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Emprego para universitários

Para custear estudos e despesas pessoais, estudantes recorrem ao mercado de trabalho. Mas o Centro-Oeste é a região do país em que há menos jovens empregados, segundo o estudo Radar 2015

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postado em 06/03/2016 15:24 / atualizado em 06/03/2016 15:33

Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

Jéssica Gotlib

Livros, intercâmbio, happy hour com os amigos, viajar para congressos, morar longe dos pais, mensalidade. Tudo isso custa caro, mas os jovens não estão dispostos a abrir mão dessas comodidades, mesmo que tenham que se esforçar para equilibrar trabalho e estudo. É o caso de Guilherme Reis, 24 anos, do 5° semestre de geologia na Universidade de Brasília (UnB). Durante a graduação, ele já trabalhou como freelancer em um café da Asa Norte, em um quiosque de comida de rua, fez estágio remunerado e, eventualmente, é aplicador em concursos públicos nos fins de semana.

“Decidi trabalhar para poder ter uma renda extra. Queria bancar uma vida social melhor, poder comprar o que eu quisesse sem me preocupar em tirar do que minha mãe manda para  manter-me em Brasília. Dar a mim mesmo alguns mimos”, explica. O estudante, que veio de Paracatu (MG), lembra que, com o dinheiro ganho, já pagou bens pessoais de pequeno valor, viagens  e dois intercâmbios para os Estados Unidos. Segundo ele, há facilidade em conciliar emprego e estudos, uma vez que procura trabalhos com horários flexíveis e que sejam perto de casa.

O estudo Radar Jovem 2015 ouviu 4 mil pessoas com idades entre 18 e 30 anos em seis cidades de todas as regiões do país. Considerando toda a amostra, 34% dos entrevistados recorrem à ajuda financeira dos pais. Enquanto no Sudeste o número ficou em 26% e no Sul 46%. Contudo, mais de dois terços dos brasileiros nesta faixa etária afirmaram retirar rendimentos do trabalho — seja em contratos com carteira assinada, estágios remunerados, seja trabalhos informais. Esse número é menor no Norte (53%) e no Nordeste (55%), mas é no Centro-Oeste (44%) que há menos jovens a conseguir rendimentos do trabalho.

Demandas diferentes

O monitoramento é feito anualmente pela B2 Agência, empresa especializada em conectar o público universitário a marcas e produtos. De acordo com Eduardo Mendes, sócio-diretor da B2 em Brasília e Goiânia, existem duas realidades distintas entre os estudantes de instituições privadas e públicas. “Nas particulares, a maior parte trabalha por necessidade, ou para pagar parte da mensalidade, ou para custear gastos como transporte e alimentação. Enquanto isso, nas públicas, o trabalho tem uma relação maior com o desejo de consumo dos alunos, como ir a festas, pagar viagens ou comprar itens eletrônicos”, esclarece.

Jean Gonçalves, 20 anos, se encaixa nessta avaliação. Ele teve o primeiro emprego aos 17 anos como menor aprendiz e, depois que entrou para a faculdade, voltou ao serviço para auxiliar os pais a pagar pelo curso de ciências contábeis na Unieuro. “Meus pais me apoiam e são bem liberais em relação às minhas escolhas. Quando eu disse a eles que ia trabalhar, não reclamaram”, conta o rapaz, que já está no terceiro semestre da graduação.

Segundo o estudante, a faculdade é toda paga por ele e, com o que sobra, compra itens de uso pessoal e custeia festas e saídas com amigos. “O dinheiro é suficiente porque tenho 50% de desconto na mensalidade. Em relação ao tempo, consigo administrar tranquilamente. Só é ruim depois das férias para me readaptar à rotina corrida”, diz. Jean, que é atendente em uma livraria, aponta outra vantagem no trabalho, poder comprar livros com desconto ou pegá-los emprestados.

 

Busca pela independência

 

Eduardo Mendes, da B2, diz que a busca por independência é também um traço de personalidade da juventude. “O jovem não quer apenas ter seu próprio dinheiro, ele quer ter opinião e personalidade. Quer mostrar ao mundo quem é e para que veio. Entrar para o mercado de trabalho é também uma forma de se destacar”, observa.

Jéssica Gotlib

O caso de Juliana Kitayma, 21 anos, estudante do 7º semestre de ciências sociais da UnB, pode ser visto como exemplo dessa observação. A estudante, que se especializará em antropologia, começou a trabalhar aos 18 anos. “Eu queria ter meu próprio dinheiro, ser mais autônoma em relação à minha família. Foi quando fui ao café com minha irmã e descobri que eles contratavam estudantes por diária”, lembra. Juliana conta que não dá para trabalhar todos os dias durante o período letivo, uma vez que faz curso diurno e o horário de entrada no café choca com algumas aulas da tarde. “Eu venho quando posso e isso é o melhor. Nas férias, estou vindo todos os dias, mas durante o semestre escolho as melhores datas. Com esse trabalho, aliei a independência financeira à flexibilidade que precisava”, explica

Questão de economia
Mais que a vontade dos jovens, o momento econômico do país também influencia na entrada dos estudantes no mercado. É o que afirma Ricardo Antunes, professor titular de sociologia do trabalho no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp/IFHC). “Existem muitos jovens em idade de trabalhar que ficam apenas estudando, mas isso depende do momento da economia. Há 30 anos, só existia a opção de procurar emprego e constituir família. O problema em um quadro de recessão, como o de agora, é que sobram apenas os postos mais precarizados para a mão de obra jovem”, analisa.

"Eu queria ter meu próprio dinheiro, ser mais autônoma em relação à minha família”
Juliana Kitayma, 21 anos, aluna da UnB

 

Leia

 

Adeus ao trabalho? ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho
Autor: Ricardo Antunes.
Editora: Cortez.
288 páginas.
Preço: R$ 43,20

Nesse livro, o autor aborda as mudanças de centralidade do tema trabalho ao longo dos séculos e o sonho que parece prevalecer na atualidade de um mundo sem trabalhadores, constituído apenas por burguesia.

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