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RECONHECIMENTO »

Os mestres das festas

A profissão de cerimonialista existe, informalmente, desde a era colonial e é responsável pela organização de eventos dos mais diversos tipos. Mesmo assim, ainda não há leis que regulamentem o ofício, e existem poucos cursos sobre o ramo

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postado em 08/11/2015 14:58 / atualizado em 14/11/2015 18:32

Laura Tizzo /Especial para o Correio

Antonio Cunha

Em 26 de abril de 1500, era realizada a primeira missa em território brasileiro. O escrivão Pero Vaz de Caminha, em carta enviada ao rei de Portugal, conta que cerca de 200 índios assistiram à oratória do frei Henrique. Pela pintura de Victor Meirelles, que narra a missa em imagem, é possível perceber uma disposição intencional do público: o clérigo à frente, oferendas expostas e os nativos assistindo ao redor.

Na visão de especialistas, esse foi o primeiro cerimonial (aplicação de protocolo, ritos e disposição do público) realizado no Brasil. Houve logística e organização”, explica Yvone de Souza Almeida, 63 anos, presidente do Comitê Nacional do Cerimonial Público (CNCP). Cerimonialista é o profissional responsável pelo cumprimento das normas protocolares em eventos. É ele, portanto, quem planeja, organiza e executa o ritual.

Décadas se passaram desde o lançamento do decreto que estabelece as normas do cerimonial público (nº 70.274/1972) e, somente em 2015, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) passou a incluir oficialmente a atividade de cerimonialista na classificação brasileira de ocupações. O Projeto de Lei nº 5.425/2009, do deputado federal Arnaldo Faria de Sá (PTB/SP) dispõe sobre a regulamentação da profissão de cerimonialista. Depois de tramitar por várias comissões dentro do Congresso, o projeto foi desarquivado em 2015 pela mesa diretora da Câmara e, em julho, voltou à Comissão de Finanças e Tributação (CFT).

A falta de regulamentação e reconhecimento desestimula a existência de cursos de graduação na área — em Brasília, por exemplo, o Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) parou de oferecer formação no ramo.

Em outubro do ano passado, o cerimonialista Francisco Coelho Bezerra não só abandonou os noivos Roberta Souza e Ralpho Guimarães no altar, como também deixou a festa sem DJ, luz e palco, causando prejuízo de R$ 10 mil ao casal. Casos como esses desvalorizam a profissão. A percepção é de quem lida diariamente com clientes.

“É preciso que as pessoas entrem nesse mercado se qualificando, porque o trabalho ruim deles atrapalha o nosso e acaba levando a generalizações. Tem noiva que até questiona se eu vou realmente estar no dia do casamento por conta de todos esses escândalos no DF”, lamenta Dhambia Sousa, 30, proprietária de empresa de mesmo nome.

O cerimonialista Tulio Henrique Lima, 49, sócio da TJC Promotora de Eventos com a esposa, Juliana Santos Lucas, 45, partilha da mesma opinião. “Deveria haver um ponto de partida para todos os profissionais. Um advogado tem que passar por um curso e por uma prova. Para ser cerimonial, você só tem que ter tempo, um carro, um celular e uma caneta. Falta profissionalização”, defende Tulio. Juliana passou por cursos de para eventos em São Paulo, Madri e aris. Segundo ela, a opção pelo conhecimento teórico no exterior foi motivada pela necessidade de entender culturas diferentes. “Os nossos casamentos são macro, e os dele, micro. Eles prezam muito pela qualidade para um público menor.”

Exigência própria
A organizadora de eventos e cerimonialista Lyana Azevedo, 35 anos, começou a atuar na área há 21, quando a mãe abriu uma empresa de decoração de festas. Formada em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), ela sentiu necessidade de unir o conhecimento técnico ao prático, mudou-se para Londres e iniciou o mestrado em administração de eventos na universidade de Bournemouth em 2011. “Tem várias questões que a gente aprende num ambiente multicultural. Um muçulmano não come porco, um indiano não come vaca; então, se você vai fazer um evento com essas culturas, precisa ter pratos alternativos.”

A professora Paula Lima Lucatto, 31, concluiu o curso de tecnologia em eventos — uma das poucas graduações que formam cerimonialistas — na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, em 2005, se especializou em eventos sociais e retornou à universidade em 2013 para lecionar. Paula só procurou o mercado de trabalho como cerimonialista após concluir a graduação. “Gostaria que todo mundo fizesse isso também”, diz. Paula também explica como funciona a graduação na área. “Na faculdade, o aluno pode aprender definições, conhecer temas específicos. Também é uma grande oportunidade para falar sobre ética. Se as pessoas começarem a entender a necessidade dessa especialização, a gente vai ter um mercado mais tranquilo pra trabalhar.”

Estude

IFB

O Instituto Federal de Brasília oferece, no câmpus Asa Norte, curso técnico gratuito em eventos, com duração de um ano e meio, nos turnos matutino e noturno. Informações: www.ifb.edu.br.

Fora do DF
Anhembi Morumbi

A graduação em tecnologia em eventos da Anhembi Morumbi, em São Paulo, dura dois anos e pode ser presencial (mensalidade de R$ 674) ou on-line (R$ 418). Informações: portal.anhembi.br.

Dia do Cerimonialista

Para celebrar, 104 empresas de cerimonial do DF se reuniram no Centro de Convenções Israel Pinheiro.

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