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Metamorfose na carreira

Profissões devem se reinventar, especialmente para acompanhar revoluções da tecnologia ou do mercado. Segundo especialistas, o movimento pode partir dos próprios trabalhadores da área

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postado em 31/01/2016 12:35 / atualizado em 31/01/2016 18:33

Paula Braga /Especial para o Correio

Carlos Moura

Você provavelmente não se lembrará da última vez em que viu um vendedor de enciclopédias. As novas gerações também não devem ter precisado que uma telefonista completasse ligações, sequer devem ter conhecido alguém que trabalhasse como datilógrafo. Por fatores como o avanço tecnológico ou a redução no número de pessoas que demandavam o serviço, essas ocupações praticamente não existem mais. E elas não foram as únicas que avistaram o momento em que se tornariam obsoletas. A notícia boa é que, dependendo da função exercida, o caminho do esquecimento tem volta, e é possível incluir outras atividades na lista de tarefas, absorver as novas técnicas e definir áreas de atuação ainda não exploradas para manter a carreira no mercado.


“Dois movimentos fazem com que as profissões precisem se reinventar: o avanço da tecnologia, que impulsiona transformações no modo como as atividades diárias são feitas, e a interação entre o profissional e o público, que define a demanda pelo serviço”, explica a professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em gestão de pessoas Ida Fernandes. Os dois processos estão associados: quando a internet dá acesso aos mais diversos conteúdos, por exemplo, a quantidade de interessados em manter enciclopédias em casa diminui. Assim, a figura do vendedor que oferece o produto de porta em porta se torna desinteressante. “É um processo natural ter que se reconstruir dentro de um novo contexto tecnológico”, completa a especialista.


Do mesmo modo, quando as pessoas começam a fazer compras pela internet, as ocupações que promovem a divulgação de produtos, empresas e serviços em meios tradicionais ficam desatualizadas se não dominam o espaço em que a maior parte do público está presente. “A melhor maneira de se manter no mercado de trabalho é se especializar. Os profissionais muito genéricos tendem a ter menos espaço, já que as empresas buscam cada vez mais pessoas preparadas para lidar com demandas específicas. O ideal é, já na graduação, definir qual a área de interesse e onde quer atuar no futuro”, avalia Lúcia Coletto, consultora da empresa de recursos humanos Employer.


“Aqueles que trabalham com comunicação, por exemplo, estão sujeitos a exigências que vão além do domínio técnico, como criatividade e velocidade para atuar na internet. O processo de reinvenção das áreas de publicidade, marketing, jornalismo e outros começou e deve perdurar nos próximos anos”, destaca Lúcia. Marketeiros e publicitários que antes atuavam na definição de planejamento estratégico da empresa e executavam o plano de divulgação e vendas sentiram na pele as mudanças. Eles continuam tendo as mesmas atribuições, mas precisaram incorporar novas plataformas: sites e mídias sociais.


“O aspecto digital se tornou central na vida do consumidor, e isso impactou diretamente diversas carreiras na área de comunicação. A principal transformação é que esses profissionais passaram a prever ações em um meio diferente, com as quais o consumidor possa interagir, o que originou a especialização de marketing digital”, destaca a consultora e pesquisadora em mídias sociais Carolina Terra. Segundo ela, o ramo tem atraído ainda outras profissões relacionadas, como as de tecnologia da informação (TI), logística e administração. “A mudança nessas ocupações vem com o perfil da geração digital. A tendência é que a comunicação seja cada vez mais integrada, e os trabalhadores nesse meio busquem especialização e não graduação, já que várias atividades estão imersas nessa plataforma”, explica.


A agência de marketing digital Mix7 do empresário Tiago Oziel de Paiva, 28 anos, reflete a reinvenção de diversas profissões no meio on-line. A empresa foi aberta em 2009 e, entre os 12 colaboradores, há publicitários, jornalistas e profissionais de TI. Já o proprietário é graduado em administração. “Nesse meio, o portfólio e cursos de extensão contam mais do que a graduação em si. As empresas têm interesse no marketing digital porque o valor de investimento é baixo, e o retorno é extremamente mensurável”, conta Tiago. Segundo o empresário, a área passou por mudanças nos últimos anos. “Eu administrava um cyber café e a agência começou quando avistei a possibilidade de realizar vendas on-line para empresas. De lá para cá, comecei a me dedicar ao estudo do marketing digital, e outras ferramentas de divulgação na internet surgiram”, afirma. Entre os serviços oferecidos pela empresa atualmente estão a inserção de links patrocinados em sistemas de busca, criação de sites e gerenciamento de redes sociais, entre outros.

 

Transformação em curso Bibliotecário einventado


Arquivo Pessoal

 

A imagem do bibliotecário que tinha a função única de ajudar a encontrar os títulos no acervo de uma instituição caiu por terra. Atualmente, a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) define a profissão como responsável por disponibilizar informações em qualquer suporte, gerenciar centros de documentação e dados, além de redes e sistemas de informação, entre outros. Para isso, a profissão também precisou se atualizar em relação aos avanços tecnológicos. Hoje, os profissionais precisam disponibilizar acervos em diferentes mídias. “Por conta da Lei nº 12.244/2010, que define que todas as instituições públicas e privadas devem contar com bibliotecas, o mercado foi ampliado, e muitos jovens começaram a buscar a profissão. Isso trouxe a mudança no perfil da atividade”, afirma a presidente do Sindicato dos Bibliotecários, Cientistas da Informação, Historiadores, Museólogos, Documentalistas, Arquivistas, Auxiliares de Biblioteca e de Centros de Documentação no Estado de São Paulo (SinBiesp), Vera Stefanov.


Há 30 anos na profissão, a bibliotecária Helena Celeste Vieira, 49, é coordenadora da Biblioteca do Senado Federal. Ela concluiu a graduação na Universidade de Brasília (UnB) em 1986. Ela observou mudanças na carreira nos últimos anos. “Com a enorme gama de informações nas redes e na internet, o profissional bibliotecário é cada vez mais necessário para que a informação precisa, objetiva e confiável seja localizada. É natural que, com a era digital, as bibliotecas sejam afetadas”, destaca. Entre as atividades que ela exerce diariamente estão acompanhamento de processos da biblioteca, pesquisas bibliográficas e de circulação, manutenção e conservação do acervo e gerenciamento da Rede Virtual de Bibliotecas, entre outras.

 

Fique atento

O que fazer ara continuar no mercado?

Segundo o consultor de carreiras do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC) Marcio Codogno, o movimento para que a profissão não se torne obsoleta deve partir dos trabalhadores da área. Confira o que pode ser feito para que sua carreira continue sendo demandada:
— Esteja a par de novas tecnologias. O mercado de trabalho exige, cada vez mais, pessoas antenadas e capazes de se adaptar a mudanças. “É essencial que o profissional consiga perceber conflitos no ambiente corporativo e tenha iniciativa para resolvê-los”, explica Marcio.


— Conheça a necessidade das pessoas que precisam dos seus serviços. Um segmento que começa a ganhar espaço pode representar uma nova área de atuação.


— Procure desenvolver-se afetivamente e comportamentalmente, criando relacionamentos profissionais e desenvolvendo a inteligência emocional.


—  Busque se aprimorar. “É preciso sempre fazer a pergunta ‘o quanto eu posso ser melhor?’. O ambiente social sofre mudanças, mas a permanência no mercado começa com atitudes individuais dos profissionais”, aconselha Marcio.

 

Em transição / Confira outras profissões que estão se adaptando para permanecer no mercado de trabalho

 

Muito mais que atender telefone

Antes com atividades resumidas a atender o telefone e organizar a agenda do assessorado, a ocupação de secretário ganhou novas atribuições ao decorrer dos anos. “Antes era muito mais uma função e, atualmente, é de fato uma profissão”, explica a presidente do Sindicato das Secretárias e dos Secretários do Distrito Federal (Sisdf), Normélia Alves. Por conta da tecnologia (que facilitou a organização dos compromissos pessoais), as incumbências do profissional mudaram. Os graduados na área assessoram executivos, elaboram documentos, controlam a correspondência física e eletrônica, auxiliam na execução de tarefas administrativas e reuniões, prestam serviços em idioma estrangeiro, organizam eventos e viagens, entre outras atividades. Há ainda os técnicos, que revisam documentos e transformam a linguagem oral em escrita.


Maria Carla Lobato

No currículo de Simara Rodrigues, 37, a parte referente à formação acadêmica é extensa. Além do curso superior em secretariado executivo, concluído em 2003 na Upis, ela fez especializações em pensamento estratégico, gerência de projetos, relações institucionais e iniciou um mestrado em educação, que deve ser retomado no próximo ano. Simara também concluiu cursos em dois idiomas: espanhol e inglês. Atualmente, assessora o presidente e quatro diretores da Fundação Sistel de Seguridade Social, coordena um curso de bacharelado numa faculdade privada e é proprietária de uma empresa de prestação de serviços de secretariado executivo. Para ela, a chave do sucesso está na especialização. “Os assessorados têm necessidades diferenciadas. Se você vai trabalhar com um executivo de fundo de pensão, por exemplo, vai precisar conhecer um pouco sobre o tema”, afirma.

 

Arquivista fora do papel
O arquivista seguiu um caminho semelhante ao do bibliotecário. Antes habituado à documentação de arquivos institucionais e pessoais que tinham o papel como suporte, agora esse profissional também precisou aprender a documentar e conservar registros em mídias como CDs e computadores. “O arquivista hoje organiza toda a documentação, que pode estar digitalizada ou não, assessora em banco de dados e trabalha para que a informação não seja perdida”, explica Vera Stefanov, presidente do SinBiesp. “Há profissionais que atuam em agências de publicidade, por exemplo, organizando o arquivo de imagens e filmes que podem ser requisitados para a produção de uma propaganda”, completa a presidente.


Minervino Júnior

 

Darlan Eterno, 33, é arquivista na Câmara dos Deputados desde 2009. Ele trabalha no Setor de Planejamento e Normalização Arquivística e tem como função orientar os demais funcionários para que o arquivo de outras áreas seja utilizado de maneira eficaz e elaborar normas para garantir o bom andamento do setor. “Muita gente acha que esse profissional é aquela pessoa que vai no departamento, busca os documentos e armazena. Mas existem outras funções na área. Todas as pessoas que lidam com informação precisam conhecer uma metodologia de trabalho para que aquele registro seja preservado. Há pessoas responsáveis por repassar esse conhecimento”, explica Darlan, que concluiu a graduação na área em 2003 na Universidade de Brasília (UnB). “Há mercado de atuação, e muitos concursos abrem vagas na área”, conta ele, que atuou no Arquivo Nacional, na Agência Nacional de Águas (ANA) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT).

 

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