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Fui demitido, e agora?

Tempo de espera por recolocação profissional quase dobrou em virtude do momento desfavorável da economia, diz especialista. No entanto, existem maneiras de enfrentar a situação com paciência e planejamento

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postado em 20/03/2016 14:11 / atualizado em 20/03/2016 14:18

Jéssica Gotlib /Especial para o Correio

Jéssica Gotlib
Ter o nome incluído na lista de cortes da firma é um pesadelo para qualquer pessoa — ainda mais em um momento complicado da economia nacional, que ocasiona uma quantidade de candidatos muito maior, um número de vagas menor e, consequentemente, um tempo de espera aumentado para conseguir novo trabalho. É o que observa Daniela do Lago, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV). “O intervalo médio para voltar a ter um emprego passou de quatro ou cinco meses para oito ou nove. Pode ser ainda maior quanto mais alta a função exercida e a pretensão salarial”, avalia ela, que dá aulas de gestão de pessoas, comportamento organizacional, comunicação e relacionamento interpessoal.


Em 2015, a taxa de desocupação média ficou em 8,5%, o que significa 8,6 milhões de trabalhadores desocupados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada na última terça-feira. O dado representa 1,9 milhão de pessoas a mais em busca de trabalho em relação a 2014. “Em última análise, isso quer dizer que há maior procura por empregos em um momento em que a oferta está em baixa”, esclarece Daniela. Do cargo iniciante ao empregado sênior, todos estão ameaçados no cenário de crise, argumenta a professora. Contudo, a situação deve ser encarada apenas como mais uma etapa na carreira e pode ser revertida, alerta a Daniela. “É como um jogo de tabuleiro, às vezes, você tira a carta da sorte e avança três casas, em outras você tem azar e volta ao início. Mas ninguém morre por isso. É preciso manter a calma, saber se planejar e ter paciência para voltar ao mercado”, diz.


“Neste momento, as empresas não estão focando no perfil do profissional, mas em uma estratégia de redução de gastos. Muitas optam por cortar funcionários de cargos mais altos, uma vez que ganham mais e, assim, acabam mandando menos pessoas embora. Porém, também existe quem prefira manter profissionais de liderança. De qualquer forma, é um momento de insegurança generalizada, mas ninguém deve considerar a demissão como uma falha pessoal”, informa. “O que as pessoas têm que entender é que ser mandado embora faz parte da vida, com crise ou sem crise. Quase todos que trabalham no setor privado um dia vão passar por essa experiência. Muitas vezes, é um rearranjo na empresa, em outras, como agora, é o momento do mercado e também pode ser a forma como a pessoa trabalha que não se encaixa mais com o modelo da firma. O período pós-demissão é uma chance de dar uma pausa para repensar a trajetória profissional”, complementa Daniela do Lago, coach de carreiras.

Primeiros passos
“Em um quadro ideal, o profissional deve sempre estar preocupado com a empregabilidade, fazer contatos e ter um fundo financeiro de reservas para qualquer eventualidade. Sabemos, porém, que não é a realidade na maior parte dos casos. Assim, a primeira coisa a se fazer é rever os próprios gastos e entender de quanto dispõe até que se consiga uma nova colocação”, informa Ricardo Karpat, especialista em recursos humanos e diretor da Gábor RH. Ricardo explica que a recolocação é mais difícil do que procurar o primeiro emprego, uma vez que é um novo começo para um profissional que pode não estar com toda aquela disposição do início de carreira. “O caminho é sempre o mesmo: fazer contatos, frequentar lugares em que estejam pessoas relacionadas à área, participar de cursos, workshops e palestras. No fim, o mais importante é o profissional se mostrar disposto durante entrevistas e processos seletivos.”


Formando em administração há um ano, Fender Kelson Pereira, 27, perdeu o emprego como gerente administrativo em 8 de março. Ele diz que não vê problema em fazer concessões na busca por trabalho, mas não aceita retroceder. “O que mais tenho visto são vagas em shoppings e lojas, mas isso não quero mais. Trabalhei quatro anos no comércio, mas, agora, desejo um emprego que me dê, ao menos, folga nos fins de semana”, conta. “Estou participando de vários processos seletivos e quero um trabalho na minha área de formação. Espero que encontre logo.” O administrador diz ainda que não conseguiu fazer uma poupança para o período entre um contrato e outro, mas garante a renda vendendo cosméticos.
Ter exigências negociáveis é um passo importante para conseguir um novo posto, conta a coach de carreiras e professora de cursos de MBA na FGV Daniela do Lago. “Nesses momentos, o profissional precisa descer um degrau e ter visão de futuro. Aceitar uma vaga com remuneração um pouco menor ou um cargo mais baixo do que o que ocupava anteriormente agora pode significar uma promoção no futuro”, explica. Ricardo Karpat tem a mesma opinião e diz que é preciso tomar cuidado com o imediatismo. “Certamente, é uma situação desesperadora, mas o trabalhador tem que pensar à frente. Em vez de passar meses procurando o emprego perfeito, é melhor aceitar algo abaixo das expectativas e tentar crescer depois, dentro da empresa, quando a situação estiver mais favorável”, diz.

 

Exigências

 

Jéssica Gotlib
Formada em turismo e gastronomia, Iully Costa, 22, trabalha como faturista, auxiliar administrativa e atendente desde os 18 anos. Ela tinha um emprego numa empresa de pequeno porte que, para cortar gastos, mudou de endereço. Como o novo local ficava muito longe de casa, Iully optou por pedir demissão há um mês. A jovem começou a estabelecer conexões com outros profissionais da área. “Pelo que estou vendo, não devo conseguir emprego muito rápido. Tenho umas economias, mas acho que não vai dar até o novo trabalho. Estou participando de alguns cursos no Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e fazendo outros on-line nas áreas de contabilidade e administração, que são as em que tenho mais experiência”, conta. Iully é moradora de Taguatinga e diz que não está procurando por salários muito altos, mas tem uma condição da qual não abre mão: o novo emprego não pode ser muito longe de casa.


Na hora de encontrar uma nova posição, Ricardo Karpat recomenda avaliar bem as próprias condições. “Se existe um fundo de reserva, vale a penas esperar um pouco e não aceitar qualquer emprego. Pode ser uma grande dor de cabeça no futuro. Agora, se a pessoa não tem outra fonte de renda ou precisa com urgência, não existe muita escolha”, explica. Segundo ele, escolher uma empresa com um bom plano de carreira faz toda a diferença. “Para isso, vale perguntar aos amigos ou mesmo na entrevista quais são as perspectivas de crescimento dentro da organização. É uma atitude que, além de te ajudar a escolher um lugar melhor para trabalhar, vai mostrar ao entrevistador que você está disposto a crescer”, completa.

Eu consegui
Liliane Cavalcante, 34, é formada em administração e mora em Brazlândia. Ela passou três meses buscando emprego depois que foi dispensada do cargo de instrutora administrativa em uma empresa de grande porte. “Foi muito difícil. Senti medo de não conseguir um novo posto. Procurei em todas as áreas administrativas que tenho experiência: atendimento ao público, recursos humanos, financeira e como instrutora de cursos”, lembra. “Fiquei sempre atenta a sites e blogs. Mandei currículo para todas as vagas que apareciam”, explica ela, que foi contratada para dar aulas de administração em um curso profissionalizante em 11 de março. Segundo Liliane, a vaga havia sido divulgada pela internet. Ela conta também que não tinha muitos contatos no ramo. “Talvez, por isso, tenha sido mais difícil.”

 

Como conseguir se recolocar no mercado

» Tire um tempo para você, tomando cuidado para não abusar

» Reveja  seu orçamento e tente expandir suas reservas pelo maior     período possível

» Não  tenha vergonha nem deixe a autoestima ser abalada por uma situação decorrente de um cenário de crise

» Divulgue  ao máximo de pessoas possível que você está  procurando emprego, inclusive nas redes sociais

» Se  conecte com profissionais da área

» Participe  de palestras, cursos, workshops — aproveite o que for gratuito

» Distribua  seu currículo de todas as formas, mas dê preferência  para entregá-lo pessoalmente

» Encare  a procura por trabalho como um emprego, marque hora e tenha  compromisso com a busca

» Tenha  paciência, é bem provável que o novo emprego demore

» Considere  a possibilidade de aceitar um salário mais baixo ou um cargo  menor

» Não  busque o emprego perfeito

» Você até pode aceitar um salário menor, mas seja exigente  na hora de escolher a empresa, um bom plano de carreira é  fundamental para o futuro

» Não  perca a motivação para trabalhar

Fontes: Daniela do Lago e Ricardo Karpat

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