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SUSTENTABILIDADE »

Os empresários ecoinovadores do DF

A preocupação com os impactos ambientais estimula ideias de negócios. Em Brasília, empreendedores que investem no conceito recebem em troca reconhecimento por parte do público e podem ter logística e custos de produção reduzidos

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postado em 24/01/2016 15:23 / atualizado em 07/02/2016 14:54

Jéssica Gotlib /Especial para o Correio , Ana Paula Lisboa

Hélio Montferre

 

Empreendimentos que têm a sustentabilidade como mote atendem exigências dos clientes que, cada vez mais, enxergam o conceito como fundamental. No Distrito Federal, consumidores são mais engajados que em outras regiões do país, afirma especialista   

 

O princípio básico da sustentabilidade prega que o uso de recursos naturais para satisfazer necessidades do presente não pode comprometer a disponibilidade deles no futuro. Não se trata de um conceito novo, afinal está em discussão desde os anos 1960. Mesmo assim, ainda é considerado inovador no mundo dos negócios. O tema ganhou força nos últimos anos, e a nova geração de jovens clientes e empreendedores tem impulsionado o realinhamento de empreendimentos ao espírito de preservação e o nascimento de diversas empresas com essa finalidade. O Guia de produção e consumo sustentáveis do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) revela que o percentual de empresas, no mundo, que implementam ecoinovação cresce a uma taxa de 15% ao ano. No DF, pipocam organizações com essa postura.


Um exemplo são as diversas empresas que aplicam um sistema de drenagem conjugada para reduzir riscos de enchentes por causa da chuva. “Além de captar com melhor eficiência a água pluvial, essa tubulação tem a capacidade de filtrar resíduos sólidos, facilitando o reaproveitamento da água ou a devolução dela aos lençóis freáticos”, explica João Batista Chaves, gerente de Monitoramento Ambiental da consultoria Geológica.


“Muitas companhias estão nascendo com essa pegada e chegam ao mercado para solucionar problemáticas recentes. As mais antigas terão que se adaptar e passar a ter essa apreensão também”, observa Alexandre Luiz de Miranda Mac Dowell, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade (Abraps). Ele destaca que um negócio sustentável de verdade foca não apenas nos próprios processos produtivos, mas se responsabiliza por parceiros e fornecedores. “Se o empregador terceiriza um serviço de van ou trator, por exemplo, não dá para dizer que parou de emitir carbono. O problema não deixa de ser seu”, afirma.


Um dos pilares da sustentabilidade é o ciclo de vida do produto. “Isso quer dizer pensar no objeto desde a elaboração até o descarte. Privilegiar artigos cuja matéria-prima exige menos do meio e aqueles que terão maior durabilidade é o começo do processo. Depois disso, é preciso favorecer itens que possam ser reciclados”, defende Ana Maria Luz, presidente do Instituto GEA, focado em educação ambiental, reciclagem e coleta seletiva em todas as unidades federativas.

Contexto local
Segundo Flávia Firme, gerente da Unidade de Acesso à Inovação e Tecnologia do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Distrito Federal (Sebrae/DF), os empreendedores verdes de Brasília estão em vantagem com relação ao restante do país. “O mercado consumidor do DF tem uma grande preocupação com a sustentabilidade.” De acordo com a gerente, quem investir no ramo só tem a ganhar, uma vez que um empreendimento com esse foco pode ter custos reduzidos em comparação com iniciativas de grande impacto e, em alguns casos, uma logística mais simples. “Em termos de dificuldades, não é muito diferente. É preciso ter um bom plano de negócios e estar alinhado ao dia a dia dos clientes, o que, no caso das micro e pequenas empresas, é ainda mais fácil, já que elas estão bastante inseridas na comunidade”, explica.


Apesar da maior facilidade, três em cada 10 micro e pequenos empreendedores do Distrito Federal não sabem como proceder em relação à preservação do ambiente, e quase metade ainda não implementa nenhuma prática que incorpore o conceito. No entanto, para 97,6% dos donos de micro e pequenas empresas de Brasília, a sustentabilidade é uma questão importante. “Os donos de negócios ficam sabendo dessa demanda de alguma forma, e ela vem por meio do público”, diz Flávia.


Anízio Dutra Vianna, gerente da Unidade de Inovação e Sustentabilidade do Sebrae em Minas Gerais, avalia que adotar práticas sustentáveis para conquistar clientes é irreversível. “Temos uma nova geração convencida de que precisamos preservar o planeta, e as empresas são e serão ainda mais cobradas a fazer parte disso”, informa. “Os jovens interiorizaram muito melhor esses valores, cresceram aprendendo sobre isso”, concorda Ana Maria Luz, mestre em ciência ambiental pela Universidade de São Paulo (USP). “Na medida em que essa geração envelhece e ocupa os espaços da sociedade, aumenta a parcela de consumidores preocupados com o ambiente”, acrescenta. O maior exemplo dessa mudança e uma das pioneiras nesse sentido é a rede de varejo estadunidense Whole Foods, que vende produtos orgânicos e privilegia pequenos fornecedores desde 1980, como conta Anízio Dutra Vianna. “O fundador, John Mackey, é um dos idealizadores do capitalismo consciente, que prega que as empresas devem se guiar por um propósito maior que o lucro.”

Desafio
O empreendedor verde pode encontrar resistência para conseguir empréstimos e investimento. É o que aponta Fernanda Macedo, pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/Eaesp). “Cada investidor vê o aspecto de uma forma: alguns se baseiam em relatórios de sustentabilidade, outros demandam informações externas, querem visitar e que perguntas sejam respondidas”, esclarece. Entre os reconhecimentos que podem atrair investidores, Fernanda cita o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da BM&F Bovespa. Outros selos são o Aqua e o ISO 14001.

 
Palavra de especialista 
Não é tendência, é mercado 
 
A falta de educação e valores no ensino básico faz com que as faculdades formem caminhões de profissionais que entram no mercado para ganhar dinheiro — não interessa como. Só que isso gera uma perda enorme. Os profissionais precisam ter educação ambiental, e todas as pós-graduações deveriam investir nisso. A sustentabilidade é uma estratégia de longo prazo, deixou de ser tendência para ser demanda duradoura. Os consumidores cansaram de empresas que apenas produzem e estão interessados em companhias que gerem menos impacto ambiental, social e econômico. Assim, ganham espaço pessoas que empreendem com uma proposta “limpa”. E há um mercado muito grande a ser explorado a partir daí.

Fernando de Araújo Bueno, consultor em sustentabilidade, professor da IBE/FGV e diretor de Sustentabilidade do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Campinas 
 
Leia 
 Guia de inovação para sustentabilidade em MPE 
Disponível pelo link: bit.ly/1IOOwJx. A publicação é do Centro de Estudos em Sustentabilidade (Gvces). Reúne cases de 11 empresas que usaram inovação para enfrentar algum desafio da sustentabilidade. 
 
Empreendedores diferentes / Conheça negócios com pegada sustentável no DF 
 
Hélio Montferre
 
Mais rápido  livre de etróleo

O BSB Courier é um serviço de entregas que usa bicicletas como único meio de transporte. Organizada em forma de cooperativa, a empresa tem divisão igual dos lucros e das demandas entre os integrantes Yuri Prestes, Isaac Simoni, 26 anos; Alessandra Gusmão, 23; Lucas de Souza, 27; Mateus Baruci, 24; e Aline Henning, 22. O negócio existe há mais de três anos, foi o primeiro do ramo no DF e é o único ainda em atividade em Brasília. A ideia surgiu porque Yuri, morador de Ceilândia, cursava biologia no câmpus Darcy Ribeiro da UnB e fazia o trajeto de bike diariamente. Por isso, ele percebeu que fazer entregas em longas distâncias de magrela era possível. Segundo Yuri, uma encomenda partindo do Setor Comercial Sul até a ponta de uma das asas leva, no máximo, 20 minutos com um preço que varia entre R$ 8 e R$ 12. “Levamos o mesmo tempo que uma moto, com a vantagem de ser muito mais barato e com preocupação ecológica”, assinala. Os principais clientes são 10 empresas cadastradas no site da BSB Courier que pedem, principalmente, transporte de documentos, mas eles também recebem solicitações de pessoas físicas para buscar, por exemplo, exames médicos. Yuri afirma que muitos clientes têm medo de contratar o serviço por achar que demora muito, mas isso muda depois da primeira vez.
 
Marcelo Ferreira
 
 

Negócio de família

Há cerca de um ano, Adriana Mothé, 26, começou a desenvolver ao lado do pai, Edmar Mothé, 62, a ideia de um mercado sustentável. “Eu queria criar um negócio que aliasse cuidados com o planeta e com a saúde das pessoas, foi quando meu pai, que é empreendedor e dono da rede Mundo dos Filtros, teve a ideia de vender produtos a granel, baseado em experiências que vimos nos Estados Unidos e na Europa”, lembra. No mês passado, eles inauguraram o Bio Mundo, localizado no piso térreo do Boulevard Shopping, que comercializa produtos naturais. A loja usa cartões de apresentação de papel reciclado, sacolas de plástico biodegradável (para itens maiores), lâmpadas de LED e dá preferência a pequenos produtores da região. Os consumidores trazem vasilhames para levar os produtos alimentícios para casa. Em último caso, a loja fornece sacos de papel. Durante o planejamento, Adriana encontrou desafios financeiros. “Tudo o que compramos saiu mais caro. Tive que convencer meu pai de que cada detalhe era importante.” Entre prós e contras, ela avalia que a empresa tem dado bons resultados. “Desde a inauguração, o espaço está sempre cheio. Os clientes nos parabenizam pessoalmente e pela internet.”

 

Ana Rayssa
 

 

Oportunidades em restos eletrônicos

Além de evitar que metais pesados contaminem o solo, as 19 cooperadas da Central de Reciclagem do Varjão (CRV) garantem o aumento da renda familiar com a reciclagem de lixo eletrônico. “Nós recebemos de tudo. Coisas grandes, como CPU, notebook, celular, televisão, lanterna, rádio; e pequenas, como fones de ouvido e cabos em geral”, explica a catadora Viviane Alves, 31 anos, que fez um curso para desmontar os equipamentos oferecido pelo Instituto GEA para trabalhar no ramo. Depois de separado, o material é vendido para empresas de São Paulo, que exportam para a Bélgica, onde cobre, ferro, ouro, cádmio e outros metais voltam a se tornar matéria-prima. “Nós amamos esse trabalho porque dá uma renda muito boa, bem melhor que o papel”, reforça Maria de Souza, 49. O projeto na CRV começou há três anos e, já na primeira venda, as cooperadas conseguiram arrecadar R$ 35 mil pelo material. Confira pontos de descarte de lixo eletrônico no site: www.institutogea.org.br/lixo-eletroeletronico

 

 

 

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