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Sem descanso

Pesquisa aponta que mais de um terço dos trabalhadores não tiram férias há mais de um ano. Período de crise, insegurança e tendência a trocar de emprego em curtos períodos são os motivos mais comuns para adiar o repouso

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postado em 04/10/2015 13:03 / atualizado em 04/10/2015 13:05

Andre Violatti

Mais de um terço dos trabalhadores brasileiros afirmam não ter tirado férias nos últimos 12 meses, de acordo com a mais recente Pesquisa dos profissionais brasileiros da Catho — análise estatística anual acerca de contratação, demissão e carreira dos profissionais do país. Os resultados apontaram também que 7,6% dos profissionais tiraram somente uma semana de descanso e que 15,2% e 14,3% deles tiveram, respectivamente, três e duas semanas desfrutadas. Apenas 26% dos trabalhadores aproveitaram o período completo de repouso.


De acordo com a pesquisa, a média nacional seria de 2,4 semanas de férias por ano, tanto para homens quanto para mulheres. Em relação ao porte, os funcionários das maiores companhias recebem mais tempo livre do que a média nacional: 3,1 semanas desfrutadas em 12 meses. Nas organizações de médio porte, a folga gira em torno de 2,5 semanas, enquanto nas pequenas e microempresas a quantidade é de 1,9 e 1,4 semana, respectivamente. O levantamento contou com 26.459 respondentes de todo o Brasil. Do total, 65% estão empregados, e 35,9% deles são funcionários de grandes empresas (com mais de 500 funcionários).

 

Escolha pessoal
Murilo Caveleucci, coordenador da pesquisa, diagnostica três principais motivos que explicariam o quadro. “Um deles é a crise, já que muitas empresas desligaram profissionais, e a carga de trabalho acabou ficando mais concentrada em poucos empregados; o acúmulo de tarefas faz com que esse profissional atrase as férias. Outro motivo pode ser reflexo de alguma insegurança, medo de sair de férias e, ao retornar, perder o emprego. O terceiro elemento é reflexo do comportamento natural do trabalhador brasileiro de mudar de emprego com alguma frequência, para ampliar o conhecimento”, afirma.
Graduada em relações internacionais, Isadora Schetinger, 21 anos, está há um ano e sete meses sem férias, sempre por mudar de emprego antes de atingir o período aquisitivo. “Quis aproveitar ao máximo o tempo para ganhar experiência, buscando sempre mudar de área para tentar aprender coisas diferentes, e essa experiência pareceu mais importante do que tirar férias”, diz.

O preço a pagar
O publicitário Washington Luís Júnior, 25, está há três anos sem tirar férias completas. “O maior motivo é a alta rotatividade de empregos. Entrei em um fluxo sucessivo de trocar de empregos por vagas melhores em menos de um ano”, relatou. Em julho, ele saiu por 10 dias, já que a empresa contratante pediu que ele dividisse o período de descanso para não interromper o trabalho. “Agora que tenho férias completas para tirar, não posso, pois sou o único da minha área na empresa.”
Kelen Pompermaier Kaertesz, psicóloga com MBA em gestão estratégica de pessoas, avalia que a falta de férias se traduz em menor produtividade, já que o cansaço físico pode levar a um desgaste emocional, quando não há renovação de energias nem de pensamentos. “O profissional que não aproveita o período de descanso está sujeito a um processo até patológico de estresse e produz menos. Enquanto consultora de carreira, indico a empresários, empreendedores e profissionais na gestão de pessoas o acordo de folga de, no mínimo, 20 dias. As férias estão relacionadas ao lazer, que gera renovação, e o profissional retorna com um novo processo de ideias depois do período”, explica.

 

PALAVRA DE ESPECIALISTA

» Questão jurídica


As empresas têm de conceder férias no período de 12 meses após o empregado ter garantido o direito a elas; se isso não ocorrer, as férias devem ser pagas em dobro. Não há acordo que permita modificar isso. É importante esclarecer que é o empregador — e não o empregado — que escolhe o momento das férias. Além disso, um terço delas, ou 10 dias, pode ser vendido. O restante deve ser pago em até dois dias antes da fruição e, se houver atraso no pagamento, o empregador terá que dispender o dobro. Se a empresa negar férias e passar o período concessivo delas, o empregado poderá pleiteá-las em dobro e, dependendo da situação, entrar até com uma ação de rescisão indireta. A companhia pode demitir o empregado sem justa causa, mas terá que pagar as férias.

Alexandre Giancoli, sócio de Giancoli, Oliveira e Chamlian Advogados Associados

 

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