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ENTREVISTA THAIS ALVES »

Os segredos da arte de se comunicar

Em 35 anos de carreira, a coach treinou mais de 50 mil pessoas em expressão verbal, entre profissionais, empresários e políticos. Ela avalia que os brasileiros ainda não se deram conta de que a habilidade é essencial para a carreira

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postado em 31/01/2016 13:57 / atualizado em 31/01/2016 14:25

Helio  Montferre

Mãe da cantora Tiê e neta da atriz Vida Alves, famosa por ter protagonizado o primeiro beijo em uma telenovela (em Sua vida me pertence, transmitida pela TV Tupi entre 1951 e 1952), Thais Alves não puxou os dotes artísticos da família. Na verdade, era gaga e sofreu boa parte da vida com a timidez. No afã de superar a introversão, acabou estudando comunicação a fundo até se desenvolver na área e passar a viver disso. Há mais de 35 anos, ajuda empreendedores, executivos e políticos a melhorarem a linguagem verbal. Thais escreveu oito livros sobre o assunto e treinou mais de 50 mil alunos. Em entrevista, a jornalista, coach de comunicação e imagem e consultora de programas da Jovem Pan e da TV Gazeta falou sobre a comunicação em tempos de crise, avaliou as habilidades dos brasileiros quando o assunto é expressão e deu dicas para jovens profissionais. Confira:

Os brasileiros costumam e comunicar bem?
Em relação a estrangeiros, o brasileiro é mais simpático, mais interessante, mais amoroso, mais tímido e mais inseguro. Diferentemente de países como Estados Unidos, França e Finlândia, em que a escola oferece aulas de oratória, aqui não temos curso de fala. A gente se acha extrovertido porque sai no carnaval, mas, na hora de pedir aumento, não tem coragem. Na faculdade, o problema persiste: essa habilidade não é explorada, o que deixa os recém-formados expostos a muito sofrimento, pois se comunicar é uma necessidade básica.

As pessoas têm noção da mportância da comunicação?
Não. Isso fica em segundo plano. Ainda no século 21, poucos percebem o valor disso. A gente faz curso de tecnologia, de tudo, menos de comunicação, uma ferramenta primordial para a atualidade. Aí as pessoas sentem na pele as consequências: muitos veem o colega que fala melhor sendo promovido enquanto ele não é por ser tímido. O mundo está precisando de jovenzinhos no começo de carreira que sejam mais assertivos. Mas também não é bem-visto ser falante demais. É preciso acertar na medida e com calma. Quando a gente se desespera, perde a lucidez, fala o que não deve na hora errada.

Em processos seletivos e ntrevistas, como o ovem pode se portar?
Em seleções de trainee que acompanhei, vi que as pessoas deixam de ser contratadas não pelas competências, mas por causa de algum pecado que cometeram ao falar, como ser inseguro, prolixo, chegar criticando tudo ou até ter confiança demais. Ele não pode falar tudo o que quer, é preciso pensar antes e se manter calmo. A expressão corporal também tem valor. Para se fortalecer, valem exercícios como boxe, dança. Por fim, se não foi escolhido, não pode terceirizar a culpa — dizendo que não foi chamado por não ser extrovertido, por exemplo, afinal talvez esse candidato estivesse passando uma imagem frágil. Especialmente em cargos altos, não dá para contratar alguém que não sabe falar. Então, é preciso se preparar nesse sentido.

Quais são as maiores ificuldades da expressão verbal?
Falta consciência do controle da emoção. Mesmo atores e apresentadores, têm o ritmo do batimento cardíaco alterado quando ficam em frente às câmeras. O mesmo é válido para o mundo corporativo. Isso exige treino. Na comunicação, todo o nosso interior vem à tona, mesmo que sem palavras: a voz treme, a pessoa sua, trava. O profissional não conta para o outro sobre a própria insegurança, mostra.

Como você conseguiu superar traumas para trabalhar com comunicação?
Eu sou de uma família de intelectuais, jornalistas e de pessoas de tevê, mas era gaga (porque o nervosismo faz com que a gente tenha contrações musculares), tímida e trocava letras e linhas — descobri muito tarde que tinha dislexia. Eu cresci me sentindo burra, um patinho feio. Foi um trauma.  Mesmo assim, fui trabalhar em televisão. A timidez é um traço de personalidade, que você vai domar ou não. Nesse processo, não adianta tentar ser aquilo que você não é porque, se não, não dura (a gente vê muito isso no mundo político). O que falta hoje em dia é conhecer a si mesmo, quais são os seus talentos. Os professores não ensinam a ter poder pessoal.

O que é poder pessoal?
É saber quem você é, identificar seus pontos fracos e fortes. Conhecer a sua marca e dominar o próprio perfil para usar isso a seu favor. As pessoas também têm marcas e, se você não se conhece, pode transmitir seu lado ruim, como a insegurança.

Como fica a comunicação num momento de crise no trabalho, m que há mais cobranças por resultados?
Um bom líder percebe que cada um é de um jeito para conseguir tirar o melhor de cada um. Por meio da comunicação, o gestor tem que ser como o maestro de uma orquestra, regendo pessoas com diferente instrumentos e saber como adequar o indivíduo certa para a função correta: não adianta pedir para quem toca baixo ir para a bateria. Os líderes também não costumam perguntar o que o liderado quer fazer. É preciso entender isso para que as pessoas rendam mais.

A hora em que o empregado quer falar com o chefe também pode ser complicada?

Sim. Ele precisa se preparar ficando calmo, forte (com a coluna no lugar, atento), focado e com coragem. O líder também tem que deixar a porta aberta ao time, para que qualquer crítica ou problema chegue para ele e não ao público externo primeiro — para não manchar a reputação dele nem a da empresa.

 

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