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GERAÇÕES Y E Z »

As incertezas do mercado

Segundo pesquisa, quase 90% dos jovens sentem-se inseguros no contexto profissional. Poucas vagas e momento instável são os principais vilões apontados pelos que buscam oportunidades de emprego e estágio

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postado em 15/11/2015 15:05 / atualizado em 15/11/2015 15:17

Paula Braga /Especial para o Correio

Marcelo Ferreira

Apesar de terem crescido cercados por tecnologia e carregarem características importantes para empregadores, como senso de coletividade e preocupação com a sustentabilidade, os novos trabalhadores — que estão deixando as salas de aula de escolas e faculdades para começar a vida profissional — não se sentem tão seguros no mercado.

Segundo pesquisa realizada pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), a maioria das pessoas entre 15 e 26 anos, que pertencem às gerações Y e Z , considera difícil a tarefa de alcançar e permanecer em um emprego. Para quase metade dos entrevistados, os motivos são a baixa oferta de vagas e a concorrência muito qualificada de profissionais que acumulam mais experiência na área. Ainda segundo a pesquisa, 43,7% dos entrevistados consideram o momento econômico incerto para quem quer começar a trabalhar, porque há “muito desemprego e insegurança sobre o futuro”.

A queda no número de postos afeta até mesmo aqueles que ainda não concluíram o ensino médio ou superior: enquanto em 2014 foram abertas quase 70 mil vagas de estágios no país, no segundo semestre deste ano a oferta caiu 7,9%, segundo dados da Associação Brasileira de Estágios (Abres). “A exigência dos empregadores é alta, mesmo para tarefas atribuídas a quem está iniciando em determinada área. Um conhecimento específico ou um curso a mais faz diferença”, destaca a analista de treinamento do Nube Rafaela Gonçalves.

Ana Carolina Rezek, 18 anos, vê com preocupação a inserção no mercado de trabalho e, por conta disso, apostou em iniciar um estágio ainda no ensino médio para melhorar o currículo e facilitar a busca pelo primeiro emprego. Desde janeiro, ela é responsável por atividades administrativas auxiliares no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). “Acho que será importante ter algo no currículo quando terminar o ensino médio. Qualquer experiência vale”, percebe. “Até para conseguir um estágio é difícil. Precisei correr atrás, estudar. Fiquei de olho nas oportunidades. Não existem tantas vagas assim”, descreve.

Muita oferta?
Aqueles que acreditam que o mercado de trabalho está estável ou ótimo, segundo a pesquisa do Nube, são minoria. Apesar de a maior parte acreditar que o momento é desfavorável para buscar um emprego, o especialista em marketing e comportamento jovem e mestre em administração de empresas Alfredo Motta destaca que, para aqueles que estão concluindo o ensino superior, há ampla oferta de postos.

“Atualmente, 75% da força mundial de trabalho é composta por pessoas de 20 a 34 anos. Elas são uma realidade no campo profissional. Se olharmos de perto a situação, as empresas enfrentam dificuldades para preencher os cargos por falta de pessoas qualificadas. Para quem está saindo do ensino superior, a oferta é ampla. Quem sofre para conseguir emprego, basicamente, integra o grupo dos menos educados, que moram em regiões com menor desenvolvimento econômico”, destaca o especialista.

Segundo ele, a percepção de que alcançar o primeiro emprego é uma tarefa que beira a impossível pode ser resultado de uma visão idealizada — característica dessas gerações. “Eles esperam conciliar com o trabalho algo que traga benefício social e agregue qualidade de vida a uma paixão. Com uma expectativa desse tamanho, podemos considerar que a percepção de mercado deles é romântica, idealizada”, afirma Motta.

Os jovens no mercado
A geração Y é composta pelos nascidos entre 1981 e 1994. Parte dessas pessoas está no mercado, e os mais novos (que chegam agora aos 21 anos) estão prestes a concluir a graduação. São idealizadores, românticos e expressam preocupação com o coletivo, a qualidade de vida e a sustentabilidade. Já a geração Z é formada pelos nascidos entre 1995 e 2009. Os mais velhos estão completando 20 anos, e a maioria ainda não está inserida no mercado de trabalho. São donos de um senso crítico superior ao de gerações passadas por conta do acesso quase ilimitado ao conhecimento por meio da internet e estão dispostos ao debate e à expressão das próprias ideias.

 

Como conseguir a primeira vaga


No momento de buscar um emprego, alguns fatores podem fazer diferença, seja na apresentação do currículo, seja na entrevista. Confira dicas da diretora de recursos humanos do Grupo Spot Caroline Borges para conquistar o tão sonhado primeiro emprego:

» Em um processo seletivo em que você não tem experiências anteriores, como para um cargo de estágio, por exemplo, tente transformar vivências em fatores positivos. Incluir um trabalho voluntário que você fez na igreja ou um intercâmbio pode ser um diferencial. Se você participa de alguma iniciativa empreendedora, escreve um blog ou faz alguma atividade extra, também pode se destacar junto ao entrevistador.

» No momento da entrevista, o avaliador deseja que você desdobre aquelas características que escreveu no currículo. Fazer um exercício antes da entrevista, lembrando as próprias vivências, pode ajudar a garantir um bom desempenho e sentir-se menos inseguro. Conte também situações desfavoráveis nas quais você conseguiu se sair bem. Mostre ao entrevistador o que você poderá agregar ao projeto dele.

» Esteja atento à divulgação das vagas. Existem sites que reúnem oportunidades e que você pode acompanhar, assim como grupos nas redes sociais. Não esqueça também de alimentar sua rede de contatos. Colegas de curso ou pessoas com quem você trabalhou podem te indicar para oportunidades.

» Mostre ao recrutador que você tem vontade de aprender. Normalmente, quem está buscando um primeiro emprego tem bastante teoria, mas ainda pouca prática. Uma vez que você ingressou na empresa, é importante estar aberto para receber o feedback e estar preparado para colocar a mão na massa. Desenvolver boa comunicação e trabalhar bem em equipe também     são características que colocam um funcionário em situação de destaque.

 

O medo do desemprego 

 

Ana Rayssa

Não conseguir uma ocupação é um dos fatores que preocupam os jovens dessas duas gerações. Eles parecem ter motivos para temer: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego nacional foi de 8,7% entre junho e agosto deste ano. Além disso, a expectativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de acordo com dados divulgados no segundo semestre de 2015, é de que a quantidade de pessoas entre 15 e 24 anos sem uma colocação profissional, ainda em 2015, chegue a 15,5% do total no país.

Após concluir a graduação em enfermagem em julho, Ícaro Oliveira, 25 anos, passou a integrar o grupo daqueles que enfrentam dificuldades para alcançar o primeiro emprego. “Antes de terminar o curso, comecei a enviar currículos para diversos locais, mas não tive retorno. Meus colegas também estão na mesma situação, partindo para outras áreas. Enquanto não consigo uma vaga, tenho feito bicos como dançarino para garantir alguma renda”, conta. Para ele, a experiência exigida pelas empresas é um problema na hora de entrevistas de emprego. “A maioria quer um profissional que tenha trabalhado na área. Para recém-formados, as oportunidades são poucas”, conta ele que aguarda a publicação de edital de concurso da Secretaria da Saúde para tentar uma chance na área pública.

Para a consultora de carreiras e empresas Regina Nogueira, além da alta exigência em relação à qualificação, as novas gerações enfrentam mais dois problemas ao buscarem a colocação profissional: o modelo de trabalho que vigora em empresas formadas por pessoas mais velhas e a pouca abertura a mudanças nesses ambientes. “O que percebo é que os indivíduos dessa faixa etária têm muita dificuldade em lidar com o chefe. O que eles querem é um líder, alguém em quem possam se inspirar. A geração mais velha não está acostumada com essa ousadia. A mudança precisa ocorrer dos dois lados. As empresas precisam se atualizar, e esses jovens precisam entender as demandas do mercado”, opina a especialista.

Para estar preparado

Projovem Trabalhador

Oferecido em parceria entre o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e o Governo do Distrito Federal, o programa visa a capacitação de pessoas de 18 a 29 anos e de baixa renda. A previsão é de que sejam oferecidas 800 vagas para o primeiro semestre de 2016. As inscrições podem ser realizadas pelo telefone 156.

 

Os jovens falam 

 

 

Keulle Mayara Barros,
16 anos, estudante do 1º ano do ensino médio

“Estou em busca de um estágio de nível médio porque acho que será importante ter uma experiência quando for procurar uma vaga efetiva. Mas não está fácil encontrar estágio. Procurei outras vezes e não achei nenhuma vaga. Por conta da crise que o país tem enfrentado, está mais difícil. Não estou focando em uma área específica, topo o que aparecer.”

 

 

Pedro Victor Monteiro,
19 anos, estudante de engenharia mecatrônica
“Os estudantes que acabam de sair da universidade têm algo a menos, estão em desvantagem no mercado por conta da falta de experiência. A maioria tem uma base teórica muito boa, mas, quando o recrutador pede a prática, ficamos devendo. Acho que essa é a principal dificuldade que enfrentaremos.”

 

 

Natasha Furquim,
24 anos, publicitária
“Acabo de sair da universidade e a percepção que tenho é de que o mercado não está buscando somente experiência, mas jovens que tenham iniciativa, características de liderança. As vivências também são importantes, como ter feito um intercâmbio. Acho que ainda falta um pouco de iniciativa desta geração de buscar outras experiências que podem contribuir para alcançar um primeiro emprego.”

 

 

Francisco Cleuton do Nascimento,
26 anos, estudante de curso técnico em eletroeletrônica
“O mercado é muito concorrido. Se a pessoa não se especializar e chegar numa entrevista de emprego com as mãos abanando, com certeza, ficará em desvantagem. É importante ter um diferencial, ter feito estágio. É uma experiência que a pessoa adquire não somente profissionalmente, mas também para a vida.”

 

PARA LER

 

 

O dono da história
Autora: Carla Weisz
Editora: Évora
260 páginas; R$ 39,90
De família simples, Milton decide, aos 20 anos e a contragosto dos pais, tentar a vida na cidade grande. O livro traz lições sobre liderança, cultura organizacional e protagonismo — tanto para iniciantes quanto para os que têm experiência profissional.
 

 

 

 

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