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CIÊNCIA

Pesquisadores ganham Nobel por trabalho contra infecções parasitárias

Para professores de instituto sueco responsável por eleger os laureados anualmente, contribuição dos pesquisadores - uma chinesa, um japonês e um irlandês - para a espécia humana é imensurável

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postado em 05/10/2015 19:19 / atualizado em 05/10/2015 19:41

Ana Paula Lisboa

“As descobertas dos três ganhadores do Prêmio Nobel de medicina representam uma mudança de paradigma que promovem o bem-estar da sociedade. Os benefícios à humanidade são imensuráveis.” Assim anunciou o resultado da premiação secular o professor Urban Lendahl, secretário-geral e porta-voz do Karolinska Institutet, localizado em Estocolmo e responsável pela definição dos homenageados pela condecoração estabelecida pelo químico e engenheiro sueco Alfred Nobel em 1901.

Os eleitos em medicina e fisiologia em 2015 são a chinesa Youyou Tu, 84 anos, o irlandês William C. Campbell, também de 84 anos, e o japonês Satoshi Omura, 80 anos. Eles receberão o prêmio em 10 de dezembro, aniversário da morte do inventor da dinamite. Juntos, levarão para casa 8 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 3,6 milhões). Metade do valor ficará com Youyou Tu; Campbell e Omura receberão 1/4 cada.

Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press
Eles foram laureados graças a trabalhos desenvolvidos contra doenças parasitárias. Youyou Tu foi escolhida por descobertas no combate à malária, enquanto Campbell e Omura são homenageados por uma nova terapia de tratamento de males causados por vermes. Para a presidente da assembleia responsável por eleger os ganhadores, professora Juleen Zierath, a significante contribuição dos escolhidos se justifica pelo fato de enfermidades parasitárias flagelarem a população mundial desde tempos remotos - hoje em dia, afetam, principalmente países em desenvolvimento -, por isso, tratamentos nesse sentido melhoram a vida, o bem-estar e o crescimento econômico.

Os tratamentos dos três laureados são baseados em bactérias e plantas. O microbiologista japonês Satoshi Omura é expert em isolar elementos da natureza. Ele trabalhou com o grupo de bactérias encontradas no solo Streptomyces - incluindo a que foi descoberta pelo ganhador do Prêmio Nobel de 1952, Selman Waksman, denominada Streptomycin -, que produz um conjunto de agentes com propriedades antibacterianas. O pesquisador isolou novas cepas desse grupo de micro-organismos e as reproduziu em larga escala em laboratório usando métodos únicos.

Posteriormente, separou 50 das mais promissoras para serem analisadas em atividade contra bactérias causadoras de doenças. Uma das culturas de bactéria, posteriormente, foi usada na fonte da Avermectina, largamente usada contra parasitas em animais, especialmente bovinos.


O irlandês William Campbell, especialista em biologia parasitária que vive nos Estados Unidos, usou as culturas de Streptomyces de Satoshi Omura e demonstrou que um dos componentes era fortemente eficiente contra parasitas. O agente foi modificado e é chamado de Ivermectina, que se mostrou eficiente contra infecções parasitárias em humanos, incluindo oncocercose - também chamada de cegueira dos rios ou de mal dos garimpeiros -, que infesta os olhos, e a elefantíase.

Já a farmacologista chinesa Youyou Tu se dedicou a erradicar a malária numa época em que os esforços com essa finalidade pareciam em vão. Na década de 1960, ela se voltou para a medicina tradiocinal baseada em ervas. De um grande escopo de plantas, ela percebeu na Artemisia annua (do mesmo gênero da planta de que é feito o absinto) uma chance de tratamento e retirou da medicina tradicional ideias para extrair o componente ativo da erva. As pesquisas não foram em vão, e a espécie se mostrou fortemente eficaz contra a malária e representa uma nova classe de agentes que matam o parasita causador rapidamente.

As descobertas dos três cientistas estão presentes em medicamentos usados em todo o mundo e, ainda hoje, se mostram necessários, já que a malária infecta 200 milhões de pessoas por ano, e a elefantíase e a oncocercose afetam milhões de pessoas em países pobres. Na conclusão do júri, os ganhadores do Nobel de medicina de 2015 são responsáveis por salvar vidas ao revolucionar tratamentos contra parasitas devastadores.

Tradição milenar x ciência?

O fato de Youyou Tu não ser reconhecida pela Academia Científica da China e pesquisar medicina milenar pode gerar controvérsia já que se trata de um prêmio para a ciência. No entanto, Hans Forssberg, professor de neurociência no Karolinska Institutet, observa que “não se pode negligenciar experiências milenares”, mas alerta que o Prêmio Nobel não foi concedido à antiga medicina chinesa, mas sim a uma cientista que desenvolveu um tratamento inspirada pela tradição.


Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press
Em entrevista ao Correio, Maria G. Masucci, professora de virologia do Karolinska Institutet e uma dos 50 membros da assembleia responsável pela escolha dos ganhadores do Prêmio Nobel de medicina, complementa: “é muito importante ressaltar que o prêmio não é para a tradição, é para ciência, mas os cientistas podem e devem usar o que a natureza nos dá, inclusive a partir de conhecimentos tradicionais”. Sobre a Youyou Tu - a 12ª mulher a ganhar a condecoração -, a docente avalia como uma conquista, já que considera mais difícil uma pesquisadora receber o prêmio. Maria Masucci informa que a seleção é extremamente criteriosa. “Recebemos pelo menos 500 nomeações todos os anos de cientistas de todo o mundo, e analisamos uma por uma. É um grande trabalho fazer isso anualmente”, admite.


Italiana, Maria Masucci explica que o Karolinska Institutet - que tem 6 mil estudantes e 500 funcionários, incluindo professores de 22 departamentos - é responsável pela escolha do Prêmio Nobel de medicina por ter foco científico desde sua criação. “No contexto europeu, o Karolinska Institutet é jovem: foi criado em 1810. Não nasceu como uma faculdade. A Suécia estava em guerra contra a Rússia, então a realeza decretou o estabelecimento de um colegiado de cirurgiões”, conta. “Na época, havia a discussão sober se as doenças seriam causadas por corpos estranhos ou por nossos pecados, e os fundadores desse colegiado (o químico Jons Jacob Berzelius e o anatomista Anders Retius) introduziram os métodos científicos para o estudo da medicina”, detalha.

Brasileirinho na Suécia

Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press
Com cerca de 30% de alunos estrangeiros, o Karolinska Institutet tem aberto as portas também para brasileiros. Este ano, há 16 bolsistas do Ciências sem Fronteiras (CsF) na instituição. No geral, são estudantes de graduação que cursam matérias de mestrado, já que são administradas em inglês. Matheus Barbosa, 20 anos, faz parte desse grupo. Originalmente, ele cursa medicina na Universidade de Brasília (UnB) e está na Suécia há um mês. “Escolhi o Karolinska por ser referência em medicina, mas não sabia que eles escolhiam o ganhador do Nobel. Foi uma surpresa”, revelou o jovem que faz matérias sobre saúde pública na instituição. “A troca de conhecimentos com estudantes de todo o mundo é muito rica, e há muita discussão em sala de aula. Estou gostando bastante daqui. Voltarei para casa com conhecimentos sobre sistemas de saúde de todo o mundo e não só sobre o da Suécia”, revelou o ex-aluno do Colégio Militar de Brasília (CMB).

*A jornalista viajou a convite do Swedish Institute

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