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Onde estão os empregos

Cresce a demanda por alguns profissionais, e certos tipos de empresa abrem maior número de oportunidades. Pela alta rotatividade, vagas operacionais podem ser as mais fartas no mercado. No entanto, a disputa por elas está se acirrando

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postado em 06/12/2015 12:35 / atualizado em 07/12/2015 13:23

Ana Paula Lisboa

Carlços Moura

Tanto para quem busca o primeiro emprego quanto para quem quer se recolocar, o cenário é frustrante. No terceiro trimestre de 2015, o índice de desemprego subiu para 8,9%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No caso dos jovens de 18 a 24 anos, a taxa é de 19,7%. No entanto, especialistas garantem que a recessão não é sinônimo de conjuntura estática, e as vagas existem — em todas as áreas. Em alguns ramos, porém, podem ser mais fartas.

Professor de cenários econômicos e macroeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Mauro Rochlin aponta que o mercado continua dinâmico. “Há fechamento e abertura de vagas em todo momento — só que, nos últimos 18 meses, o número de encerramentos foi bem maior”, pondera. Segundo Rochlin, a tendência é que empresas ligadas à exportação — que podem ser de vários setores, como automóveis, soja e aço — demandem mais diversos tipos de profissionais porque o dólar em alta torna o setor mais competitivo. “Fazendo um corte por setor, nenhum abre mais do que fecha no momento. No entanto, algumas empresas estão em situação melhor que outras”, diz.

“Há mais desemprego e menos vagas que o normal, mas os setores são afetados pela crise de manerias distintas. Alguns — como o automotivo — sofrem mais. Crescimento e contratações, porém, dependem muito da postura da empresa: se ela é agressiva e vê a crise como oportunidade pode contratar em vez de demitir”, aponta Ana Seraceni, estrategista de carreira da Comserventia. Coordenadora de recursos humanos da OD&M Consulting, Andréia Melo, acredita que as ofertas de trabalho estão diminuindo no geral e afirma que “a alta rotatividade dos profissionais operacionais faz com que oportunidades do tipo sejam constantes e representem a maior fatia disponível no mercado.”

Radiografia do emprego
Segundo a 8ª edição do guia salarial da Robert Half, divulgado na semana passada, as empresas estão se adequando ao cenário de menor crescimento e buscam eficiência. Nesse contexto, profissionais capazes de alcançarem bons resultados em situações adversas são mais valorizados. A expectativa é que não haja significativa expansão de vagas em 2016. Uma coisa é certa para as contratações futuras: serão mais rigorosas. É o que aponta Fernando Mantovani, diretor de Operações da empresa no Brasil. “Pessoas morrem, se aposentam, e incompetentes são demitidos. Tem empresa mandando embora dois para contratar um. Vagas de trabalho existem sim, mesmo que apenas de reposição. A questão é que, quando o mercado está crescendo, contrata-se mais e não há tantos critérios na busca. Em momento de crise, a situação muda”, decreta.

“Empresas de exportação estão crescendo por causa da alta do dólar e podem contratar profissionais de diversas áreas. Instituições automotivas estão produzindo menos carros e podem tentar recuperar rendimento contratando bons profissionais. Há muito mais movimento numa exportadora do que numa firma do setor automotivo, mas pode ser que as duas contratem”, exemplifica. Segundo ele, é difícil indicar carreiras específicas que devem contratar mais em 2016, mas, entre essas, ele destaca a área jurídica societária e a comercial em startups.

Cenário comercial
“Setores de essencialidades — como supermercados, farmácias, postos de combustíveis — continuam e vão continuar contratando”, garante o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Distrito Federal (Fecomércio-DF), Adelmir Santana. O comércio do DF teve queda de -0,23% nas vendas em outubro na comparação com setembro. O setor de serviços apresentou decréscimo de -0,11%. No comércio, os segmentos com maior alta nas vendas foram: tecidos (13,49%) e floriculturas (8,86%); tiveram queda bares, restaurantes e lanchonetes (-2,59%) e material de construção (-1,86%), por exemplo. No setor de serviços, alguns dos que apresentaram crescimento são casa de eventos (12,29%), aluguel de artigos para festas (9,41%), clínica de estética (1,85%) e salão de beleza (0,92%).

Entre os segmentos em baixa e que não devem contratar, Cyndia Bressan, mestre em psicologia do trabalho, coordenadora do MBA em gestão de pessoas por competências, indicadores e resultados do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (Ipog), destaca o de restaurantes. Em contrapartida, o ramo de entrega de comida tem crescido: é o que aponta a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). O nicho deve movimentar R$ 9 bilhões até o fim do ano, R$ 1 bilhão a mais que 2014. Diferentemente de restaurantes, a opção elimina custos, como o de transporte. “Em fim de ano, há demanda por setores de festa e estética”, diz Cyndya Bressan — conclusão reiterada pelos números da Fecomércio. Sobre o mercado de beleza — incluindo salões, lojas e até cirurgias plásticas —, ela percebe que esse continuará efetivando mão de obra. “As pessoas economizam, mas não deixam de fazer exceções em prol da autoestima”, diz.

Priscilla Amaral, 31 anos, proprietária do salão de beleza Zug Hair, localizado no Lago Sul, percebe os bons ventos. Durante a crise, o número de clientes até aumentou. Nos últimos dois meses, ela contratou duas novas empregadas — uma em vaga de reposição e outra em nova oportunidade. “As pessoas não deixam de vir, no máximo param de procurar atendimentos para tarefas que conseguem fazer sozinhas, como manicure e escova”, observa. Entre as novas aquisições do Zug Hair, está a cabeleireira Géssica Luzia Carvalho, 24. “Saí do antigo salão em que eu trabalhava porque o movimento estava fraco. Fiquei dois meses em casa para resolver problemas pessoais e fui indicada para a vaga.” Jaqueline Alves, 21, entrou para trabalhar como manicure. “Demorei duas semanas para encontrar trabalho depois de ter saído do meu antigo emprego. Não me preocupei com a crise porque percebo que não falta emprego na área”, comemora.

 

Conheça nichos de oportunidades

 

Ana Rayssa

Rogério Gabriel, presidente do Grupo Prepara, acredita que há espaços a serem ocupados e indica setores promissores. “Ainda é possível encontrar vagas, principalmente, nos segmentos de serviços, tecnologia e no varejo”, aponta. Outra área que pode se destacar e contratar é a contábil. “Em momento de restrição, as pessoas precisam cuidar melhor das finanças, e cresce a procura pelos pequenos escritórios de contabilidade. Num aspecto maior, há aumento da inadimplência, e instituições procuram escritórios especializados em cobranças”, constata Cyndia Bressan. Ainda de acordo com a professora do Ipog, instituições têm investido em softwares integradores e na automação. “Isso exige pessoas altamente qualificadas para operarem equipamentos muito caros, o que incrementa o setor de tecnologia”, exemplifica.

O Instituto Eldorado, de pesquisa e inovação em tecnologia, promoveu contratações nos últimos meses. A analista de RH Regina Reis percebeu maior oferta de candidatos, inclusive de fora do DF. “Assim, pudemos aumentar a cobrança. A mão de obra em Brasília, normalmente, domina a parte técnica; o problema é que a maioria não fala inglês, essencial para serviços prestados a empresas internacionais”, conta. De São Paulo, Maurício Dias Ferreira, 28, analista de software, percebe que o setor de TI encolheu na grande metrópole, o que acabou o deixando sem emprego. “Fiquei procurando durante três meses até achar essa oportunidade em Brasília, que é um salto para a minha carreira.”

Os analistas de software Gisele Borges, 45, e Tiago César Oliveira, 31, também entraram para o time da instituição há poucos meses. Com duas pós-graduações no currículo, Gisele pensou na crise quando decidiusair do emprego, mas ela não se acanhou por perceber que conseguiria nova colocação por ter diferenciais. Tiago acredita que foi contratado porque a empresa precisava de um perfil específico que dominasse engenharia de software e falasse inglês.


Garanta sua vaga
Apesar de não haver fartura de empregos, o brasileiro está disposto a arriscar: estudo da Robert Half aponta que 87% das pessoas pensam em procurar um novo emprego nos próximos 12 meses. Para chegar lá, Fernando Mantovani indica que o importante é se destacar. “Todo mundo está procurando emprego, e só será chamado quem se diferenciar. Bons profissionais sempre encontram oportunidades”, garante. Segundo o diretor, para os recém-formados uma boa porta de entrada são os programas de trainee. “Esse profissional pode se sobressair com domínio de idiomas, estágios e atividades.” Para garantir a contratação, Rogério Gabriel, do Grupo Prepara, indica que as pessoas invistam em educação. “Cursos de capacitação são extremamente importantes para que o profissional se diferencie.” A estrategista de carreira Ana Seraceni acredita que é importante saber apontar o que é diferente no seu perfil. “Há muitos currículos parecidos. É preciso destacar resultados entregados e habilidades. É necessário saber se vender e explicar como você agrega valor à empresa.”

 

Maior concorrência em cargos operacionais 

 

Marcelo Ferreira

Gerente de RH do SuperMaia, Graziele Lellis, 38, conta que o supermercado deixou de repor cerca de 200 vagas e, assim, reduziu o quadro funcional para 2,5 mil pessoas em 15 unidades. No entanto, a rede continua contratando, especialmente na linha de frente, em cargos como operador de caixa e empacotador. Grazielle está tendo menos dificuldade para selecionar nos últimos meses porque a quantidade de candidatos por vaga subiu — um reflexo da crise. “Tem tanta gente desempregada que podemos ser mais seletivos.” Rayssa Vieira, 22, é repositora de mercadorias desde 1º de outubro e está feliz com a oportunidade, já que estava preocupada com o cenário instável. Gabriel Alves, 19, é operador de caixa desde a última quarta-feira e comemora o primeiro emprego. “Mandei currículo para vários lugares. A crise deixa tudo mais difícil. Tive medo de não achar nada”, revela.

Jacob Rosenbloom, CEO da Emprego Ligado, site de empregos especializados em vagas operacionais, aponta que o interesse por postos com salários de até R$ 1 mil cresceu 25% em relação ao mesmo período do ano anterior. “Com o maior interesse, é natural que a concorrência aumente”, observa. Uma boa notícia para quem quer trabalhar na base da pirâmide é que a Emprego Ligado constatou procura 81% maior por empregados operacionais neste trimestre. Segundo levantamento da OD&M Consulting, as áreas que mais empregam nesse tipo de cargo são varejo (22%), produção industrial (15%), telecomunicações (14%), logística (10%) e administrativa/financeira (8%).

“São setores de extrema importância para a economia, e isso impacta as demais áreas”, justifica Andréia Melo, coordenadora de recursos humanos da empresa. A pesquisa Perfil das vagas operacionais e benefícios corporativos revela que 67% das oportunidades criadas no último ano exigem ensino médio completo. Segundo o estudo, 10% das posições oferecem salários superiores a R$ 2 mil, 90% de até R$ 2 mil, 43% entre R$ 1 mil e R$ 2mil, e 47% de até R$ 1 mil.

O Centro-Oeste concentra apenas 1% das vagas operacionais e tende a ser mais exigente na contratação. Conhecimento de informática é requisito obrigatório em 48% das posições, inglês em 38%, e espanhol em 14%. Nos estados da região e no DF, o ensino médio é obrigatório em 77% das oportunidades; e o superior em 25% delas. A maior parte (93%) oferece salários de até R$ 2 mil. Dentre as poucas oportunidades oferecidas se destacam os setores de telecomunicações (43%), comercial (30%) e do varejo (27%).

 

Menu das contratações


Carreiras, setores ou empresas que podem demandar mais profissionais — em oportunidades novas ou de reposição — e áreas que devem eliminar ainda mais postos de trabalho

Vagas abertas
» Advogados societários
» Contadores
» Profissionais operacionais
» Profissionais da área comercial em startups
» Profissionais de TI
» Profissionais do setor de serviços
» Profissionais em empresas do varejo
» Profissionais em empresas exportadoras

Vagas fechadas
» Profissionais de restaurantes
» Profissionais da indústria (metalurgia, montadora e automotiva, por exemplo)
» Profissionais da construção civil

Fontes: Rogério Gabriel, Cyndia Bressan, Fernando Montavani, Andréia Melo e  Mauro Rochlin

 

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