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Como enfrentar a demissão

Recessão desanima quem foi mandado embora, mas especialistas alertam que o desespero não ajuda a achar trabalho. Mudar de área ou aceitar cargos mais baixos podem ser estratégias para ficar fora das estatísticas do desemprego

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postado em 20/12/2015 13:37 / atualizado em 20/12/2015 13:59

Ana Paula Lisboa , Laura Tizzo /Especial para o Correio

Breno Fortes

Crise e corte de funcionários podem ser tratados como sinônimos no meio corporativo. Quando a primeira aparece, não demora muito para que o segundo dê as caras, afinal reduzir o quadro de colaboradores é uma forma de conter despesas. Em novembro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego ficou em 7,5% no país, totalizando 1,8 milhão de pessoas desocupadas no mês. No mesmo período do ano passado, o índice era de 4,8%.


Na capital federal, no mês passado, houve 19,8 mil pessoas admitadas, e 21,5 mil desligadas, o que significa uma diminuição de 1.668 vagas. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho e Emprego (Caged/MTE). Ainda segundo o Caged, no acumulado do ano, houve uma perda de 945.363 postos de trabalho com carteira assinada em todo o país. Nos últimos 12 meses, o total chega a menos 1,5 milhão de vagas.


Carlos Moura

O técnico em infraestrutura Danilo Cardoso de Oliveira, 29 anos, entrou para a estatística. Com mais de uma década de experiência no mercado, foi demitido pela primeira vez. O motivo? Corte de gastos na empresa. Ele trabalhava com rede de internet e telefonia para a operadora aeroportuária Inframérica desde 2014. No fim de outubro, vários integrantes da equipe foram mandados embora.“Era uma questão de tempo: a gente estava esperando”, compartilha. “Agora vou tentar emprego na área que surgir.”


A tensão causada por esse tipo de situação é altíssima. “Demissão causa o segundo maior nível de estresse a que o ser humano é submetido. Pior que isso, só morte de filho, principalmente, para quem tem mais de cinco anos na empresa. Afeta a autoestima, e a pessoa passa a questionar tudo”, observa o consultor em gestão de pessoas Eduardo Ferraz. “Alguém que ficou 20 anos numa empresa e sai passa por trauma semelhante ao de ficar duas décadas casado e se separar. A pessoa não sabe nem por onde começar uma paquera — ou a procurar emprego”, compara Marcos Morita, especialista em estratégias empresariais.

Dá para reverter?
Ser mandado embora pode ser um golpe duro, mas é possível se recolocar, mesmo durante a recessão. Uma boa saída é se antecipar aos efeitos da crise. Foi no que apostou a bióloga Cristiane Oliveira, 32 anos. Quando foi demitida, em junho, de uma firma de consultoria ambiental, tinha cartas na manga por ter antevisto riscos. “A organização é de médio porte e está passando por dificuldades. No começo do ano, percebi que havia alguma chance de ser mandada embora.” Ela procurou, então, uma consultoria de recolocação. Com isso, aprendeu a fazer um bom currículo e a se portar em entrevistas de emprego, reviu erros e acertos e fez uma análise da própria trajetória profissional, desde que trabalhava em laboratório até fazer carreira na área ambiental, em que acumula experiências em três organizações. “Foi um investimento em mim”, conta a mestre em fitopatologia.


Quando foi demitida, Cristiane, que faz MBA em gestão de projetos, não foi pega de surpresa, pois havia juntado dinheiro para caso precisasse ficar alguns meses sem trabalhar. Depois, conseguiu um cargo melhor que o de antes. “Fui contratada em setembro por outra empresa de consultoria ambiental, só que de porte maior. É um lugar em que terei mais chances de crescimento”, revela ela, que é coordenadora de Projetos.


“Rever acertos e erros traz equilíbrio. Poucos pensam na carreira como algo a ser planejado estrategicamente. Normalmente, só percebem a importância disso quando são demitidos”, observa Cátia Moreira Wanderley, consultora da Véli Soluções em RH. Por isso, apostar num processo de autoavaliação antes de procurar emprego, como fez Cristiane, é uma boa pedida. A especialista também recomenda que as pessoas tracem um plano de ação para lidar com a demissão. “É um período que traz insegurança e instabilidade — além da financeira. Ter clareza do seu potencial é fundamental. É comum o indivíduo se confundir com o momento e duvidar da própria capacidade. Muitos profissionais de alta performance se deparam com a demissão em algum momento da carreira. O fundamental é ter atitude e não se vitimizar.”

 

Notícia boa?
Elaborada pelo ManpowerGroup, focado em soluções de gestão e contratação, a pesquisa sobre expectativa de emprego no Brasil no primeiro trimestre de 2016 traz um pouco de alívio aos trabalhadores: apesar de as expectativas de contratações estarem congeladas, menos gente deve ser demitida. O estudo ouviu 851 executivos líderes de RH e constatou que o índice de contratação previsto para o período é de -13% (contra -9% no último trimestre de 2015). A quantidade de empregadores que preveem demissões entre janeiro e março caiu quatro pontos percentuais, passando de 23% para 19%. O montante de empresas que não deverão alterar a folha de pessoal subiu de 65% para 68%. O volume das que devem contratar não se alterou, ficando no patamar de 9%. Confira o levantamento na íntegra em: www.manpowergroup.com.br/
pesquisas.

 

Salve sua pele

Para quem está empregado, mas nota que a empresa sofre com a crise e tem a intenção de demitir funcionários, há cuidados que podem ser tomados para preservar a vaga. O maior conselho para esses casos é ser prestativo. “Não se esconda. Você tem que sair e ajudar os gestores. Quanto mais apoio oferecer, mais será lembrado”, recomenda André Freire. Também é bom sugerir ações com o objetivo de reduzir custos. “Vale desde algo simples, como uma campanha para economia de energia, até propostas mais complexas para cortar gastos maiores”, propõe Freire. Por fim, a palavra-chave é criatividade. “Esta é a hora de ser inovador, buscando outros tipos de clientes, criando serviços, produtos ou processos. Profissionais com esse perfil são muito bem-vistos num momento como este.”

 

Para conquistar a sua vaga

 

Daniel Alves

Há dicas que podem tornar o processo de procura de emprego menos penoso. Marcos Morita, que acumula duas décadas de experiência como executivo em multinacionais, indica a criação de um cartão de visitas e de um resumo em forma de discurso pronto. “O profissional vai se encontrar com alguém e não vai ter mais do que um minuto para resumir a história, por isso precisa ser direto. Algumas pessoas acabam tendo autoestima baixa, mas não devem ficar se lamentando: ninguém gosta de lamúria”, explica. Também é indicado investir na rede de contatos. “O primeiro nível de relações pessoais são os colegas de faculdade, de trabalho, a família. No segundo, estão os amigos dos amigos. O terceiro seria o amigo do amigo do amigo. Em geral, não é o primeiro que consegue te encontrar um emprego, são os outros dois.”


Estar visível é uma dica em comum entre os especialistas. “Nas ferramentas on-line, como o Linkedin, a pessoa pode inserir o currículo, apresentar capacidades técnicas e até artigos em blogs. Estar presente no meio virtual é fundamental para ser encontrado”, defende André Freire, presidente da Odgers Berndtson Brasil, empresa focada em gestão consultiva do capital humano. Existem outros espaços propícios ao aparecimento de oportunidades que devem ser procurados por quem deixou o mercado e quer retornar. “Participe de associações, eventos, feiras de negócio. A pessoa não pode se isolar, ficar em casa, achando que o emprego vai aparecer”, adverte Marcos Morita.


Além desses passos, é preciso procurar emprego nos mais diversos meios. Para isso, Cátia Moreira Wanderley, da Véli Soluções em RH, orienta que candidatos busquem em sites de empresas e cadastrem-se em plataformas de vagas. Na era das redes sociais, ela ressalta que o bom e velho currículo não deve ser menosprezado. “Ter um documento bem elaborado se torna o mais importante neste momento, pois possibilitará que surja interesse para entrevistas. Um currículo bem estruturado é composto de, no máximo, três folhas, traz informações claras e objetivas. Não coloque informações inverídicas para deixá-lo mais atrativo”, ensina.


Para a hora da entrevista, a consultora de recursos humanos recomenda que o candidato mantenha a calma e enfatize mais as realizações conquistadas em suas experiências de trabalho e menos as tarefas executadas. É importante conseguir transmitir as habilidades comportamentais que você tem durante o processo seletivo, pois, segundo Cátia, características como bom relacionamento interpessoal, trabalho em equipe, dinamismo, iniciativa e otimismo tem sido procuradas nos perfis de candidatos.

 

Novas portunidades

Olhar para outros ramos de atuação pode facilitar a reinserção no mercado de trabalho. No entanto, a transição precisa ser feita com cuidado, como observa Lucia Costa, diretora de Transição de Carreira da empresa de consultoria Stato. “É preciso olhar o perfil da vaga oferecida, se a pessoa tem conhecimentos prévios que podem ser aproveitados mesmo sem passagem por aquele ramo de atuação.” O candidato deve vender a experiência acumulada em outras áreas no currículo ou durante a entrevista. “É interessante fazer uma analogia entre o que você sabe fazer e como esse conhecimento serviria para a outra função. Não é fácil mudar de segmento quando o mercado não está acessível, mas vale a pena tentar”, incentiva.


Débora Bougleux, 39 anos, resolveu mudar de área para garantir uma renda mensal. Graduada e pós-graduada em gestão ambiental, trabalhou durante cinco anos numa grande construtora como coordenadora em sua área de formação, mas foi dispensada pela falta de novos empreendimentos. “Não havia obras, então não precisavam mais de mim. Fiquei desempregada por oito meses. Nesse período, pesquisava em classificados, ia de porta em porta e me cadastrei em sites de emprego”, lembra. Débora saía desanimada de grande parte das entrevistas. “Algumas vezes, a vaga era simples, diziam para eu procurar algo melhor. Em outras, falavam que entrariam em contato, mas eu nunca recebia retorno.”


O estresse e o medo eram constantes, e o apoio da família foi fundamental. “Estava entrando em desespero, nunca tinha me visto naquela situação, precisei pegar dinheiro emprestado com parentes para pagar as contas. Quando vi amigos reclamando da área, percebi que era hora de mudar o foco, então comecei a mandar currículos para cidades vizinhas.” Ela chegou a conseguir uma vaga como gerente de um pet shop, onde trabalhou por quatro meses, mas desistiu do posto por abuso moral do empregador. Há três meses, Débora trabalha como auxiliar de escritório em uma empresa que fabrica máquinas agrícolas em Formosa (GO), a cerca de 79km de Brasília. O salário é três vezes menor do que costumava ganhar, mas Débora está satisfeita de, pelo menos, estar empregada. “Ainda espero encontrar algo na minha área e voltar para minha antiga vida”, espera.

E se pagarem menos?
Há 18 anos no ramo de transição de carreiras, o consultor da Thomas Case & Associados Eduardo Bahi acredita que aceitar um cargo que exija qualificações inferiores do que as que o profissional acumula não é uma boa ideia nem para ele nem para a empresa. “A pessoa pode fazer isso por conta da ansiedade de estar fora do mercado e pela questão financeira, mas a situação contribui para que ele fique deprimido, pois ela se decepciona por acreditar que não pode encontrar algo melhor.” Bahi também afirma que o colaborador pode se sentir desestimulado ao ver que tem mais qualificações que o chefe, por exemplo. “É uma decisão pessoal, e o profissional pode sucumbir a isso se achar que não tem mais alternativa”, conclui.
Consultora da Véli Soluções em RH, Cátia Moreira Wanderley concorda que é um dilema complicado. “É um momento delicado e pode ser a hora de dar um passo para trás — afinal, em alguns casos, pode ser a única saída se recolocar. Antes de aceitar um cargo mais baixo, o profissional precisa avaliar requisitos, como: ele tem alguma reserva para se manter? Sua profissão atravessa um momento delicado? É uma carreira com mais procura que demanda?”

 

Sinais de que você será demitido

A economia instável está levando muitas empresas a programarem a dispensa de funcionários. Para se prevenir, confira sinais que podem levar a uma demissão listados por Luciana Tegon, sócia-diretora da Tegon, empresa especializada em processos de recrutamento e consultoria em recolocação.

Dificuldades econômicas
O setor da empresa em que você trabalha está em recessão? A direção comunicou uma redução de orçamento? Esses são indicativos de que a crise pode chegar à empresa a qualquer momento.

Reclamações do gestor
Se seu chefe tem chamado sua atenção, apontando problemas reais ou irreais em seu trabalho, é bom tentar ter uma conversa franca com ele. Esse tipo de insatisfação é um indicador de que ele pode estar considerando sua dispensa.

Isolamento social
Os colegas não te chamam para almoçar ou te ignoram na hora do convite para o happy hour? Se esse é o caso, você está isolado, algo que pode pesar na hora de definir uma dispensa. Entenda as razões  e tente mudar essa realidade.

Falta de envolvimento com o futuro
Se a empresa tem novos projetos e você não está sendo envolvido, verifique se você deveria participar disso. Se sim, é um claro indício de que a empresa pode não considerar você no futuro da organização.

Reuniões sem você

Seu chefe está se reunindo com sua equipe sem você? Não deixe essa situação se arrastar. Fale com o gestor, exponha o desconforto e pergunte as razões disso.

Comportamento criticado
Se seus colegas costumam reclamar da sua conduta, para você ou para outros, saiba que esse é um sinal de perigo. Pessoas irritadiças, que respondem de modo grosseiro não são queridas e podem ser as primeiras a serem desligadas. Avalie suas atitudes.

Negação e resistência
Se você é daqueles que sempre diz “não”, saiba que essa é uma atitude de quem resiste a mudanças. Pode ser que não esteja se encaixando aos planos de futuro da empresa, o que coloca seu emprego em risco.

 

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