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O segredo é falar e ouvir

Apesar de jovens, profissionais das gerações Y e Z apostam em conversar para resolver insatisfações no ambiente de trabalho, o que demonstra maturidade, segundo especialistas. A comunicação também é o segredo para gestores conseguirem manter na equipe os talentos dessa faixa etária

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postado em 21/02/2016 13:09 / atualizado em 21/02/2016 13:19

Jéssica Gotlib

Problemas são comuns em qualquer ambiente de trabalho, mas é a forma como os profissionais lidam com eles que faz a diferença. A maneira de encarar a realidade muda de acordo com variáveis como a idade e, nesse quesito, os jovens podem ter um traço vantajoso em relação aos mais velhos. Para mapear o jeito como as novas gerações lidam com adversidades no serviço, o Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube) disponibilizou via internet uma pesquisa com a pergunta: Como você mostra sua insatisfação no trabalho? Os participantes escolheram entre cinco opções: Falo na hora e tento resolver o problema (escolhida por 83,55% do público); Fecho a cara (7,7%); Saio do ambiente nervoso (3,65%); Compartilho a questão com outras pessoas (3,54%); e Não consigo fazer minhas atividades (1,57%). Ao todo, 9.954 pessoas de 16 a 24 anos responderam à questão entre 16 e 27 de novembro do ano passado.

Na vida pessoal, indivíduos dessa faixa etária tendem a se preocupar menos com bens materiais e mais com as experiências, pagar uma viagem em vez de compra uma casa, por exemplo, explica Sergio Henrique Miorin, professor do Institute Business Education / Fundação Getulio Vargas (IBE/FGV) e diretor-geral da SM Consultoria, Treinamentos e Palestras. Como profissionais, os milleniuns e os nativos digitais (veja quadro Entendendo as gerações) são bastante criativos e produtivos. “Eles trabalham com metas e fazem de tudo para conseguir realizá-las”, complementa. Os adultos da geração Y também são mais despojados e tratam o chefe direto de maneira mais natural, segundo o professor. “Isso deixa o ambiente empresarial mais informal e descontraído”, acrescenta.

O psicólogo e administrador de recursos humanos Marcelo Cunha, analista de Treinamento do Nube, foi um dos responsáveis por analisar os resultados da pesquisa e acredita que a massiva preferência pelo diálogo imediato é a cara dos milleniuns. “São jovens muito mediatizados e comunicativos, diferentemente das gerações anteriores. Eles dão muita importância ao feedback, às interações no ambiente de trabalho e, no mínimo, estão dispostos a ouvir a outra parte envolvida no problema. Isso é uma grande demonstração de maturidade”, explica. Porém, esse amadurecimento é diferente, sendo uma mistura do ímpeto quase adolescente dos Y e de um pensamento mais aberto, segundo Marcelo.

 

Jéssica Gotlib
 

 

Em tempos de crise, quem prefere conversar com o chefe para sanar dificuldades só tem a ganhar em comparação a quem adota outras posturas. “A recessão deixa todos preocupados, especialmente pessoas em começo de carreira. Por isso, a tendência é que cada vez mais profissionais adotem o dialogo em vez de agir por puro impulso e ficar de cara amarrada ou sair do local nervoso”, comenta Marcelo. Sobre os outros comportamentos apontados, o psicólogo explica que eles não são necessariamente ruins, mas demonstram uma maneira menos adulta de encarar dificuldades. “Em alguns casos, pode até ser bom dar um tempo, levantar-se para tomar café, esfriar a cabeça porque, em momentos de estresse, corre-se o risco de errar no tom da reclamação. Mesmo assim, ouvir o outro lado envolvido ou a opinião de terceiros é o melhor caminho para solucionar qualquer problema”, considera.

Antecipando conflitos
Há 24 anos no mercado brasiliense, a empresa júnior AD&M Consultoria Empresarial é formada por estudantes de administração da Universidade de Brasília (UnB) que assessoram negócios locais, novos e tradicionais, nas áreas de finanças, gestão de pessoas, marketing e organização e processos. Conflitos causados pela diferença de idade entre clientes e consultores são inevitáveis, mas podem ser contornados e amenizados com treinamento e empatia, como conta Cristina Cavaletti, 22 anos, presidente organizacional da AD&M. “Cada instituição tem peculiaridades, mas tentamos estar preparados para ouvir e entender a todos dentro do contexto particular em que estão inseridos. Os casos mais desafiadores são de empresas familiares, pois são mais tradicionais e existem há mais tempo. Em geral, elas têm uma maneira prévia de tocar o negócio, então fica mais difícil oferecer muitas mudanças”, explica.


Fazer sugestões de maneira cuidadosa e entender bem do ramo em que o cliente trabalha são maneiras de evitar divergências. “Um dos melhores casos que atendi foi o de uma companhia que estava sendo passada dos pais para a filha. Ela tinha uma idade próxima à nossa e também queria inovar na maneira de conduzir o empreendimento. Isso acabou contagiando os patriarcas e se tornou um caso muito bom de trabalhar”, lembra Cristina. Ela afirma que, em casos nos quais não há um intermediário mais jovem, buscar uma relação cordial e respeitosa com os clientes é uma boa saída. “Outra coisa que ajuda é a experiência dos professores. Sempre que temos um problema e não sabemos como resolver, eles ajudam e dão conselhos”, destaca.

 

Gestão de talentos

 

Pelo ponto de vista dos chefes, lidar com essa geração hiperconectada requer inovações no modelo de gestão e abertura para negociar desde a forma de cumprir os horários de expediente até o modelo hierárquico adotado. Essa é a fórmula que Cida Caldas, 52 anos, dona da livraria e café Sebinho, na 406 Norte, encontrou para lidar com a equipe, formada majoritariamente por estudantes universitários. “Ao longo do tempo, fomos percebendo quais eram as necessidades deles e adaptando nosso modelo de negócio. Adotamos um padrão descentralizado, sem a presença daquele chefe carrancudo.

 

Eles têm autonomia para tomar decisões dentro da função que desempenham e, sempre que precisam, vêm até mim para combinar mudanças de horário, por exemplo”, revela a dona do negócio, que atua no mercado brasiliense há 30 anos.


 Cursando o 6º semestre de letras japonês na UnB, Wanderson Tobias, 21, é representante dessa parcela da população.

 

Vendedor do Sebinho há dois anos, ele atuava antes como designer freelancer e tinha muita dificuldade para trabalhar com chefes mais tradicionais. “Não existia espaço para que eu desse minha opinião, simplesmente fazia o que me mandavam nas diversas empresas em que atuei”, lembra.


 Um dos pontos de atrito era a própria aparência: Wanderso gosta de se vestir de maneira irreverente e fashion. “Fiz alguns trabalhos para uma embaixada e, na entrevista, fui avisado de que teria que tirar os piercings e usar roupas formais. Era como se eu tivesse que ser outra pessoa para ir ao trabalho”, confessa.


Depois de ter sido contratado pela livraria, o estudante resolveu pintar o cabelo de azul, mas, antes, consultou a chefia, e a resposta o surpreendeu. “Para eles, a pergunta nem fazia sentido, me disseram que eu podia até ficar careca”, lembra, aos risos.

Mundo em transição
O momento atual é de transformação no modo de trabalhar e é, a partir dessas mudanças, que surge a maior parte dos impasses entre funcionários e gestores, defende o professor Giovanni Alves, do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Entre 2003 e 2013, ele desenvolveu o projeto de pesquisa A derrelição de Ícaro — Sonhos, expectativas e aspirações de jovens empregados do novo (e precário) mundo do trabalho no Brasil. Para o professor, nos novos padrões, trabalha-se mais, e é preciso doar a própria subjetividade à marca. “Não basta vestir a camisa, você tem que ser o conceito que as empresas querem vender. A geração Y está disposta a isso, mas também quer reconhecimento”, esclarece.


Ele explica que não se trata apenas de recompensas financeiras, mas de liberdade para trabalhar e de posições hierárquicas mais flexíveis, sem necessariamente receber ordens de alguém; também é importante que as chefias sejam abertas ao diálogo. “O cenário brasileiro é bastante resistente a isso porque o país vem de formação altamente tradicional, com resquícios escravistas. É um mercado bastante predatório que acaba perdendo talentos”, afirma.


 Além da questão geracional, o professor analisa que o comportamento dos milleniuns depende da área, do cargo e do tipo de contrato. “A maior parte dos jovens no Brasil está em postos precarizados — estágios, trabalho informal, como terceirizados, freelancers ou em contratos temporários — e não têm espaço para nenhum tipo de comportamento fora dos padrões”, comenta.

 

Entendendo as gerações

Conheça como são definidos os nascidos em diferentes décadas

 

Veteranos: nascidos entre 1922 e 1945
Cresceram entre as guerras mundiais e foram educados para a disciplina rígida e respeito às hierarquias

Boomers: nascidos entre 1945 e 1965
Otimistas em relação a mudanças no mundo político, viveram uma fase de engajamento contra governos tiranos

Geração X: nascidos entre 1965 e 1977
Céticos e politicamente apáticos, refletem as frustrações da geração anterior e assumem a posição de espectadores na vida pública

Geração Y (mileniuns): nascidos entre 1977 e 2000

Otimistas em relação ao futuro, comprometidos com a esfera ecológica e engajados em prol da justiça social e em voluntariados

Geração Z (nativos digitais): nascidos a partir do ano 2000
São críticos, dinâmicos e exigentes. Não diferem a vida on-line da off-line. Não gostam de hierarquias, nem de horários pouco flexíveis

Fonte:
Sérgio Miorin, professor do IBE/FGV

 

Dicas para se comunicar

Se você não sabe como falar com seus superiores e colegas quando algo lhe incomoda, confira técnicas:

Espere a poeira baixar: no calor da emoção, as coisas podem parecer maiores do que são.


Diminua expectativas:
se o atraso na entrega de um relatório, por exemplo, é inevitável, é melhor informar isso com antecedência
Peça opiniões: outras pessoas da equipe podem ajudar a esclarecer os fatos.
Encontre alternativas: talvez o diálogo não esteja surgindo por causa do ambiente; chame o gestor para uma conversa em outra sala ou para tomar um café.

Veja sugestões para conversar sobre problemas com o chefe
Tire um tempo para pensar: refrescar as ideias sempre é bom, sobretudo quando envolve questões delicadas.
Racionalize o problema: diminua o foco nas emoções e entenda a real importância dos fatos.
Seja transparente: tenha definido e muito claro o que você quer e por que acha justo receber.
Converse com outras pessoas: a ideia não é fazer fofoca, alguém que não esteja diretamente ligado ao problema pode enxergar coisas que você não vê naquele momento.
Valorize a empatia: entenda como o gestor pensa e tente ver as coisas sob o ponto de vista dele. Isso faz com que o diálogo seja melhor entre vocês dois.

Se você é gestor, veja como trabalhar bem com um jovem
Converse: o diálogo é a principal forma de lidar com a equipe.
Dê retorno: por meio de uma capacitação; ou do próprio chefe, o feedback é importante.
Tenha paciência: é preciso saber a hora de ceder aos pedidos deles, mas também a de cobrar.
Tenha clareza: fale com exatidão  a forma de trabalho e não deixe margem para dúvidas.
Dê liberdade: essa geração precisa de espaço, então dê autonomia a eles no trabalho.