para alguma possível contratação.” O presidente do Sindivarejista-DF explica por que o enxugamento das vagas temporárias começou em 2014. “A Copa do Mundo foi um fiasco para o comércio. A expectativa era alta, mas os lojistas venderam quase nada, e isso se refletiu no fim do ano.”

Filomena Motta, supervisora da rede de lojas de moda feminina Barreds, concorda. “As coisas estão difíceis desde junho do ano passado: a Copa do Mundo foi terrível, época de eleição também é ruim para vender, e isso vem se estendendo. Viajo o Brasil todo trabalhando e vejo inúmeras lojas fechando nos shoppings. O comércio tem sofrido muito”, lamenta. Com a queda na movimentação do comércio, ela decidiu não aumentar o quadro de trabalhadores no período. “Sempre contratávamos mais gente para complementar a mão de obra para o fim do ano, mas o fluxo está pequeno e, agora, não vou contratar nenhum extra.” Para Filomena, o grande problema não está na recessão, mas na insegurança. “Não vejo essa crise toda de que tanto falam. As pessoas é que estão na retaguarda sem querer gastar.”

 

Caça aos bons velhinhos

 

Ana Rayssa

Carmem Arrata, proprietária da VCT Promoção e Eventos, com sede em Curitiba, fornece papais noéis, noeletes e outros profissionais para dois shoppings do Distrito Federal. Em 2014, a empresária atendeu 13 centros comerciais espalhados pelo país com uma equipe de 80 pessoas para temporadas que variaram de 30 a 54 dias. Ela acredita que a crise afeta o comércio, mas vê no Natal uma chance de atrair o público. “As pessoas continuarão indo ao shopping ver o Papai Noel e a decoração, mesmo que não comprem nada. É uma tradição. O desafio, este ano, é encantar um pouco mais”, aposta.


O trabalho como personagem natalino atrai muitos candidatos por dois fatores: é uma jornada de meio período com boa recompensa financeira. Segundo Wânia Cristina de Moraes, sócia-proprietária do Grupo Ciranda, que fornece esse tipo de profissional para cinco shoppings no Distrito Federal e no Entorno, para Papai Noel, a remuneração pela temporada é a partir de R$ 7 mil. No caso de noelete, os ganhos mínimos são de R$ 2 mil. “É uma boa quantia para uma temporada curta, com seis horas diárias. É uma chance para complementar a renda.” Wânia seleciona candidatos a partir do envio de currículos e até mesmo por meio de olheiros em locais de grande movimentação.


No entanto, só a aparência não basta. “O primeiro pré-requisito é gostar de criança, mas não adianta só gostar. É preciso ser uma pessoa tranquila para passar muitas horas sentada, não pode ter problema de saúde. A higiene também é fundamental.” Antes de partir para a prática, os candidatos passam por um treinamento e começam a cobrir folgas de papais noéis veteranos.
Quatro meses depois de se aposentar como funcionário público, Walter Lopes Silva, 66 anos, estreará como a figura lendária no Distrito Federal este ano. “Acho que sou o velho que mais gosta de criança. Sempre tive vontade de ser Papai Noel e me candidatei a uma vaga. Muita gente também falava que eu devia ser. Não gosto de viajar de avião, então resolvi trabalhar nesse período e ganhar um dinheirinho”, conta o avô de oito netos.


Papai Noel pelo terceiro ano consecutivo, Carlos Roberto Ferreira, 52, foi encontrado por acaso. “Eu estava no Taguatinga Shopping esperando meu filho; chegou um moço com prancheta na mão e me disse: ‘espero que o senhor não se ofenda, mas queria perguntar se tem interesse em trabalhar como Papai Noel’. Eu tinha deixado a barba crescer e topei”, lembra. O técnico em contas a pagar e formado em administração está desempregado, mas, agora, todo fim de ano consegue trazer uma boa quantia para casa. “Sempre me elogiam muito. Faço o melhor que posso porque eu gosto. É um dom. E eu adoro criança. Em casa, cuido dos meus quatro netos para meus filhos poderem trabalhar”, revela.

 

Palavra de especialista

Contexto das oportunidades

No geral, 70% das vagas temporárias são abertas no comércio, e 30%, na indústria. Espero uma redução de 20% a 30% nos postos abertos no fim do ano por conta da crise. A diminuição não é motivo para desistir. Basta insistir, ir a diversas agências de emprego e se esforçar. A pessoa tem que enxergar isso como porta de entrada para o mercado de trabalho, pois é uma oportunidade de se tornar efetivo, caso tenha bom desempenho.


É uma chance especialmente para quem busca o primeiro emprego, já que, normalmente, experiência não é pré-requisito. Muitos aposentados também procuram esses postos para ganhar um dinheiro extra, bem como jovens na idade do serviço militar, que têm dificuldade para conseguir trabalho. Também não adianta apenas conseguir a vaga; procure se especializar e estudar.


O período de contratação temporária é de até três meses, prorrogável por mais três meses. O profissional tem registro na carteira de trabalho, e o salário tem que ser o mesmo de um funcionário efetivo. Ele tem todos os direitos trabalhistas — como proteção previdenciária, hora extra, insalubridade —, com exceção da multa do Fundo de Garantia. Os empregadores também precisam enxergar o trabalhador temporário como plano emergencial para enfrentar a crise — mas faltam políticas públicas para modernizar a Lei nº 6.019/1974, que dispõe sobre o trabalho temporário.

Mara Bonafé, iretora regional da Associação rasileira do Trabalho Temporário (Asserttem) e gerente da filial de Brasília da empresa de ecrutamento Employer

 

 

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