CLIMA ORGANIZACIONAL

Sabotagem no trabalho

Em ambientes competitivos, um simples elogio do chefe pode levar ao boicote entre os funcionários. Veja como agir quando um colega te prejudica de propósito. A situação pode virar processo judicial

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 19/10/2015 11:27

Edy Amaro/Esp. CB/D.A Press

 

Em 2010, o personal trainer Allan Lucena trabalhava em uma academia onde o coordenador indicava apenas alguns instrutores favoritos para os clientes. Mesmo assim, ele conseguia conquistar pupilos por meio de indicações boca a boca, o que incomodava o superior. “Um dia, fui chamado para conversar e recebi um veto. Ele me disse que seria responsável por garantir que eu não fosse procurado por mais nenhum aluno”, relata. O personal trainer pediu demissão. “Eu não queria viver um conflito, nem ser prejudicado. Preferi arriscar em outro lugar onde teria meu trabalho reconhecido”, conta.
A sabotagem ocorre quando algum colega ou superior age para prejudicar seu desempenho. “Quase sempre esse comportamento é motivado pela insegurança do profissional que se compara ao outro. O motivo vai de um simples elogio à ascensão da carreira. Ele se percebe injustiçado”, define a psicóloga do trabalho Janice Pereira. O coach profissional Flávio Resende elenca um ambiente excessivamente competitivo, dificuldade de trabalhar em grupo, inveja e desmotivação como alguns dos fatores que podem levar à sabotagem. De acordo com o coach profissional, o funcionário que se sente sabotado deve conversar com o colega. “Não espere a situação chegar a um nível de desgaste, quando a pessoa começa a tratar você mal, a cortar a comunicação por completo ou a olhar para você com cara fechada”, afirma.
Na hora da conversa, o ideal é descrever o comportamento do colega de forma objetiva e detalhada. “Não é bom usar adjetivos e palavras com tom pejorativo”, aconselha Janice. Em vez dizer que a pessoa está te sabotando, seja específico, diga, por exemplo: “Envio um documento com uma determinada informação e, quando ele passa por você, aparece com outra. Isso está me deixando preocupado”. Caso o sabotador negue a situação e continue agindo da mesma forma, ambos especialistas recomendam procurar o superior diretamente ou o departamento de recursos humanos.
“Várias vezes, chamei a diretora para ter uma conversa, mas ela nunca queria, nunca tinha tempo e se mostrou indisposta a resolver o problema”, relata a publicitária Fernanda*, 59 anos, que prefere não se identificar. Uma semana após ser contratada como gerente de marketing em uma empresa, uma nova diretora-executiva assumiu o cargo. “Ela não me deixava fazer nada. Eu não participava de nenhuma reunião, porque não era chamada. Ela me dizia que a função da gerente era ficar à disposição da diretora”, relata.
Sem permissão para visitar clientes ou passar seu e-mail para contato, Fernanda cumpria o expediente fazendo ligações para confirmar se pessoas haviam recebido e-mails enviados pela diretora. “Eu me sentia humilhada”, afirma. A publicitária acredita a diretora a excluía porque não queria dividir a comissão do fechamento de contratos. Fernada pediu ajuda para a diretoria e para o presidente da empresa, mas nada foi feito. Depois de sete meses trabalhando no local, ela pediu demissão. Pouco depois, a diretora foi demitida. Agora, a publicitária pretende entrar com um processo contra a empresa e a ex-superiora por assédio moral.

Caso de justiça
Se houver provas, a sabotagem pode virar processo judicial. Quando o sabotador é o chefe, é possível entrar com uma ação por assédio ou dano moral na justiça do trabalho. “O assédio moral tem que ser uma ação ou uma omissão regular, corriqueira. Um ato específico entra como dano moral”, diferencia Marcone Guimarães, presidente da Comissão de Direito do Trabalho da Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal (OAB/DF). Se o sabotador é um colega, mas a empresa foi comunicada sobre o assunto e não fez nada, o empregado também pode processá-la por danos morais. “A parte mais difícil é provar. O profissional precisa de testemunhas, e muitas delas não querem prestar depoimento porque podem ser demitidas”, afirma a advogada trabalhista Francisca Chagas.

Melhor prevenir
Como uma empresa pode evitar a sabotagem no ambiente de trabalho? “No primeiro momento, a organização deve elaborar um código de ética, que estimule outros valores – como o respeito mútuo – além da competição e da busca por resultados”, afirma a psicóloga do trabalho Janice Pereira. Em seguida, o líder da empresa deve estabelecer práticas que integrem os setores, como dinâmicas em grupo ou discutir casos internos e ações positivas durante reuniões de trabalho. Segundo a psicóloga, se a sabotagem já ocorreu, o superior deve apurar informações, reunir os envolvidos e mediar o conflito para esclarecer os dois lados. De acordo com o grau da situação, o sabotador deve ser desligado da empresa.

Não são eles, é você
O coach profissional Flávio Resende alerta que se a sabotagem se repete ao longo da sua vida profissional, é possível que você esteja provocando essa situação. “Pode ser que a atitude do profissional favoreça esse tipo de comportamento, principalmente quando ele passa por várias organizações. Aí não tem a desculpa de que é o clima da empresa”, afirma. Resende cita o exemplo de um profissional da iniciativa privada que, ao migrar para o serviço público, foi mal recebido pelos colegas. “Não havia espaço para as coisas que ele fazia achando que estava sendo proativo. Para aquele grupo de pessoas, ser proativo era fazer seu papel, não puxar a responsabilidade para si. Ele passou a ser visto como uma pessoa extremamente competitiva, que não respeita o espaço do outro”, relata.

* Nome fictício


Estou sendo sabotado, e agora?


A psicóloga do trabalho Janice Pereira explica como agir nessa situação
1. Comunique pessoalmente para o colega, de forma direta, autocontrolada e não agressiva, sua percepção da situação, incluindo como você se sente.
2. Caso o comportamento se repita, registre o ocorrido para comprovar que o funcionário age daquela forma.
3. Comunique seu superior imediato, principalmente se o colega negar a situação.
4. Caso o chefe não entre em ação e se não houver consequências para o funcionário, entre em contato com o setor de recursos humanos da empresa.
5. Se a sabotagem ocorrer repetidamente e resultar em prejuízo a sua imagem, discriminação, humilhação ou adulteração do seu trabalho, você pode procurar um advogado e entrar com uma ação na Justiça.