SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

GUIA DA CARREIRA »

Ocupação em alta

Apesar de enquadrado como trabalhador doméstico, as funções de um cuidador são diferentes: incluem auxílio em atividades diárias. Segundo profissionais, outros dois ingredientes entram na lista de afazeres: amor e carinho

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 07/02/2016 12:39 / atualizado em 10/02/2016 17:51

Paula Braga /Especial para o Correio

Breno Fortes

“Fui a uma consulta, e a enfermeira me perguntou se eu sabia em qual ano estávamos. Pensei e respondi: 1914. Ela me olhou com uma cara muito assustada”, lembra, aos risos, Dinorah Miranda Netto, 79 anos. “Naquele momento, percebi que precisava melhorar”, afirma. Há sete meses, ela conta com o acompanhamento de uma cuidadora por recomendação médica. Atualmente, Lucidelma Rodrigues, 40, assiste a idosa, diagnosticada com neuropatia periférica — doença que pode afetar os músculos e causar fraqueza. A relação entre as duas ultrapassa a de patroa e funcionária. “É uma companhia, uma amizade, não somente comigo, mas também com meus familiares”, ressalta Dinorah. Luci (como a cuidadora é chamada pela assistida) é responsável por acompanhar as noites de Dinorah, que também participa de terapias ocupacionais com a profissional.


“Há algum tempo, eu não conseguia usar nem o andador. Tive que ir para a cadeira de rodas. Depois que comecei esse acompanhamento com a Luci e com uma psicóloga, sinto que melhorei muito”, afirma. “É um trabalho mais afetivo do que técnico”, completa Luci, que é técnica em enfermagem. Depois de atuar com atendimentos em Unidades de Terapia Intensivo (UTI), ela prestou assistência domiciliar a pacientes para, então, optar pelo trabalho de cuidadora.

Área em expansão
A procura por esse tipo de profissional tem crescido nos últimos anos. O aumento do público justifica a expansão: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a estimativa era de que a população com mais de 65 anos no país representasse 7,90% do total no ano passado, o que corresponde a mais de 16 milhões de pessoas. No mesmo período, no Distrito Federal, os idosos eram 6,17% da população (179.845 indivíduos). O aumento do número de cidadãos da terceira idade continuará acelerado: a previsão é de que, em 2030, 13,44% da população seja anciã. Em Brasília, a expectativa é de que 11,68% tenham mais de 65 no mesmo ano.


“A busca por cuidadores é muito grande. Muitas vezes, o familiar não está preparado para o envelhecimento do parente, ou a pessoa mais velha adoece. É função desse trabalhador dar apoio ao assistido, auxiliar nas atividades diárias e fazer a intermediação entre a família e os profissionais de saúde, já que é responsável por cuidar do doente e não da doença”, destaca a integrante da Associação Nacional de Gerontologia (ABG) Zilda Sanchez, que estima que existam cerca de 2 mil trabalhadores na área no DF.


As funções devem estar relacionadas ao idoso, por isso, o trabalhador não deve aceitar dar faxina na casa ou cozinhar para todos os moradores. “Ele pode assumir algumas tarefas, como preparar um suco, um chá, mas não é correto que a família espere que ele cuide de toda a casa. As atividades dele devem ser esclarecidas e acordadas no momento do contrato”, destaca a professora e mestre em gerontologia Vera Terezinha Silveira da Silva, que participou da consolidação dos primeiros cursos de cuidadores oferecidos pelo Governo do Distrito Federal. Segundo ela, o trabalhador, mesmo o que passou pelo curso de formação, não está apto a administrar medicação intravenosa ou medir pressão e temperatura — a não ser que tenha feito capacitação em saúde.

 

Marcos Simões de Souza, 27, trabalha na área há um ano. Além do curso de especialização como cuidador, ele concluiu formações de brigadista e socorrista. Atualmente, assiste um casal de idosos. “As funções acabam indo além do cuidado diário. Algumas vezes, fazemos a figura de um filho que não pode estar presente, de conselheiro. Além de auxiliar nas atividades diárias, damos afeto, atenção e carinho”, afirma.

 

Quanto ganha um cuidador?

Segundo o Site Nacional de Empregos (Sine), desenvolvido pela empresa de recursos humanos Employer, a remuneração do cuidador de idosos varia entre R$ 998,30 (para aqueles com até dois anos de experiência e que trabalham em empresas de pequeno porte) e R$ 2.514,28 (no caso de profissionais com mais de oito anos de experiência e que atuam em organizações maiores).

 

Funções diferenciadas

Há enfermeiros e técnicos atuando como cuidadores, mas a formação e as atribuições de cada um são diferentes. Confira o que diz a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) sobre os ofícios:

Cuidador — cuida de bebês, crianças, jovens, adultos e idosos, zelando por bem-estar, saúde, alimentação, higiene pessoal, educação, cultura, recreação e lazer do assistido. O profissional deve ter concluído curso de formação na área.

Enfermeiro — presta assistência ao paciente, coordena, planeja ações e audita serviços de enfermagem e perfusão. Implementa ações para a promoção da saúde junto à comunidade e realiza procedimentos em hospitais. Precisa ter passado por curso superior.

Técnico ou auxiliar em enfermagem — desempenha atividades técnicas em várias áreas. Presta assistência ao paciente zelando por bem-estar, administra medicamentos e desempenha tarefas de instrumentação cirúrgica. Efetua registros e elabora relatórios. Deve ter curso técnico na área.

 

Buscando a regulamentação

 

Minervino Junior

Apesar do destaque que o profissional que se dedica ao cuidado do idoso tem ganhado no mercado, a atividade não é regulamentada por lei, mas integra a Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho e Emprego (CBO/MTE). Quem atua no ramo é considerado trabalhador doméstico, mesmo exercendo funções distintas. “Há diferença entre as atividades. O cuidador dá assistência nas rotinas de higiene, locomoção, alimentação e administração de medicamentos, respeitando a prescrição medica, além da prestação de apoio emocional para a pessoa cuidada. Ele não tem que zelar da casa. Alguns clientes ainda têm uma visão equivocada da ocupação”, explica Zilda.


Por estarem enquadrados nessa categoria, os cuidadores de idosos foram contemplados pelas mudanças trazidas pela Proposta de Emenda à Constituição nº 72/2013, conhecida como PEC das Domésticas. A legislação assegurou diversos direitos aos trabalhadores, como jornada máxima de 44 horas semanais (e até oito horas diárias), seguro-desemprego, pagamento de adicional noturno e de hora extra, além de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Após as alterações na legislação, muitas famílias deram preferência à contratação de empresas terceirizadas para não precisarem lidar com os encargos trabalhistas da contratação direta. A empresária Carla Rodrigues, da Home Angels, percebe aumento na procura do serviço com essa motivação: “Muitas pessoas acabam preferindo a empresa, já que as atribuições trabalhistas ficam por conta de quem contrata o funcionário”.

Para virar lei
O senador Waldemir Moka (PMDB/MS) é autor do Projeto de Lei n º 4.702/2012, que dispõe sobre o exercício da profissão de cuidador de pessoa idosa. “Nós vamos ter cada vez mais idosos, o Brasil caminha para isso. A figura desse trabalhador é cada vez mais exigida, o que torna a regulamentação ainda mais importante”, destaca. Entre as medidas que o projeto pretende determinar, estão as exigências de que o profissional tenha, pelo menos, 18 anos, ensino fundamental completo e curso de cuidador de idosos. Caso a lei entre em vigor, aqueles que exercem a função há, no mínimo, dois anos serão dispensados dos requisitos, desde que concluam o curso nos cinco anos seguintes.


Aprovado na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado Federal em 9 de novembro de 2012, o projeto foi remetido para apreciação na Câmara dos Deputados, onde tramita na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF) em regime de prioridade. O Projeto de Lei do Senado nº 57/2014, também de autoria de Moka, visa alterar a Lei nº 9.250/1995, para autorizar a dedução das despesas com cuidadores domiciliares de idosos do Imposto de Renda das Pessoas Físicas. A proposta teve parecer favorável do relator na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e aguarda prosseguimento.

 

Onde se profissionalizar / Confira instituições que oferecem curso de cuidador de idoso

 

Instituto Federal de Brasília (IFB)
O curso de cuidador de idosos é oferecido no câmpus São Sebastião. As turmas são semestrais, e o próximo edital está previsto para maio. O curso tem duração de seis meses, e o estágio é opcional. Informações: ifb.edu.br.

Promolar
A próxima turma está prevista para a segunda quinzena de fevereiro. O curso tem duração de três meses, incluindo 20 horas de estágio supervisionado em clínicas de repouso. Os interessados podem fazer a reserva de vaga pelo site www.promolar.com.br ou comparecer ao Centro de Formação Profissional Promolar (Setor de Diversões Sul, Edifício Venâncio Junior, Bloco M). O investimento é de R$ 299. Informações: 4063-7028.

Acvida
A instituição oferece formação presencial e capacitação continuada on-line. O curso presencial é composto por 13 módulos semanais, que totalizam 193 horas/aula (incluindo 40 horas de estágio). O valor do curso é de R$ 1 mil. As aulas ocorrem no Programa Providência (SGAS 601, Conjunto B). A capacitação on-line custa R$ 199, e a inscrição pode ser feita pelo site www.acvida.com.br/cursos. Informações: 3349-2079 /
3273-9083.

Senac
O curso faz parte da programação do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial do Distrito Federal (Senac-DF), mas não está sendo oferecido neste trimestre. A última turma de cuidador de idoso ocorreu em agosto, pelo valor de R$ 795. Informações: www.senacdf.com.br / 3313-8877.

Escola técnica de saúde e Brasília (Etesb)
A próxima turma está prevista para 9 de março e será oferecida somente para servidores da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF). O curso é gratuito, com aulas que duram cerca de dois meses. Há previsão, neste ano, de abertura de cursos para a comunidade, ainda sem data confirmada.
Informações: 3325-4967.

Coordenação da Promoção de Direitos da Pessoa Idosa
A organização, vinculada à Secretaria de Estado de  Políticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direito Humanos do Distrito Federal, promove gratuitamente o curso de cuidadores e cuidadoras de pessoas idosas, ainda sem data confirmada
para este ano. Informações: codipi.gdf@gmail.com / cdi.df@hotmail.com.

Intercâmbio no Canadá
Há ainda formações no exterior, onde a ocupação é mais reconhecida entre profissionais de saúde. A Canada Intercâmbio, agência de educação focada no eixo Brasil-Canadá, promove intercâmbio para a formação em health care assistant (especialistas em cuidados paliativos). A próxima turma começa em 7 de março deste ano e termina em 19 de maio de 2017. O investimento é de R$ 18.500, incluindo o curso completo e quatro semanas de acomodação, com duas refeições ao dia. É necessário ter concluído o ensino médio, ser maior de 19 anos, apresentar atestado de antecedentes criminais tirado menos de seis meses antes do início do curso, teste de triagem de tuberculose feito há menos e três meses e vacinas atualizadas, além de comprovar proficiência em inglês. Interessados devem procurar a agência da Canada Intercâmbio em Brasília, no endereço SHIN, A 5, Bloco B1, Sala 202, no ago Norte. Informações: www.canadaintercambio.com / 3030-5300 / 7818-9739.

 

Exigências para rabalhar

A função de cuidador ainda não é regulamentada (veja Buscando a regulamentação), o que dificulta estabelecer pré-requisitos formais para exercer a ocupação. Na prática, as famílias que necessitam do serviço ou as empresas que contratam exigem que o trabalhador tenha feito um curso de capacitação na área. “Além disso, é necessário ter concluído o ensino médio e demonstrar experiência na área”, afirma Carla Rodrigues, 40. Ela é franqueada da Home Angels, empresa especializada em serviços de cuidadores de pessoas. “Muitos dos que nos procuram são filhos ou parentes que não têm tempo para as necessidades do indivíduo de mais idade, por isso preferem o cuidador. É mais vantajoso o idoso permanecer na residência dele, próximo da família. Ele pode apresentar melhoras”, explica a empresária.


Teresa Cristina Lyra é coordenadora dos cursos de formação na área de cuidados com idosos na Escola Técnica de Saúde de Brasília (Etesb). Ela destaca que, além dos conhecimentos na área, é necessário reunir qualidades físicas e de personalidade para exercer a profissão. “No curso, a pessoa aprenderá a oferecer os cuidados gerais, como banho, alimentação; conhecer o ambiente em que o idoso mora e zelar pela integridade dele, já que as quedas são a causa mais frequente de internação e morte de pessoas na terceira idade; além dos cuidados em ministrar a medicação prescrita pelo médico, manter a dieta do assistido equilibrada e trabalhar também a parte cognitiva, para que o assistido não fique ocioso durante todo o dia”, destaca.


“O ideal é que o cuidador tenha vontade de trabalhar com pessoas, paciência, flexibilidade e organização. Também é aconselhável que seja alguém com pouco mais de 20 anos e que tenha condição física para mover um idoso acamado”, completa Teresa. Nos casos em que o cuidador é alguém da família, ela destaca que é menos comum o trabalho com carteira assinada, mas é importante que o parente tenha folgas e seja instruído para lidar com o familiar mais velho.

publicidade

publicidade