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A voz do vendedor

O comércio de rua está presente nas cidades desde o princípio dos processos de urbanização. Dos errantes medievais aos caixeiros viajantes da modernidade, onde existia circulação de pessoas aparecia um vendedor. Essa figura histórica também está presente no contexto atual. Confira aqui histórias surpreendentes de ambulantes que usam a voz para vender

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postado em 28/02/2016 14:00 / atualizado em 28/02/2016 14:17

Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

Jéssica Gotlib

 

A frase bradada por Patrícia Pereira, 20 anos, na Rodoviária do Plano Piloto, é a mais conhecida entre os vendedores ambulantes. Quanto mais você compra, mais desconto ganha. A jovem está há 3 anos vendendo cocada caseira e quebra-queixo, desde que saiu do emprego de vendedora. Enquanto algumas pessoas esperam na fila e outras passam apressadas pelo terminal, ela faz a propaganda. “É totalmente caseira e feita com bastante cuidado”, explica.


A vendedora conta que escolheu a Rodoviária porque é um local mais movimentado. “Eu vendia no engarrafamento da BR-040, mas lá agora está muito fraco, aí voltei pra cá, porque sei que sempre tem gente circulando”, diz. Ela mora em Santa Maria, sai de casa às 7h e só volta depois de vender todos os doces.


“Esse foi o jeito que encontrei para driblar a falta de emprego, mas também é um negócio de família. Meus pais são vendedores de doces há 22 anos. Quando era pequena, eu os acompanhava”, conta.


São vendidas, em média, 80 unidades por dia. Voltando a estudar depois de seis anos,  ela pretende concluir o ensino médio. “Quero  também fazer um curso técnico em enfermagem ou de gestão de recursos humanos”.
(*) Fala do personagem

 

Jéssica Gotlib
 

Divertido e bem articulado, Sylfarllen Nascimento, 24 anos, prefere ser chamado apenas de Farllen. “Para facilitar.” Além de metais preciosos, ele também divulga uma clínica que faz exames admissionais e demissionais. O salário é uma comissão que varia conforme o número de clientes levados até os estabelecimentos — oscilando entre R$ 300 e R$ 1 mil por mês. Mas o jovem não faz o tipo estovador. “Se a pessoa não quer, não insisto, não corro atrás. Mas, se vejo que está na dúvida, encontro um jeito de convencer”, lembra.


O começo no ramo foi por acaso. Há cinco anos ele estava “de bobeira” com um amigo quando foram convidados para panfletar. “Eles pagavam R$ 6 por uma hora. Eu não estava fazendo nada. Lógico que aceitei”, explica. Desde então, passa os dias sob o sol na plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto.


Farllen começou a trabalhar aos 12 anos, contra a vontade dos pais em busca de independência financeira. “Você quer uma coisa, aí seus pais não dão, ficam regulando. Eu não aguentava aquilo”, lembra. De lá para cá,  foi de tudo. Servente de pedreiro, pintor e vendedor são só alguns empregos da lista dele.


Mas tanta vontade de produzir rendeu uma perda: o rapaz abandonou os estudos aos 19 anos, ainda no começo do ensino médio. Só voltou à escola este ano  — e  focado. “Todo mundo sonha e eu não sou diferente. Quero abrir minha própria empresa de joias e me formar em administração”, diz. Enquanto o diploma não chega, ele garante que tem meios de aprender sobre qualquer assunto. “Quem tem curiosidade não fica burro. Você vai perguntando aqui, observando ali e logo  sabe um monte de coisas novas.”


Mas a preocupação com o futuro é porque está no segundo casamento e tem um filho de três anos fruto da primeira relação.

 

Jéssica Gotlib
 

Quem nunca se deparou com uma promotoras de vendas das operadoras de telefonia nas ruas do DF? Edriangela Barbosa, 28 anos, é uma delas. Há um ano e quatro meses lotada em uma empresa terceirizada, ela trabalha cada dia para uma empresa diferente.


“Adoro esse emprego, é divertido conhecer várias pessoas, conversar com os clientes. Sem contar que aprendo muitas coisas aqui”, explica, ao acrescentar que está há 3 anos no ramo e não pretende mudar de emprego tão cedo. “Já  trabalhei como doméstica e fui vendedora de loja, mas aqui é mil vezes melhor”, afirma.


Edriangela nasceu em Ceilândia e se mudou para Águas Lindas aos 14 anos, onde mora até hoje, com os três filhos e o marido. Por dia, ela percorre 110km de casa até o trabalho, mas diz que já se acostumou com o deslocamento.
O salário como promotora de vendas também depende de comissão; algumas conseguem chegar a mil reais. Para Edriangela, é suficiente, por enquanto.

 

 

“Pequi por oito  reais, só os mais  filés para você”

No Taguacenter é a voz de Alex de Oliveira Lopes, 30 anos, que ressoa. Ele é vendedor de frutas há 10 e já foi motorista de van, na época das lotações. Articulado, ele vende goiabas a R$ 5, descasca pequi e ajuda um grupo de pessoas a encontrar a Avenida Samdu — tudo isso enquanto dá entrevista.


“Vamo arrocha”, grita ao companheiro Ney de Maria, que também trabalha na banca. O chamado é para que o amigo atenda uma senhora que chegou procurando umbu. Nascido em Brasília, Alex não terminou o ensino médio e mora em Águas Lindas.


O rapaz acorda às 4h e só volta para casa às 23h. Folga só em feriados e nos domingos depois do meio-dia. O resto do tempo é dividido entre as ruas do Taguacenter e a feira dominical da Praça do Bicalho, também em Taguatinga.
O motivo para tanto esforço não é por ser pai de cinco filhos e está no quarto casamento. “É muita gente para alimentar”, brinca.

 

 

“Pastelão de altíssima qualidade é aqui”

“Boa tarde, mocinha. Que tal um pastel fresquinho?”, ouve-se de longe a voz de Maicon Cristian, 23 anos, na Feira do Guará. Ele trabalha na barraquinha há sete anos e se orgulha de contar que foi subindo de posto dentro da empresa. “Fui contratado para servir caldo, depois comecei a fritar pastel e, quando surgiu a vaga, fui colocado nesse posto”, explica. O cargo que ele ocupa é uma mistura de gerente, coordenando toda a equipe, e promotor de vendas, chamando os clientes.


Brasiliense e morador de Luziânia, a distância não é um grande obstáculo para ele. “Gosto muito de trabalhar com o público, conhecer pessoas e ver o movimento da feira”, conta. Apesar disso, Maicon pretende mudar de ramo. “Quero continuar como vendedor, mas pretendo trabalhar com outra coisa que não seja comida.”

 

Jéssica Gotlib
 

O casal Rosalina dos Santos Oliveira, 70 anos, e Alfredo Alves de Oliveira, 78, veio de São Paulo para Brasília para ficar próximo da filha e dos netos que se mudaram para cá. Casados há 56 anos, eles fazem e vendem juntos várias peças de artesanato, como tapetes, pesos de porta e caminhos de mesa. “Somos a carne e a unha”, brinca Alfredo.


Ambos são comerciantes aposentados e vendem em, média, 50 peças por fim de semana. Apesar da ajuda na aposentadoria, o principal motivo que leva o casal às ruas é entretenimento. “Eu amo vender na rua, passa o tempo. Nós não aguentaríamos ficar em casa o dia inteiro, sem fazer nada”, conta Rosalina.

 

 

 

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