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HOMOFOBIA »

Discriminação no trabalho

Seja por meio de comentários ou atitudes negativas, o preconceito desanima o profissional e impede que ele crie vínculos com os colegas e a empresa. Resultado: menor rendimento, pedidos de demissão e até mesmo depressão

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postado em 29/11/2015 12:55 / atualizado em 01/12/2015 14:31

Minervino Junior

Hoje, Rubens Ricarto, 31 anos, é dono do próprio negócio, a agência de marketing promocional Weppa. “Quero ter uma empresa onde não exista distinção por raça ou orientação sexual. Desliguei funcionário por ele ter agido de forma preconceituosa. Não admito”, afirma. No passado, ele ficou traumatizado por episódios de homofobia no ambiente de trabalho. Quando tinha 18 anos, Rubens conseguiu o primeiro emprego, como vendedor numa loja de roupas em um shopping. “Estava tudo tranquilo, até descobrirem que eu tinha um relacionamento com um rapaz”, relata. Depois da revelação, o tratamento dos colegas e do chefe mudou. “Eles me hostilizavam, perguntavam onde estava a minha namorada. Meu rendimento caiu, porque não interagia mais com meus colegas, já que me olhavam torto.”


Uma semana depois, Rubens foi mandado embora. “Uma funcionária que trabalhava lá me contou que o chefe havia me demitido porque ‘não aceitava bichas’ na empresa”, conta. “Isso trouxe um trauma. A partir daquele momento, não misturei mais minha vida pessoal com a profissional. É complicado, porque os colegas sempre querem saber de você, fazem perguntas”, explica. Casos como o de Rubens acabam se tornando comuns por causa do preconceito, como explica a professora de psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Tatiana Lionço. “Se não pode expor quem é, como alguém vai criar intimidade nas relações interpessoais? O homossexual é excluído pelos outros ou passa a recusar interações. Ele teme não ser aceito em espaços sociais”, avalia a docente.


Quando Henrique Elias, 24, contou ao chefe que havia sido xingado de “viado” por um colega, a reação do superior piorou a situação. “Em vez de chamar apenas os envolvidos para uma conversa, ele convocou todos da empresa e expôs o que tinha acontecido. Foi uma reunião constrangedora”, relata Elias, que trabalhou na companhia como auxiliar administrativo no ano passado. Depois de descobrir que ele era homossexual, cada funcionário reagiu de uma forma diferente. “No primeiro momento, foi um espanto. Alguns me mandaram mensagens de apoio, outros se afastaram e pararam de falar comigo”, conta.


Elias passou a receber bilhetinhos anônimos com recados homofóbicos. Depois de uma semana, decidiu pedir demissão. “Você se sente a pior pessoa do mundo. Comecei na firma com um trabalho bom, passei a ser o centro das atenções de um jeito ruim. Para tentar sair dessa situação, preferi ir embora”, explica. O caso serviu de motivação para que Elias se envolvesse no movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT). “Como militante, luto para que isso não ocorra com outras pessoas.” Hoje, o jovem é criador e presidente da ONG União Brasiliense de Gays (Unigay), que faz um trabalho de prevenção a DST e HIV no Distrito Federal.

 

Consequências
Segundo Tatiana Lionço, a homofobia pode desencadear doenças como depressão ou até episódios de pânico. “Cada um tem recursos diferentes para lidar com o problema”, explica. Foi o caso de Fernanda*, 31 anos, que trabalhava como técnica judiciária no Tribunal Regional do Trabalho do Maranhão (TRT-MA). Ela afirma que desenvolveu um quadro de depressão e de fibromalgia (dor muscular) devido ao assédio dos colegas. “A então diretora da vara, por exemplo, não me deixava exercer determinadas funções que exigiam  esforço intelectual e reclamava do meu jeito de andar. Quando uma nova chefe entrou, fui conversar sobre os servidores que implicavam comigo. Ela me contou que a diretora anterior havia lhe avisado que eu tinha o agravante de ser lésbica”, relata.


Fernanda pediu afastamento da função para se tratar junto à família, mas teve o pedido negado. “Quando me passaram para ser avaliada pela junta médica, pioraram a situação. Diziam que eu tinha que deixar para lá ou procurar outro concurso para fazer.” Em 2012, ela pediu remoção por motivos de saúde. “Não cheguei a citar as razões da doença, porque não queria me expor. Na minha família, muita gente não sabia que eu era lésbica”, afirma. Em 2014, o tribunal tentou aposentar Fernanda, que entrou com um pedido para uma nova perícia. Além de exigir o afastamento em vez da aposentaria, a servidora denunciou o assédio.


Em 18 de setembro deste ano, após tirar várias licenças médicas, a servidora foi aposentada por invalidez. “Pensei em tirar minha vida. Com essa notícia da aposentaria, perdi o chão. Não passa de uma punição”, reclama ela, que voltou à Justiça este mês e homologou ação no Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região pedindo nova avaliação médica. “Tenho que erguer a cabeça e não desistir de lutar contra esse absurdo.” Em nota, o TRT-MA diz que adotou os atos legais pertinentes e que permitiu os trâmites administrativos adequados à servidora.


Segundo o advogado de Fernanda, Lucas de Alencar, apesar de ser uma instituição que deveria prezar pela justiça, o TRT-MA se limita a negar o problema. “Eles sustentam que não há fundamentos para rever o laudo. Vários médicos procurados pela cliente identificam que o problema de saúde dela estava ligado ao ambiente de trabalho. Não é porque é um órgão público que vai, necessariamente, fazer tudo corretamente. É comum assumirem uma situação de defesa até para não terem que reparar o dano”, afirma.


Colegas de Fernanda serão indicados como testemunhas no processo, e pareceres médicos serão apresentados. Segundo o jurista, a aposentadoria deveria ser revertida. “Minha cliente não queria interromper a carreira. Ela gostaria de se tratar adequadamente, mas a atitude do tribunal para com ela, que tem um quadro de saúde mental frágil, não ajudou.”

 

Brincadeira de péssimo gosto

 

Carlos Moura

“No ambiente de trabalho, a homofobia costuma se manifestar encoberta como brincadeira”, afirma Valdenízia Peixoto, professora de serviço social da Universidade de Brasília (UnB), especializada no movimento LGBT. Diferentemente do senso comum, joguetes não são inofensivos. “Fazer piada com a orientação sexual é desrespeitar a dignidade da pessoa. Ela não vai considerar engraçado, e sim algo que desumaniza”, alerta.


“Dói, porque estão deslegitimando a minha forma de amar e de me relacionar com o mundo”, afirma Patrícia*, 21, que sofre com piadinhas por parte dos colegas no escritório de advocacia em que trabalha como auxiliar há dois anos. “É um ambiente muito hostil, mas, na situação econômica atual, não posso sair para procurar outro emprego”, afirma. Quando entrou para a firma, Patrícia, que se relaciona com pessoas de ambos os sexos, namorava um homem. Depois que o relacionamento acabou, os colegas passaram a tratá-la de forma diferente. “Como eles estão adicionados ao meu perfil do Facebook, e posto conteúdos sobre a causa LGBT e fotos abraçando meninas com quem me relaciono, acabaram percebendo”, revela. “Eles sempre começam brincadeiras preconceituosas perto de mim.”


O pior episódio ocorreu durante uma discussão sobre adoção. “Uma das funcionárias falou que sabia o motivo pelo qual eu queria adotar: era porque eu gostava de mulher. Ela disse aquilo num tom extremamente agressivo, como se fosse um crime”, relata. A auxiliar conta que não se sente confortável para denunciar a situação aos superiores na empresa. “Seria inútil, porque trabalho aqui há dois anos, e o resto está há 20. Os donos do escritório têm a mesma postura, então os funcionários sentem que podem agir dessa forma. Não consigo me defender lá dentro.”


Outra forma de reagir à pressão da equipe é esconder a orientação sexual, como explica a professora Valdenízia Peixoto: “Quem é homossexual tem que entrar na empresa e deixar a identidade para trás, então acaba tendo uma vida dupla”. Esse foi o dia a dia do engenheiro civil Tadeu*, 23. Ele estava empolgado com o novo emprego em uma empresa de telefonia, até conhecer os colegas. “Entrei disposto a ser eu mesmo e acabei mentindo. Escutava todo tipo de preconceito: racismo, machismo, homofobia.” Casado com um homem, ele se sentia pressionado a criar uma imagem diferente de quem ele era. “Implicavam com coisas como o fundo da tela do meu computador. Tinha que beber com eles depois do trabalho; se não, era viadinho”, afirma. A gota d’água ocorreu quando Tadeu foi interrompido diversas vezes por piadinhas durante uma apresentação na frente de 50 pessoas.


Depois de um ano na empresa, ele não suportava mais o ambiente e pediu demissão. “Não esclareci o motivo porque não queria me expor. Não tenho problema em falar sobre isso, mas, como percebi que o ambiente era hostil, sabia que seria julgado por qualquer exposição”, afirma. Outro colega, também homossexual, havia saído da empresa meses antes pelo mesmo motivo.

O que fazer?

Como agir se você for vítima de homofobia no ambiente de trabalho? “A primeira coisa a ser feita é buscar uma solução dentro da empresa”, recomenda Valdenízia Peixoto. Se não houver resultado, o funcionário pode procurar a justiça. No Brasil, homofobia não é crime. “É possível o reparo por dano moral, porque foi algo que prejudicou a honra, mas não existe legislação que trate especificamente disso”, explica Rodrigo Camargo, presidente da Comissão Especial de Diversidade Sexual do Distrito Federal. O funcionário pode entrar com o processo até dois anos após ter deixado a empresa.


Rodrigo Camargo afirma que quem processa o empregador por dano moral encontra duas dificuldades: ter que expor a orientação sexual e conseguir comprovar o assédio. É preciso apresentar provas, que podem ser documentais, como e-mails ou bilhetes; ou testemunhais, como o depoimento de algum colega de trabalho. “A forma mais eficaz é a prova testemunhal, mas os funcionários costumam não querer depor contra a própria empresa.” Segundo Camargo, a maioria das pessoas que entram em contato com a comissão desiste por medo de se expor.

* Nomes fictícios

Palavra de especialista

Problema frequente


A homofobia no ambiente de trabalho ainda é bastante comum. Por ter medo da reação dos outros, a pessoa finge ser heterossexual e acaba não criando vínculos. Isso também prejudica a produtividade, porque o empregado se sente acuado. Hoje, uma empresa que compactua com a homofobia perde mercado. Eliminando a homofobia dentro da empresa, a produção e a vivência dos empregados melhoram. Se você sabe que um homem é casado com outro, envie um convite para a festa da empresa endereçado ao companheiro. Se há uma viagem, chame para que venha. O companheiro também deve ter a possibilidade de entrar no plano de saúde. Não faça piadas, não xingue.

Patrícia Gorish, advogada e sócia da UP Humanização e Treinamento, consultoria que ensina empresas a lidarem com a homofobia no ambiente de trabalho

 

Companhias discutem direitos LGBT em fórum

 

Um fórum realizado em Barueri (SP) reuniu, na última quarta- feira, dirigentes de empresas de diversos setores para discutir boas práticas na promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no ambiente corporativo. O evento contou com mais de 150 companhias para discutir gestão empresarial com o objetivo de combater o preconceito nas instituições. Além da DuPont, que promove o fórum, e das três novas signatárias—Jones Lang LaSalle (JLL), Atento e Dell —, fazem parte do grupo 3M, Bayer, Carrefour, Comitê Rio 2016, Facebook, Google, Monsanto, entre outras. A iniciativa começou em 2013, e há encontros quatro vezes por ano.

 

“Um dos principais problemas das empresas ainda é a inclusão. Essas pessoas são contratadas e não são inseridas efetivamente no ambiente”, destaca a diretora de Recursos Humanos da DuPont Brasil, Simone Bianche. “É importante trazer esse assunto para a pauta e implementar atitudes efetivas para esse público nas organizações, como falar sobre o assunto de maneira formal, promover treinamentos para líderes sobre o tema, celebrar datas do movimento LGBT, garantir os mesmos benefícios para casais homossexuais, entre outras medidas”, destaca o secretário executivo do fórum, Reinaldo Bulgarelli.

 

Ao fim do evento, as organizações participantes assinaram um termo de compromisso com 10 práticas que devem fazer parte da agenda de trabalho, como promover a igualdade de oportunidades e o tratamento justo e cuidar para que o ambiente seja respeitoso, seguro e saudável. 

 

Ana Paula Lisboa e Paula Braga, especial para o Correio

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