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SUSTENTABILIDADE »

Firma consciente

O planeta clama por socorro e o apelo precisa ser ouvido também no ambiente de trabalho, por empresários e empregados. Para ajudar, valem de medidas simples, como adotar impressão frente e verso, a mais complexas, como captar água da chuva

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postado em 10/01/2016 15:20 / atualizado em 11/01/2016 18:58

Ana Paula Lisboa

Minervino Junior

Neste domingo, o caderno Trabalho & Formação Profissional dá início a uma série de reportagens sobre a relação entre a sustentabilidade e o universo laboral. Quando o discurso ecologicamente correto é adotado no ambiente de trabalho, os resultados vão além da conservação da natureza e se manifestam em economia e até ganhos — inclusive financeiros. Afinal, em tempos de instabilidade econômica, qualquer redução de despesas é bem-vinda. Além disso, adotar uma postura sustentável impulsiona positivamente a imagem da instituição. A onda verde gera empregos e oportunidades de negócios, além de alimentar uma cadeia de clientes progressivamente rigorosos, que pesam os efeitos ao ambiente na hora de efetivar uma compra.


 

Apesar de terem importância, práticas sustentáveis no ambiente laboral ainda não são uma realidade comum. “Muitas empresas, no Brasil e no exterior, encaram a sustentabilidade como algo capaz de proteger e gerar valor. No entanto, há aquelas que incorporam isso apenas no discurso, porque se tornou uma palavra da moda, e não reveem condutas do dia a dia”, critica Fernanda Macedo, pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVces/FGV). Para que a postura não seja apenas de fachada, ela defende a revisão de todos os processos de produção. Em instituições maiores, a mudança exigirá bastante dedicação e tempo; já em organizações de pequeno porte ou nascentes, pode ser mais fácil mudar estruturas.


Apenas “boa intenção” não basta no processo de transição. “É preciso olhar para dentro e compreender onde a empresa gera impactos negativos e positivos e, a partir daí, gerir a questão. É necessária uma condução do topo para que o processo não pare no meio do caminho, mas é vital engajar a equipe para dar certo.” A pesquisadora prega que a sustentabilidade vai além da questão ambiental, integra outras dimensões, como a financeira, a de governança, a social e a natureza do produto. “É até para a companhia render mais”, garante.


Anízio Dutra Vianna, gerente da Unidade de Inovação e Sustentabilidade do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), vai além: “É uma questão de sobrevivência”. O conceito pressupõe que a organização seja rentável, gere resultados econômicos e contribua para o desenvolvimento da sociedade, que é o tripé da sustentabilidade. “Nessa perspectiva, o bem-estar das pessoas, a preservação da natureza e os lucros estão integrados ao negócio e não podem ser dissociados”, explica.

 

 

 

No dia a dia
No Goethe-Zentrum Brasília, escola de alemão, várias mudanças foram implementadas de cinco anos para cá, como a utilização de papel reciclável, de impressão frente e verso, de lâmpadas de LED e de copos descartáveis em papel, separação do lixo e troca das descargas nos banheiros para reduzir o consumo de água. A equipe é estimulada a usar o ar-condicionado moderadamente e desligar a luz ao sair de um ambiente. Nem todas as ações ocasionam economia financeira. “Lâmpadas de LED contribuem para reduzir o gasto com energia. Já o papel reciclado resulta num aumento de custos”, conta a gerente executiva da casa, Sabine Plattner.


“Consideramos que vale muito a pena: mais importante é trabalhar de forma sustentável e consequente. Assim, a gente dorme com a consciência tranquila, sabendo que ensina não somente a língua alemã, mas também uma atitude responsável, que tem a ver com a cultura do país”, diz. “Não recebemos críticas, muito pelo contrário! Encontrei uma aluna fazendo foto do dispensador de copo de papel reciclável. Pensei que pretendia fazer alguma reclamação, mas ela disse que levaria a sugestão ao trabalho dela.”

Energia

Entre as contas mais sofridas para o empresariado estão a de água e a elétrica. Uma pena saber que boa parte do que é pago é em vão: em um ano, mais de 10% da energia produzida no Brasil foi desperdiçada, segundo cálculo da Associação Brasileira de Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), o que significa a perda de R$ 12,64 bilhões. O motivo? Consumo irresponsável e ineficiência de sistemas elétricos. Ricardo Cricci, diretor superintendente da Celena, empresa especializada em eficientização energética, defende que eliminar o desperdício é bom para o bolso de quem investe, além de beneficiar o sistema energético do país e reduzir o ônus ambiental.


Ele explica por que vale a pena apostar em lâmpadas e equipamentos mais eficazes. “Gasta-se mais no investimento para economizar nas despesas. Uma geladeira, um motor industrial, um ar-condicionado com maior eficiência, um sistema de equipamentos que economize água ou uma luminária de LED são mais caros, mas geram redução na conta. Além disso, apresentam menos gastos com manutenção. Até com relação ao descarte correto, é melhor”, diz.

 

Modelo público
O Bloco U da Esplanada dos Ministérios deve servir de exemplo para outros edifícios do governo federal quando o assunto é desenvolvimento sustentável. O prédio abriga as pastas de Minas e Energia (MME) e do Turismo (MTur) e é pioneiro em uma série de ações nesse sentido desde 2010. As primeiras mudanças foram a reforma da parte elétrica, a troca de tubulações e a substituição de torneiras comuns por automáticas. “Estamos nos aprimorando nisso. Em 2012, iniciamos um projeto de eficiência de iluminação, com acionamento automatizado, que permite que todas as fontes de energia sejam desligadas a partir de certo horário. Também podemos controlar a intensidade — deixamos só com 30% da capacidade em muitas casos, e o usuário nem percebe”, conta Andrea Cristina Carvalho, coordenadora-geral de Recursos Logísticos do MME. A tecnologia foi instalada em parceria com a Furnas / Eletrobras sem custo para o ministério.


Também em 2012, a instituição passou a integrar o então recém-lançado Projeto Esplanada Sustentável (PES), que estimula órgãos públicos a usarem recursos naturais de forma racional. O primeiro reconhecimento no programa veio em 2013, quando o Ministério de Minas e Energia foi premiado pelo PES. Por causa disso, tiveram ampliação orçamentária para investir em sustentabilidade. “Com a verba que ganhamos, instalamos medidores individuais, verificamos vazamentos e começamos a captar água pluvial”, conta Alvanir da Silva Carvalho, engenheiro civil e coordenador de Atividades Gerais. Além do que cai com a chuva, o tanque concentra o que pinga de aparelhos de ar condicionado. A medida faz diferença: 20% da água usada no prédio vem desse armazenamento. “De gotinha em gotinha, temos um reservatório de 1,5 mil litros”, diz Alvanir.


Há dois anos, copos plásticos pararam de ser disponibilizados: ou o servidor traz algum recipiente de casa, ou precisa procurar um copo de vidro. O descarte também é consciente, como explica Márcia Figueiredo, presidente da Comissão de Coleta Seletiva. “Todo o lixo é separado e enviado para uma cooperativa uma vez por mês. Ministramos curso de sustentabilidade para quem trabalha com nossos resíduos.” A conscientização dos demais funcionários também é levada a sério: as instalações do órgão contam com coletores de pilhas e cartões, e campanhas sobre descarte correto são promovidas frequentemente.


Espalhar práticas corretas e conquistar os colaboradores foi a arma adotada para cada mudança no ministério, que adota ainda outras ações, como impressoras programadas para imprimir frente e verso e refletores alimentados por energia solar. O corte no orçamento por causa da crise foi driblado com a criatividade: para datas comemorativas, como Dia do Servidor e Natal, a decoração foi feita com material reciclado. “Queremos ser um modelo piloto para os outros prédios da Esplanada. Representantes de vários órgãos vieram nos visitar para aprender conosco. A consequência de tudo isso é economia para os cofres públicos e, claro, a preservação do meio ambiente”, comemora Andrea. A preocupação também se reflete em qualidade de vida para os servidores, que contam com bicicletário e banheiro para tomar banho.O analista de infraestrutura Ricardo Ribeiro, 37 anos, aprova as medidas adotadas. “É um ganho em todos os sentidos. Quando dá, encaro os 5km de distância da minha casa ao trabalho de bicicleta.”

 

Três perguntas para

Anízio Dutra Vianna, gerente da Unidade de Inovação  Sustentabilidade do Serviço Brasileiro de poio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae)

 

No período de crise, em que a economia de recursos se torna vital para a sobrevivência da empresa, adotar práticas
ecologicamente corretas  uma boa opção?

É sempre uma ótima pedida, porque a sustentabilidade, integrada à gestão do negócio, reduz custos, maximiza processos e gera mais competitividade. É essencial manter o foco e ter indicadores claros e precisos para avaliação e ajuste de percurso.

No geral, os empresários têm consciência de que preservar o meio ambiente é lucrativo?
Há uma mudança cultural no país. Os donos de negócios, incluindo gestores de micro e pequenas empresas, estão se conscientizando de que preservar o meio ambiente e a lucratividade são pontos convergentes. As exigências do mercado estão mais rígidas e os consumidores, progressivamente, mais exigentes, tornando imprescindível que as
empresas adotem práticas produtivas com maior responsabilidade social e ambiental.

Que dificuldades um projeto sustentável costuma enfrentar para ser aplicado?
A sustentabilidade tem que ser vista como parte da estratégia da empresa. Portanto, a participação da diretoria é decisiva para o sucesso, mas os planos devem ser compartilhados por todos na organização, gerando um processo de mudança cultural, um dos maiores desafios e gerador de resistências internas. Outro fator de dificuldade é a necessidade de investimentos em produtos, serviços e processos sustentáveis.

Acesse
No site www.praticassustentaveis.com.br, lançado pelo Sebrae-MG, são reunidos exemplos de práticas sustentáveis e dicas para aplicar as lições no seu negócio.

 

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