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Por um caminho ecológico

O meio usado para ir ao trabalho pode gerar mais ou menos impacto ambiental cabe aos profissionais e às empresas encontrarem soluções e viabilizarem alternativas melhores. Segundo especialistas, políticas de mobilidade pública no DF avançam a passos lentos

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postado em 31/01/2016 13:21 / atualizado em 31/01/2016 18:33

Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

Jéssica Gotlib

A sustentabilidade aplicada aos transportes vai além da ideia de preservar a natureza. “É a utilização do espaço de forma equilibrada para garantir a movimentação de todos, além da conservação da natureza”, explica o professor Pastor Willy Gonzales Taco, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental e do programa de pós-graduação em transportes da Universidade de Brasília (UnB). O tema é ratificado pelo acordo ambiental proposto pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O documento estabelece que, até 2030, os países “proporcionem acesso a sistemas de transporte seguros, sustentáveis e a preço acessível”.


O Brasil parece caminhar na contramão da tendência. Apesar de 40,3% dos deslocamentos no país serem de veículos não motorizados (de bicicleta ou a pé), essa opção não é feita por causa da preocupação ambiental. Os dados de 2015 são do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana 2003-2013. De acordo com o superintendente da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), Luiz Carlos Mantovani Néspoli, o número aponta a deficiência do sistema.
“O resultado decorre da carência de transporte público (itinerários e frequência) e dos custos envolvidos (tarifa), inacessíveis a uma parte da população. Se o volume de viagens a pé fosse em virtude de melhores configurações de cidades — compactas e com melhor distribuição entre moradias e empregos —, aí sim seria algo a comemorar.” Ainda de acordo com a pesquisa, em 2003, o transporte coletivo era o segundo mais usado no país, com 29,8% do total de viagens. Dez anos depois, ele foi substituído pelo particular, escolhido em 30,7% dos trajetos. “O grande vilão da poluição é o transporte individual. Quanto mais gente viajar de coletivo, e menos automóveis circularem nas vias, mais ambientalmente sustentável será a cidade”, argumenta Mantovani Néspoli.

 Indo à firma
Quando se fala em locomoção até o trabalho, o professor Pastor Willy Gonzales Taco explica que é necessária uma ação conjunta entre empregados e gestores para que seja feito o melhor possível em prol da preservação ambiental. “O funcionário precisa querer, se colocar à disposição, propor soluções de menor impacto. Ao mesmo tempo, a empresa deve estar aberta para negociar essas alternativas e prover a infraestrutura necessária.”


Carlos Moura

Na Câmara dos Deputados, o projeto Mobilidade Sustentável (MOB), criado em 2012 pelo Comitê de Gestão Socioambiental
(EcoCâmara),oferece infraestrutura para os funcionários e estimula a adoção da carona. “Foi uma via de mão dupla, tínhamos uma pequena demanda, que cresceu bastante conforme melhoramos a oferta”, explica Luiz Vicente da Costa Braga, coordenador do EcoCâmara.


Rômulo Zaidem, 31 anos, mora em Vicente Pires, trabalha como técnico de relacionamento numa empresa que presta serviços de tecnologia da informação para a Câmara dos Deputados. Há seis meses, decidiu reduzir a pegada que deixa no planeta e ir de bicicleta para a Esplanada dos Ministérios de duas a três vezes por semana. “Eu pedalava por esporte e descobri que a Câmara oferecia armários e chuveiro para os funcionários, foi quando resolvi testar o trajeto”, lembra. Rômulo conta que a preocupação com o ambiente veio depois de participar de grupos de ciclismo que discutem o assunto e de ver palestras do projeto MOB. O maior empecilho é a segurança, já que só existem ciclovias em 30% do percurso até o Congresso Nacional. “Tento me precaver do jeito que posso, uso sinalização na bike e roupa com partes refletoras, ainda assim, o risco de acidentes é grande.”


 

 

Além da infraestrutura de apoio ao ciclista, o MOB implementou, há um ano, o projeto carona solidária, que estimula servidores a irem juntos ao trabalho. O programa tem 17 vagas reservadas para quem divide o veículo, e as viagens são combinadas via intranet. “Ouvi falar do projeto e me interessei. Acho uma ótima iniciativa. Com o passar dos anos, a tendência é que o número de pessoas aumente, porque é um jeito seguro de deixar o carro em casa”, comenta Jurema Bassae, 55, editora do site infantil da Câmara dos Deputados.

Faltam incentivos
Coordenador de um grupo de pesquisa que está criando um aplicativo de caronas, o professor da UnB Pastor Willy Gonzales Taco garante que compartilhar o carro com o vizinho diminui bastante o número de veículos nas ruas. “Quando falamos sobre o projeto, temos boa recepção, mas há uma questão cultural a ser mudada e isso não vai ocorrer rapidamente. É preciso que o tema ganhe visibilidade, com incentivos do poder público”, diz.


Segundo ele, a ideia por trás dos modelos sustentáveis não é banir os carros nem criar dificuldades para que as pessoas tenham veículos próprios, mas promover o uso racional deles, esclarece o professor da UnB Pastor Willy Gonzales Taco. “O consumo de energia, renovável ou não, precisa se dar de forma balanceada, privilegiando o que é realmente necessário. Para isso, é necessário o envolvimento de várias instâncias da sociedade, da esfera privada à global”, informa. Ele avalia que Brasília está muito aquém do que se espera de uma capital, pois tem um processo de gestão pública dos meios de transporte altamente burocrático, o que dificulta inovações.

 

Integração a passos lentos
O caminho para substituir os carros individuais é longo e exige grande esforço para viabilizar a circulação das pessoas pelos vários meios de transporte. Brasília começou a encarar os primeiros degraus nesse sentido, mas ainda de maneira muito estática, segundo o professor Pastor. “No Canadá, existe um bilhete sustentável que a pessoa compra e usa em vários veículos com desconto e vale por um ano. Isso facilita o engajamento”, afirma. Segundo o pesquisador, é preciso tornar o processo de integração mais dinâmico em Brasília, dando mais chances de escolha às pessoas. “O cidadão só tem opção de algumas empresas de ônibus e metro. Não dá para fazer uma parte do caminho de bicicleta e o resto de ônibus”, exemplifica.


Quando o transporte coletivo é mais interessante que o individual, os cidadãos acabam optando por ele, mesmo que não tenham em mente a questão ambiental. Fernando Martins, 39 anos, servidor da área de contabilidade do Ministério da Saúde é prova disso. Enquanto morou em Taguatinga, não usava o metro, porque a estação ficava muito longe de casa para ir a pé e demorava demais para chegar de carro ou ônibus. Há três anos, ele se mudou para Samambaia e vai ao trabalho sobre trilhos todos os dias. “É o melhor transporte na minha região. De carro, gasto 1h45 nesse percurso, e de metrô são apenas 50 minutos. Sem falar na economia de gasolina, de tempo, de saúde. É muito cansativo dirigir com trânsito intenso”, conta.


Ele não tomou a atitude pensando em preservar a natureza, mas viu que usar menos o carro faz diferença quando comparou os gastos com gasolina. “Só de combustível eram entre R$ 500 e R$ 600 por mês, enquanto de metro pago R$ 160 pelos bilhetes. Imagino que a proporção de poluentes seja parecida.” Para trocar de veículo, a flexibilidade dos horários no trabalho foi essencial. “Precisei mudar um pouco porque quis evitar o horário de pico. Meu turno era das 9h às 18h; hoje, entro às 7h e saio às 16h. Só pude fazer essa opção porque a chefia é compreensiva, não se importam com horários desde que eu cumpra as oito horas diárias e resolva todas as pendências”, diz.

 

 

O problema das cidades no Distrito Federal

Aqui, o trânsito é intenso no sentido Plano Piloto pela manhã e em direção às outras regiões administrativas à tarde. Esse movimento, conhecido como pendular, complica a gestão de transportes, pois sobrecarrega o sistema. “O modelo adotado em Brasília não está adequado para a exigência existente. Ele é quase todo baseado em ônibus, que transporta poucas pessoas. Esse tipo de movimento exige veículos com grande capacidade de deslocamento de massa, como trens e metro”, explica o geógrafo Aldo Paviani (foto), professor emérito da UnB e diretor de Estudos Urbanos e Ambientais da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Deura/Codeplan). Uma das saídas, seria estimular atividades econômicas nas outras regiões administrativas.


“O ideal é que um morador de Águas Claras trabalhe em Taguatinga, por exemplo. Com isso, você ocupa menos as vias, economiza combustível e energia e dá mais qualidade de vida aos moradores”, afirma. O Plano Piloto concentra 43% das oportunidades de emprego, segundo dados da Codeplan, mas algumas cidades, como Taguatinga, Ceilândia, Samambaia e Gama, conseguem reter um pouco melhor os habitantes. “Outros lugares como Brazlândia, Planaltina e Sobradinho ainda precisam ser estimulados”, compara. Para ele, uma alternativa seriam políticas públicas que apoiassem a implantação de consultórios médicos, laboratórios e outros serviços nessas regiões.

 

Jovem de Ceilândia epresenta o Brasil na ONU
 Ruth Ituni, 22 anos, cursa relações internacionais no Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) e foi escolhida para falar pelo país no Fórum da Juventude 2016 do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (Ecosoc). O evento será amanhã (1º) em Nova York (EUA). Ruth vai debater maneiras de implantar as propostas da Agenda de Desenvolvimento Sustentável 2030.

 

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