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SUSTENTABILIDADE »

Geração de renda verde

Profissionais focados em responsabilidade ambiental têm se tornado figurinhas carimbadas nas empresas. No entanto, colaboradores acreditam que o interesse de muitas organizações está apenas em atender legislações da área

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postado em 17/01/2016 12:41 / atualizado em 24/01/2016 15:54

Arquivo Pessoal

A preocupação com o meio ambiente gera empregos em diferentes ramos. Figuras como gestor ou analista de sustentabilidade têm se tornado mais frequentes, especialmente em organizações de grande porte. Apesar de não saber precisar quantos trabalhadores exercem funções do tipo no Brasil, a Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade (Abraps), fundada há quatro anos, conta com 600 associados e avalia que as oportunidades na área estão em crescimento com perspectivas promissoras. Se consideramos os chamados empregos verdes, que incluem qualquer função que reduza consequências ao ambientais, os números são mais significativos: só no Brasil, são cerca de 3 milhões (veja quadro Redução de impacto).


Alexandre Luiz de Miranda Mac Dowell, diretor-presidente da Abraps, afirma que as contratações dos dois tipos de profissionais são fruto da valorização do desenvolvimento sustentável por parte da sociedade, do governo e das empresas. “As organizações estão se estruturando para incorporar novas competências nesse sentido por meio de profissionais especializados.” Apesar da crise, a previsão do diretor da associação é de que o recrutamento continue em alta. “Há demissões naquela parcela de organizações que vê o tema como algo supérfluo. Mas as instituições que incorporaram isso como valor precisam desses trabalhadores.”


Viviane Queiroz, sócia-diretora da empresa de consultoria e desenvolvimento humano Vizzan, lamenta o fato de a sustentabilidade não ser resguardada de cortes. “O conceito costuma entrar para a empresa como um objetivo duradouro, mas, na hora em que é preciso reduzir gastos, é o primeiro a ser cortado”, revela. Fernando de Araújo Bueno, consultor em sustentabilidade, professor do Institute Business Education / Fundação Getulio Vargas (IBE / FGV) e diretor de Sustentabilidade do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Campinas, observa que “para tratar o tema com seriedade é preciso ter capital humano no ramo”. Segundo ele, a formação para atuar no setor perpassa, principalmente, pós-graduações. Contudo, a oferta ainda é pouco significativa na academia.

 

Radiografia do setor
O levantamento Profissionais de sustentabilidade: atuação, projetos e aspirações, feita pela Abraps e pela empresa de consultoria Deloitte, traça um perfil de quem trabalha com o tema no país. Entre as principais características, estão o fato de a formação dessas pessoas ser multidisciplinar, o que se reflete na distribuição delas em vários setores nas instituições. Cerca de 40% dos profissionais do ramo têm até 35 anos. “São indivíduos da geração Y que cresceram com uma consciência ambiental. Eles não estão nem tão de olho no salário, pois brigam por uma causa maior”, detalha a psicóloga Viviane Queiroz.


Um terço dos entrevistados ganha mais de R$ 9 mil por mês, o que reflete uma tendência de valorização dessas posições. “No momento, todo mundo está restringindo, então pode haver mudanças, mas acima de 20% têm um salário significativo (acima de R$ 15 mil), um indicativo de que há posições de sustentabilidade de alto nível”, indica Mac Dowell.


Um em cada três respondentes avalia que a empresa em que trabalha está em estágio de desenvolvimento quando se fala em práticas sustentáveis, sugerindo que o foco de boa parte das organizações nesse sentido é apenas atender regulamentações — como a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, a Lei de Recursos Hídricos, o Novo Código Florestal Brasileiro, a Lei do Parcelamento do Solo Urbano, a Lei da Exploração Mineral e a Lei dos Crimes Ambientais —, em vez de apresentar preocupação genuína com o tema. “O aspecto legal é um dos grandes motivadores do comportamento das empresas, pois elas precisam dominar isso para evitar problemas e crescer”, pondera Alexandre Mac Dowell.


“Os empregos da sustentabilidade ainda são um movimento muito tímido, que cresce conforme as leis e as associações vão tomando forma e força”, observa Viviane Queiroz, que atua como consultora de RH de grandes empresas. “Muitas organizações fazem uma maquiagem na atuação de sustentabilidade, outras (que geram grande impacto ambiental) só mantêm projetos porque são obrigadas. Nesse quesito, nosso país ainda está na pré-escola”, critica a coach.


Já Fernando Malta, assessor técnico e de Relações Institucionais do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), acredita que a legislação não é mais o grande motivo por trás das contratações no ramo. “As leis ambientais pipocaram nos anos 1970 e 1980. O que tem motivado oportunidades é o próprio mercado: não é obrigatório fazer um relatório de sustentabilidade, por exemplo, mas isso é visto como uma necessidade, o que acaba gerando emprego.”

 

Redução de impacto

Relatório da Iniciativa Empregos Verdes prevê que a adoção de modelos produtivos mais sustentáveis pode gerar de 15 milhões a 60 milhões de empregos até 2030 em todo o mundo. No Brasil, há 2,9 milhões de pessoas em empregos verdes, segundo o relatório — o que corresponde a 6,6% dos postos formais. É preciso observar que nem todos esses trabalhadores exercem funções diretamente relacionadas à sustentabilidade. O relatório considera que qualquer posição que possa reduzir impactos ambientais pode ser chamada de emprego verde, é o caso de motoristas de ônibus (que evita o uso de carro por mais pessoas)

 

 

Perfil do profissional de sustentabilidade

Os trabalhadores
Gênero
58%    mulheres
42%    homens

Idade

10%    menos de 27 anos
32%    de 27 a 35 anos
27%    de 34 a 44 anos
18%    de 45 a 53 anos
9%    de 54 a 62 anos
4%    mais de 62 anos

Formação
3%     curso técnico
22%    graduação
44%    especialização
24%    mestrado
6%    doutorado

Áreas de formação
20%    administração
19%    engenharias
14%    gestão ambiental
10%    propaganda e marketing
6%    jornalismo
5%    economia
4%    ciências biológicas
2%     ciências contábeis
2%     serviço social
1%     direito
1%    recursos humanos
1%    relações públicas

Remuneração

12%    menos de R$ 3 mil
50%    entre R$ 3 mil e R$ 9 mil
16%    entre R$ 9 mil e R$ 15 mil
11%    entre R$ 15 mil e R$ 20 mil
11% - acima de R$ 20 mil

O que o motivou a ir para
essa área?

70%    realização pessoal
55%    admiração pelo tema
8%    retorno financeiro
3%    indicação de família ou amigos

As empresas
Setores de atuação

62%    empresas de vários ramos
17%    consultorias
11%    universidades
9%    associações / entidades
1%    governo

Fontes: Abraps e Deloitte

 

Trabalho integrado

O angolano radicado no Brasil Hugo Diogo, 40 anos, recém-contratado como gerente de Responsabilidade Social para a América Latina da Ramboll Environ, multinacional de assistência técnica e estratégica, é exemplo da incorporação de capital humano especializado na área. Antes de chegar ao cargo, em que terá como missão coordenar programas, especialmente em energias renováveis, foi dono de uma consultoria socioambiental. Graduado em oceanografia, estudou filosofias humanas e ciências agrárias no mestrado. “Normalmente, a universidade prepara bem para uma área. Nesse ramo, porém, o importante é ter vários conhecimentos integrados. Você tem que transitar em várias áreas e fazer parte de equipes multidisciplinares”, conta ele, que viveu em Brasília parte da infância e depois quando trabalhou no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).


Empregados da empresa de consultoria ambiental Geológica, Verena Felipe Mello, 31, engenheira florestal e graduada em turismo; André Luiz Guimarães, 38, publicitário; Charlene Franco, 31, arquiteta; Tiago Dantas, 32, engenheiro civil e ambiental; Vanessa Gonçalves de Paiva, 27, secretária executivo; e João Batista Chaves, 31, engenheiro ambiental, são exemplo da diversificada gama de profissionais que trabalham com sustentabilidade.


A empresa nasceu como incubada do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília (CDT/UnB) em 2001 e, hoje, é a maior do ramo no Centro-Oeste, com quatro unidades prestando serviços para clientes em Brasília e em 14 estados. “Empresas costumam ficar encubadas cinco anos. Em 11 meses, saímos de lá para ter nossa própria sede, tamanha foi a procura pelos nossos serviços”, complementa Cristiano Goulart, 39, sócio e presidente da empresa. Entre os clientes estão o GDF, o governo federal, construtoras e uma série de outras instituições. Há nove anos na empresa, Vanessa entrou como estagiária e foi crescendo. “Aprendi na prática. Preciso combinar conhecimentos de administração, licitações e serviços ambientais no dia a dia”, conta.


“A área ambiental é um mundo de oportunidades”, define João Batista, que está na empresa desde 2007 e, hoje, é gerente de Monitoramento Ambiental. “Meu papel é refinar a parte técnica, para incorporar a sustentabilidade de uma forma não utópica, atender a legislação e gerar impacto positivo.”


Essa é uma das características necessárias a profissionais do ramo listadas por Fernando Malta, assessor do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). “Esse colaborador precisa estar atento a questões globais e sociais e, ao mesmo tempo, não pode estar descolado do que gera valor para a empresa”, defende.

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